Norcon equaciona dívida e refaz planos

9 02 2010

(Valor Econômico) – 09/02/2010

Construtora sergipana diz que não precisa mais de sócio estratégico e já estuda mercado do Pará

Após três tentativas frustradas de se capitalizar por meio da atração de sócios, a construtora sergipana Norcon, líder no mercado nordestino de baixa renda, decidiu tocar sozinha o seu plano de expansão pela região Nordeste. No último ano, a empresa diz ter sido procurada por grandes construtoras do Sudeste, que buscavam uma associação ou até mesmo a aquisição da Norcon. Como não houve acordo, a empresa optou por renegociar com bancos uma fatia importante de sua dívida, hoje estimada em torno de R$ 250 milhões, e seguir a vida sozinha.

A direção da Norcon garante que a operação forneceu o fôlego financeiro necessário à consolidação de sua presença nos quatro estados onde atua hoje: Sergipe, Alagoas, Bahia e Pernambuco. No entanto, a construtora já tem projetos no Ceará e estuda a sua entrada também no Rio Grande do Norte e na Paraíba. “O Nordeste é um mundo à parte. Tem muita coisa a ser feita aqui”, disse ao Valor o diretor-superintendente da empresa, Cristiano Teixeira.

O executivo explicou que R$ 170 milhões em dívidas que venceriam ao longo deste ano foram postergados para 2012, período em que a empresa já estará entregando projetos lançados em 2008 e cujo Valor Geral de Vendas (VGV) fica próximo dos R$ 450 milhões. “Não temos mais dívida de curto prazo. Conseguimos adequá-la ao nosso fluxo de caixa”, explicou.

O alto endividamento foi o principal motivo que levou a Norcon a buscar, em 2007, uma forma de se capitalizar. De olho no crescimento do promissor mercado da construção civil do Nordeste, a companhia chegou a ensaiar uma oferta inicial de ações (IPO), porém acabou desistindo. “Percebemos que não havia janela para a operação naquele momento”, contou Teixeira.

A partir de então, plano foi tentar atrair um sócio estratégico e financeiro. Esse sócio traria dinheiro e alguma expertise, em troca de uma participação minoritária na empresa. Assessorada pelo Credit Suisse, a direção da Norcon visitou potenciais investidores em São Paulo, Estados Unidos e Europa. Quando finalmente encontrou um sócio interessado, um fundo de private equity americano especialista no setor imobiliário (que não teve o nome revelado), o acordo acabou minguando em setembro de 2008, na onda da eclosão da crise financeira internacional.

“A partir daí, a decisão mais sensata foi abrir para algumas empresas, já que a Norcon tinha feito investimentos em terrenos e tinha que avançar nos empreendimentos já lançados”, explica o diretor. Após conversas infrutíferas com Cyrela, Gafisa e Brookfield, a empresa iniciou, em fevereiro de 2009, negociações para uma associação com a PDG Realty. As conversas duraram cerca de nove meses, mas foram encerradas em 10 de novembro, também sem acordo.

Segundo Teixeira, a PDG Realty queria uma fatia maior da que a direção da Norcon estava disposta a vender. “Não queríamos que chegasse aos 50%”, informou o executivo, para depois acrescentar que também houve divergências relacionadas ao valor da transação. “Temos uma marca forte, e nossa marca vende”, defendeu-se.

O interesse das grandes construtoras pela Norcon se deve, basicamente, à presença consolidada da empresa no mercado nordestino e em seu sistema construtivo de estruturas pré-fabricadas, que ganhou importância depois do programa habitacional do governo, por diminuir sensivelmente o tempo de construção das casas.

Atualmente, a empresa tem 51 obras em andamento, sendo 15 em Aracaju (SE), três em Maceió (AL), duas em Salvador (BA) e uma no Recife (PE). Boa parte dos projetos são tocados pela subsidiária FelizCidade, voltada ao segmento chamado de “super econômico”. Além dos planos para o Nordeste, a Norcon também analisa a entrada no mercado da região Norte, mais especificamente de Belém (PA).

Diante das negociações fracassadas, mas, principalmente, do fim da crise financeira, a empresa ensaia agora um grito de independência: “Não estamos negociando com ninguém. E pretendemos continuar assim”, disse Teixeira. Porém, sensato, preferiu amenizar instantes depois: “Nunca se diz não a tudo. Estamos abertos, mas não precisamos mais (de um sócio), como precisamos no passado.”





O Preço da História – Imóvel Tombado

7 02 2010

(Folha de São Paulo) – 24/01/10

O status de morar ou estabelecer ponto comercial em um imóvel tombado – que, em alguns casos, também se alia à isenção de IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano)- deve ser avaliado frente às despesas de manutenção e ao risco de não poder reformar o bem.

Embora haja cerca de 2.000 edifícios tombados na cidade de São Paulo, ainda existe o receio de que colocar uma edificação sob tutela pública “engesse” o imóvel, diz o arquiteto e diretor do Departamento do Patrimônio Histórico do município, Walter Pires.

O primeiro aspecto a ser avaliado antes de optar por uma aquisição dessas é a possibilidade de “retrofit”, orienta Thomaz Assumpção, engenheiro e presidente da consultoria imobiliária Urban Systems.

No jargão da construção, o termo significa reformar e modernizar um edifício antigo para que fique compatível com exigências do mercado. Trata-se da aplicação de melhorias como instalar ar-condicionado, trocar elevadores e atualizar as redes elétrica e hidráulica.

Irineu Ruffo, sócio do Moinho Eventos, espaço para festas localizado no antigo complexo industrial dos Grandes Moinhos Gamba, no bairro da Mooca (zona leste), conta que o desafio de estabelecer um negócio em um imóvel como esse é arcar com a manutenção.

“Pela idade da construção, é preciso investir muito em reparos e ter atenção especial a problemas hidráulicos e de infiltração”, declara. Em residenciais, esses cuidados implicam um condomínio mais caro.

Ruffo aluga o imóvel há oito anos, desde quando ainda não havia sido tombado pelo Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo).

“A solicitação de tombamento foi feita pela associação dos moradores do bairro, e só soube da decisão da prefeitura, tomada em 2007, quando a notícia foi publicada nos jornais.”

Incentivo
Walter Pires admite que a legislação de incentivos a proprietários e locatários de imóveis tombados precisa ser aprimorada. “Mas, atualmente, em alguns casos de construções tombadas localizadas no centro de São Paulo e em bom estado de conservação, já existe a isenção do IPTU [Imposto Predial e Territorial Urbano]”, afirma.

Além de verificar com o órgão responsável pelo tombamento do imóvel se há a possibilidade de pedir isenção do imposto, o proprietário também pode recorrer às leis de incentivo à cultura, como a Lei Rouanet, para investir em projetos de restauro ou executar obras no patrimônio. “Cada caso deve ser analisado individualmente”, esclarece Pires.

Tombamento deve valorizar imóveis do bairro City Lapa
Além de imóveis, regiões que tenham valor cultural, ambiental e paisagístico também podem ser tombadas pelo patrimônio histórico. “O processo é o mesmo”, comenta Walter Pires, do Departamento do Patrimônio Histórico (saiba mais no quadro acima).

Foi o que aconteceu na última segunda-feira (18) com os bairros da zona oeste paulistana Alto da Lapa e Bela Aliança, conhecidos como City Lapa.

A decisão do Conpresp preserva as características originais da área, projetada nos anos 1920 pela inglesa Companhia City -empresa que também planejou os bairros Jardim América, Pacaembu, Jardim Guedala e Alto de Pinheiros.

O tombamento do City Lapa preserva traçado viário e áreas verdes e determina que nenhuma casa com mais de nove metros de altura seja construída, entre outras especificações.

“Dá uma segurança enorme aos moradores saber que amanhã não teremos um prédio alto como vizinho”, diz o presidente da Associação de Amigos Moradores pela Preservação do Alto da Lapa e Bela Aliança, Roberto Rolnik Cardoso.

“Essas restrições visam ao melhor uso possível para a finalidade de uma área; no caso, a residencial”, esclarece o consultor imobiliário Bernd Rieger. “Os imóveis de uma região com esse tipo de preservação acabam sendo valorizados”, conclui Thomaz Assumpção, da Urban Systems.

Um imóvel pode ser totalmente ou parcialmente tombado, dependendo do resultado da avaliação feita por especialistas em arquitetura e história, entre outras áreas.

Solicitação
“Qualquer pessoa pode pedir o tombamento”, diz Pires. A decisão, porém, será tomada pelo conselho do órgão responsável.

O solicitante pode encaminhar seu pedido a qualquer uma das três instituições de preservação do patrimônio histórico: o Conpresp, no âmbito municipal; o Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico), no âmbito estadual; e o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), no âmbito federal.

Técnicos e conselheiros do instituto procurado, ao avaliar o edifício, definem qual é o órgão mais indicado para cuidar do caso e quais são as estruturas dignas de tombamento -pode ser apenas a fachada, o imóvel todo, um jardim.

“A diferença de atuação é o valor [arquitetônico, histórico ou cultural] de cada bem. Nós podemos ter em uma cidade imóveis que possuam um enorme valor para o Brasil inteiro, pela arquitetura, pela história ou pela cultura. Nesse caso, essas edificações são reconhecidas pelo Iphan”, explica Pires.

“Mas há edificações que são importantes apenas para a cidade ou para o Estado e são tombadas pelo Conpresp ou pelo Condephaat”, completa.





Quem não gostaria de trabalhar num lugar assim?

7 02 2010

Cercado de jardins, muitas árvores, longe do transito e perto dos restaurantes e cafés da Vila Madalena, perfeitos para aquela reunião com um cliente, ou uma pausa no trabalho. Todas as salas terão varandas e jardins privativos. O projeto é do escritório FGMF.





Butique de Imóveis

7 02 2010

(Folha de São Paulo) – 29/01/10

Com o aquecimento do mercado imobiliário, a incorporadora IdeaZarvos está desenvolvendo um projeto arquitetônico sofisticado para um empreendimento de pequena metragem. O imóvel está em fase de desenvolvimento e deve ser lançado em quatro meses. Os apartamentos terão de 60 metros quadrados a 70 metros quadrados e estarão localizados na Vila Madalena, na zona oeste de São Paulo.

“Vamos oferecer um produto um pouco mais barato para aquelas pessoas que não conseguem comprar um apartamento com um conceito de arquitetura mais moderna e design diferenciado”, disse Otávio Zarvos, proprietário da IdeaZarvos. Um apartamento do novo projeto deve custar em torno de R$ 350 mil. A incorporadora já comercializou imóvel a R$ 1,5 milhão, com 250 m². A empresa desenvolve projetos diferenciados, em que o cliente define a planta, e premiados, como o edifício 360 do arquiteto Isay Weinfeld.





Inovação no setor de serviços e marco regulatório

6 02 2010

(Correio Braziliense) – 18/01/10

Inovação é, cada vez mais, item fundamental para medir o estágio de desenvolvimento do país e requisito essencial para uma economia competitiva, próspera e sustentável.

O conceito de inovação, em geral, é correlacionado com pesquisa e desenvolvimento (P&D) empresarial, porém distinto e mais amplo. Inovação implica em tecnologia, máquinas e equipamentos, mas vai além, contemplando também pequenas mudanças incrementais, novas funcionalidades, bem como melhorias na gestão ou novos modelos de negócios, associados à conquista ou criação de novos mercados.

As conexões entre ciência e tecnologia (C&T) com inovação tecnológica têm uma face mais evidente no que diz respeito ao mundo das indústrias de manufatura. Ocorre que atualmente entre metade e três quartos da riqueza produzida no planeta é criada não pela produção de coisas físicas, produtos, mas sim pela prestação de serviços.

Modelos de inovação tecnológica tradicionais e as políticas a eles associados tendem a ter seus focos em concepções mais centrados em P&D e indústrias manufatureiras, deixando inevitáveis lacunas em contemplar a contribuição de C&T para inovação no setor de serviços. Trata-se de um problema mundial e no Brasil não tem sido diferente. Entender como C&T contribui com o crescimento da riqueza e a melhoria de qualidade de vida através de serviços é um complexo desafio contemporâneo, o qual passa por procurar entender melhor o que seja efetivamente inovação, e não rotina, na área de serviços.

Especificamente quanto ao marco regulatório no Brasil, a Lei da Inovação Tecnológica (Lei nº 10.973/2004) completou recentemente cinco anos, sendo que, de fato, tem pouco mais de três anos de efetiva aplicação, tendo sido complementada posteriormente com a Lei do Bem (Lei nº 11.196/2005).

A subvenção, prevista na Lei de Inovação, administrada pela Finep/MCT, permitiu que nas áreas selecionadas (TIC, biotecnologia, nanotecnologia, energia, saúde, temas estratégicos e desenvolvimento social) uma subvenção não reembolsável de mais de R$ 1,5 bilhão tenha sido contemplada às empresas inovadoras. Valor esse complementado por vários outros investimentos acessíveis às empresas que inovam através de outras linhas e modalidades operadas pela Finep e BNDES.

Por sua vez, a Lei do Bem concede incentivos fiscais para empresas declarantes em lucro real e que inovaram tecnologicamente. Os investimentos declarados em 2006 atingiram aproximadamente R$ 2,2 bilhões por parte de 130 empresas. Já em 2007 saltaram para 299 empresas declarando mais de R$ 5,1 bilhões.

No ano passado (observar que em 2009 computamos o ano fiscal 2008), o número de empresas saltou para 441 e os investimentos atingiram mais de R$ 8,1 bilhões. Ou seja, em apenas três anos, o incremento em número de empresas é da ordem de 240% e de valores de 270%. As áreas que têm até aqui feito uso mais intensivo da Lei da Bem são: mecânica e transportes, petroquímica, bens de consumo, metalurgia, eletroeletrônica e farmacêutica.

Especificamente quanto à Lei do Bem, o setor de serviços, bem como de softwares, estão incluídos como beneficiários, desde que efetivamente possam demonstrar que inovam nos setores em que atuam. Na Lei do Bem se considera inovação tecnológica a concepção de novo produto ou processo de fabricação, bem como a agregação de novas funcionalidades ou características ao produto ou processo que impliquem em melhorias incrementais e efetivos ganhos de qualidade ou produtividade, resultando em maior competitividade no mercado.

A definição apresentada não exclui os setores de serviços, mas remete a explicitação do que seja inovação tecnológica nesses setores e nos demais para outros níveis de detalhamento. O Decreto nº 5.798/06, que regulamentou a Lei nº 11.196/05, tenta contribuir para estabelecer quais são essas atividades utilizando conceitos internacionais da OCDE (conhecido como Manual Frascatti).

É nossa missão, sem preconceitos e sem ofender ao espírito do marco regulatório em vigor, reconhecer a complexidade e contemporaneidade do tema em discussão e contribuir para que busquemos a melhor caracterização possível para podemos identificar o que seja efetivamente inovação tecnológica no setor de serviços.





Funcef anuncia o interesse de investir na implantação do TAV

5 02 2010

O diretor-presidente da Fundação dos Economiários Federais (Funcef) fundo de pensão dos funcionários da Caixa Econômica Federal , Guilherme Narciso de Lacerda, manifestou anteontem interesse da instituição em investir na implantação do trem de alta velocidade (TAV), que vai ligar Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro. Segundo ele, a instituição conta com R$ 1,9 bilhão para investir em infraestrutura em 2010, divididos entre o trem-bala e os projetos energéticos das usinas hidrelétricas de Jirau, no Rio Madeira, em Rondônia, e Belo Monte, no Rio Xingu, no Pará.

O anúncio foi feito em entrevista coletiva à imprensa durante apresentação do desempenho da fundação em 2009. Com retorno total de 20,1%, a entidade recuperou as perdas de 2008, atribuídas à crise financeira mundial, e ultrapassou em mais de dez pontos percentuais a meta atuarial estabelecida para o ano passado, que foi de 9,8%.

No total, a Funcef chegou em 2010 com patrimônio total de R$ 38,9 bilhões, ante os R$ 32,6 bilhões de 2008. O fundo de pensão é o terceiro maior do País, atrás apenas do Previ, dos funcionários do Banco do Brasil, e Petros, da Petrobras.

Vamos dar atenção a esse projeto , disse Lacerda, ao ser questionado pelos repórteres sobre o trem. No entanto, o interesse do fundo no TAV despertou a curiosidade de empresas ligadas ao projeto, que desconfiam de imposição do governo junto aos fundos de pensão para suplementar o projeto. Após divulgação da modelagem financeira do TAV, os chineses, principalmente, se mostraram preocupados com o baixo investimento da União no projeto e a grande margem de risco sobre o projeto destinada aos investidores.

Trabalho
Um fundo de pensão precisa continuar trabalhando nas necessidades do País , disse Lacerda, ao confirmar que está fechando parceria com a Odebrecht para participar do leilão da hidrelétrica de Belo Monte, cuja licença prévia foi liberada no começo da semana pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Já assinamos um compromisso com a Odebrecht e vamos analisar o projeto da Usina de Belo Monte , disse. A estimativa do governo é de que o leilão da Belo Monte seja realizado em abril.

O diretor-presidente da Funcef afirmou que sua carteira de investimentos continuará a ser direcionada a setores com fluxo de caixa menos sujeitos a riscos. Apesar disso, Lacerda não vê qualquer influência do ano eleitoral nas aplicações da fundação. Negando ingerência direta do governo, em 2009 a fundação foi um dos fundos que mais aplicou em Recibo de Depósito Bancário (RDB) com garantia do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), na linha criada pelo governo para prover liquidez a bancos pequenos.

Outra frente de atuação da instituição são os fundos de investimentos em concessões de rodovias vinculadas ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), principalmente os que envolvem logística e portos. Além de termos participação nos portos de Santa Catarina, somos acionistas relevantes dos grupos que estão investindo nas ferrovias da região , disse o diretor de investimentos da Funcef, Demósthenes Marques. A Usina de Jirau também interessa à Funcef. Nós queremos investir na Hidrelétrica de Jirau e, inclusive, já aprovamos compra de 50% da participação da Camargo Corrêa na usina , disse.

O Número
24,1% foi o rendimento da Funcef em 2009 somente com o setor imobiliário, onde aplica seus investimentos.





BNDES anuncia R$ 1 bi para financiar hotéis até a Copa

4 02 2010

(Gazeta do Povo) – 02/02/10

Banco terá linhas especiais para hotéis eficientes e sustentáveis. Crédito será para reforma e construção de estabelecimentos

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o Ministério do Turismo divulgaram nesta terça (2) as novas condições para financiamento a hotéis voltadas para a Copa do Mundo, entre elas a destinação inicial de R$ 1 bilhão para o programa, chamado de BNDES ProCopa Turismo.

“A gente pode expandir se for necessário”, disse o diretor do BNDES Élvio Gaspar.

O valor é pequeno para a demanda do setor, que era de R$ 3 bilhões, afirmou o diretor financeiro da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH), Alexandre Sampaio de Abreu. De maneira geral, porém, Abreu considerou as condições boas.

“Estamos lançando no início de 2010 algo que é para 2014. Estimamos que é tempo suficiente para que a maioria dos projetos saia do papel”, disse o vice-presidente do BNDES, Armando Mariante.

Reforma e construção
O governo pretende estimular reformas e construções de hotéis para que sejam mais eficientes do ponto de vista energético e também de outros, como os ligados a água e tratamento de entulho e resíduos.

“Temos o desafio de não só dotar os hotéis de mais capacidade, mas de serviços mais modernos”, disse o diretor do BNDES. Por isso, além de manter os financiamentos a hotéis sem certificações, criou as categorias de hotel com “eficiência energética” e “sustentável”.

Os que tiverem eficiência energética poderão financiar até 80% do investimento em prazos para pagamento de até 15 anos para construção e até 10 anos para reformas. Os que tiverem certificação de sustentabilidade terão prazos de financiamento de até 18 anos para construção e até 12 anos para reformas. “Os prazos antes eram entre seis e oito anos. São de oito anos para hotéis sem certificações”, disse Gaspar.

Até 30 de junho deste ano, os investimentos dos hotéis em máquinas e equipamentos podem ser feitos pelo Programa de Sustentação do Investimento (PSI), que tem taxas de juros de 4,5% ao ano. Depois disso, as taxas de juro são de 6,9% para hotéis com sustentabilidade. No caso de hotéis com eficiência energética, a taxa de 6,9% é só para máquinas e equipamentos e os demais itens financiáveis terão taxa de 7,8%. As condições são válidas até dezembro de 2012.

Nas 12 cidades sede de Copa do Mundo, o BNDES receberá diretamente projetos de hotéis de a partir de R$ 3 milhões. Normalmente, o BNDES só trabalha diretamente com projetos a partir de R$ 10 milhões.

O ministro do Turismo, Luiz Barreto, observou que, com o aumento do poder de consumo dos brasileiros, atualmente a demanda nacional já sustenta projetos de investimento em hotéis que antes só se concretizariam pela demanda estrangeira.





Ações da PDG Realty saem a R$ 14,50 e oferta gira R$ 1,6 bilhão

4 02 2010

(Valor Online) – 04/02/10

SÃO PAULO – A oferta secundária de ações da PDG Realty movimentou R$ 1,618 bilhão. A incorporadora vendeu os papéis a R$ 14,50 cada, o que representa um desconto de 4,3% em relação ao preço de fechamento da ação hoje na Bovespa, de R$ 15,15.

O montante corresponde à colocação da oferta integral de 97,084 milhões de ações ordinárias e também do lote suplementar de 15%, equivalente a 14,562 milhões de ações.

Os papéis pertenciam ao Fundo de Investimento em Participações (FIP) PDG I, que se desfez de toda a fatia de 28,64% que possuía na companhia.

O FIP PDG I é controlado por outro fundo, o FIC PCP, que reúne os investimentos de um grupo de ex-sócios do banco Banco Pactual, sob a gestão de Gilberto Sayão.

O fundo vendedor (FIP PDG I) está em fase de desinvestimento, após a venda do UBS Pactual para a BTG, comandada por André Esteves, ex-sócio de Sayão no Pactual.

Os cotistas do FIC PCP puderam participar de uma oferta prioritária de ações da PDG, na qual passariam a deter participação direta na empresa, e não mais por meio do FIP PDG I. Nessa parte da operação foram levantados R$ 424 milhões, que já estão incluídos no total da oferta da PDG.

Essa é a quarta vez que a PDG vende ações na Bovespa. A companhia chegou ao Novo Mercado em janeiro de 2007, com emissão primária e secundária de 46,313 milhões de ações, a R$ 14,00 cada.

Em novembro daquele mesmo ano, levantou outros R$ 575 milhões com uma oferta primária de 23 milhões de ações, a R$ 25,00 cada. Em outubro do ano passado, a empresa vendeu outros 75,6 milhões de papéis em distribuição primária e secundária, a R$ 14,00.





Funcef quer participar de Belo Monte, mas esbarra em garantias

4 02 2010

BNDES exige que financiadores apresentem cauções. Entidade consultou SPC para oferecer títulos públicos

O interesse que a Funcef (fundo de pensão dos funcionários da Caixa Econômica Federal) tem em participar do projeto de construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, esbarra em um problema: garantias. Guilherme Lacerda, diretor-presidente da entidade, explicou que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) exige garantias dos financiadores do projeto.

“Nós, como fundo de pensão, não temos as garantias requeridas pelo BNDES. Então, consultamos a SPC (Secretaria de Previdência Complementar) sobre a possibilidade de ofereceremos títulos públicos como garantia e estamos aguardando a decisão”, disse Lacerda.

O executivo confirmou ontem, durante a divulgação do balanço referente a 2009, o interesse da entidade em disputar a licitação da usina hidrelétrica junto com Odebrecht e Camargo Corrêa, para contribuir com 5% do total de investimentos previstos para o projeto. A Funcef negocia ainda comprar metade da participação acionária da Camargo Corrêa na usina hidrelétrica de Jirau, no rio Madeira.

Os investimentos da fundação têm se mostrado certeiros. Em 2009, o terceiro maior fundo de pensão do pais recuperou as perdas registradas no ano anterior (déficit de R$ 2,4 bilhões) e ultrapassou em mais de 10 pontos percentuais (p.p.) a meta atuarial estabelecida para 2009, que foi de 9,8% (INPC +5,5%). “Conseguimos atingir mais do dobro do que precisávamos para chegar ao equilíbrio”, ressaltou Lacerda.

Rentabilidade das carteiras
Um dos segmentos que merece destaque é o imobiliário. A rentabilidade foi de 24,1 % em 2009. “Desde 2004, mantemos investimentos no setor”, ressaltou o diretor-presidente da Funcef. Os recursos alocados no segmento representam quase 8% do total da carteira da entidade, o maior percentual entre os fundos de pensão brasileiro.

O retorno obtido com a carteira de renda variável também contribuiu para o desempenho positivo do exercício: 36,6%. Já a carteira de renda fixa com posta de títulos públicos e privados – rendeu 11,4%. “Alonga mos o prazo do vencimento dos ativos promovendo mais aderência ao passivo da fundação” , ressaltou Lacerda.

Ao final de 2009, os recursos do fundo estão aplicados em: renda fixa (52,5%), renda variável (35,7%), investimentos imobiliários (7,8%), empréstimos aos próprios participantes (3,8%) e outros (0,1%).

As estratégias de investimento da Funcef resultaram em um superavit de R$ 2,2 bilhões.

O resultado positivo de 2009 permitiu que o fundo de pensão continuasse adotando a política de recuperação de benefícios de seus aposentados, permitindo a correção em 1,08% além da reposição inflacionária. Com isto, os reajustes reais (acima da inflação) nos últimos quatro anos atingem 27,04%. “Cerca de 50% do superavít é destinado para correção de benefícios e o restante para mudanças promovidas nas tábuas atuariais, metas atuariais.”

Expectativas para 2010
Para este ano, a Funcef deve manter a estratégia de investimento adotada no ano passado. “Os investimentos continuarão sendo direcionados a setores com fluxo de caixa menos sujeitos a risco”, ressaltou.

De acordo com Lacerda, a carteira de crédito privado também deve crescer via CCSs, debêntures e FIDCs. “Estamos analisando as boas oportunidades que são enviadas a nós”, completou o diretor – presidente da Funcef.





Repensando o Marketing

2 02 2010

Roland T. Rust, Christine Moorman e Gaurav Bhalla
Harvard Business Review – Brasil

Agora que pode interagir diretamente com o cliente, a empresa precisa de uma reforma radical para colocar o cultivo de relações à frente da construção de marcas.

Imagine um gerente de marca sentado em sua sala para traçar a estratégia de marketing da nova bebida esportiva da empresa. Esse gerente identifica amplos segmentos do mercado a serem mirados, define preços e promoções e planeja a comunicação em veículos de massa. O desempenho da marca será medido pelo total de vendas e a rentabilidade. Sua remuneração e perspectivas futuras vão depender dessas cifras.

Qual o problema com esse retrato? Essa empresa — e muitas outras — ainda é tocada como se estivesse na década de 1960, uma era de mercados de massa, mídia de massa e transações impessoais. Nunca antes, no entanto, a empresa teve tecnologias tão possantes para interagir diretamente com clientes, coletar e peneirar informações sobre esse público e, com base nisso, ajustar o que oferece. E nunca antes o cliente quis interagir de forma tão profunda com empresas, e com outros clientes, para moldar produtos e serviços que utiliza. É verdade que a maioria das empresas usa ferramentas de gestão de relacionamentos e outras tecnologias para entender melhor o público, mas nem toda a tecnologia do mundo vai melhorar de fato a situação se a empresa seguir estruturada para vender produtos em vez de cultivar clientes. Para competir nesse ambiente de agressiva interatividade, o foco deve ser outro: maximizar o valor vitalício do cliente, e não promover transações. Isso significa tornar produtos e marcas subservientes à relação com o cliente a longo prazo. E significa mudar a estratégia e a estrutura organização afora — e reinventar por completo o departamento de marketing.

Idéia em resumo

Cultivando clientes
Não faz muito, a empresa que quisesse difundir uma mensagem a uma grande população tinha, na verdade, uma única opção: abordar simultaneamente um enorme contingente do público, em geral com a comunicação de massa de mão única. Dados sobre clientes consistiam basicamente de cifras de vendas agregadas — e de resultados de pesquisas de marketing. Havia pouca, ou nenhuma, comunicação direta entre o cliente e a empresa. Hoje, com o leque de opções à disposição da empresa, o marketing de massa virou um método rudimentar demais.

O quadro “Estabelecendo relações” mostra o rumo que muitas empresas já estão seguindo — rumo inevitável para quem quiser seguir competitivo. A diferença fundamental entre a empresa tradicional e a empresa que cultiva o cliente é que a primeira é organizada para vender produtos e marcas, ao passo que a segunda é projetada para servir o cliente e segmentos de clientes. Nesta última, a comunicação é bidirecional e individualizada, ou no mínimo bastante dirigida a segmentos bem específicos. Essa estratégia pode ser mais complicada para empresas cujos canais de distribuição detenham ou controlem a informação sobre o cliente, como é o caso de muitas fabricantes de bens de consumo. Hoje, no entanto, mais e mais empresas têm acesso à rica informação de que precisam para fazer a estratégia do cultivo do cliente funcionar.

Estabelecendo relações

Empresas de B2B, por exemplo, usam gerentes de contas importantes e diretores de contas globais para se concentrar na satisfação de necessidades do cliente — em constante evolução — em vez de vender produtos específicos. A IBM se organiza de acordo com as necessidades do cliente, como eficiência energética ou consolidação de servidores, e coordena iniciativas de marketing de vários produtos para um determinado cliente. Uma plataforma da IBM — a Insurance Process Acceleration Framework — é um exemplo dessa arquitetura orientada a serviços. Na IBM, profissionais especializados em clientes e no setor de seguros trabalham com contas importantes para criar processos rápidos e flexíveis em áreas como indenização, processamento de novos negócios e análise de risco. Em vez de se ater à venda de produtos no curto prazo, a IBM usa indicadores de longo prazo do cliente para medir o desempenho desse braço.

Grandes empresas de B2B em geral estão à frente nessa orientação ao cliente. Mas certas empresas de B2C estão fazendo progresso notável. Cada vez mais, encaram a relação com o cliente como algo que evolui com o tempo. À medida que as necessidades desse cliente mudam, braços distintos da organização, com marcas distintas, podem passar a atendê-lo. A rede britânica de supermercados Tesco, por exemplo, fez há pouco um sério investimento em ferramentas de análise para aumentar a retenção de clientes. A Tesco usa os dados colhidos pelo cartão de fidelidade (o Clubcard) para saber que lojas da rede a pessoa freqüenta, o que compra e como paga. Essa informação ajudou-a a adaptar o sortimento ao gosto local e a personalizar ofertas no plano individual em tudo quanto é formato da rede — do gigantesco hipermercado a mercados de bairro. Segundo reportagem no The Wall Street Journal, quem compra fraldas pela primeira vez na Tesco recebe, por exemplo, um e-mail com cupons não só para toalhinhas umedecidas e brinquedos, mas também para cerveja. É que a análise de dados revelou que o homem que vira pai tende a comprar mais cerveja, pois já não pode passar tanto tempo no bar.

Na arena de serviços, a American Express monitora atentamente o comportamento do cliente e reage a mudanças com a oferta de novos produtos. A empresa usa a análise de dados de consumo e algoritmos para determinar qual o “próximo melhor produto” para o cliente à medida que seu perfil muda — e para administrar o risco por toda a carteira de clientes. A primeira vez que um cartão Gold é usado na compra de uma passagem aérea de classe superior, por exemplo, o cliente pode receber um convite para um upgrade para a categoria Platinum. Ou, devido a novas circunstâncias, o titular do cartão pode querer um cartão adicional, com limite determinado, para um filho ou um mestre de obras. Ao oferecer esse serviço, a American Express estende o poder de compra do cliente para um círculo de confiança de membros da família ou de outros indivíduos — e, ao mesmo tempo, apresenta a marca a potenciais novos clientes.

A American Express também aproveita sua posição estratégica entre clientes e comerciantes para criar valor de longo prazo nos dois relacionamentos. A empresa pode, por exemplo, utilizar dados demográficos, padrões de consumo e informações de crédito para observar que um titular está de casa nova. Para tirar proveito dessa nova circunstância, a American Express oferece pontos pelo uso do cartão (Membership Rewards) na compra de móveis e artigos para decoração em estabelecimentos comerciais de sua rede.

Sabemos de uma companhia de seguros e serviços financeiros que também se mostrou hábil em ajustar produtos a marcos na vida do cliente. O cliente que perde o cônjuge, por exemplo, vai receber atenção especial de uma equipe pronta para oferecer produtos personalizados. Quando a titular de uma conta corrente ou de um cartão de crédito se casa, passa a ser um bom alvo para a venda cruzada de seguro de automóvel ou residência e de um financiamento imobiliário. A gente cujos filhos já deixaram o ninho, a empresa oferece produtos de investimento ou uma modalidade de crédito em que a casa entra como garantia. A quem está se formando, seguro na hora de alugar.

Reinventando o marketing
Tirando esses exemplos reluzentes, o normal ainda é ver conselho e diretoria defendendo a relação com o cliente da boca para fora, mas seguir focados na venda de bens e serviços. Conselheiros e executivos precisam liderar a mudança de estratégia (de transações para relacionamentos) e criar a cultura, a estrutura e os incentivos necessários a sua execução.

Que cara tem a organização que cultiva o cliente? Embora nenhuma empresa tenha uma estrutura 100% focada no cliente, é possível ver aspectos dessa estrutura numa série de empresas em processo de transição. A mudança mais dramática será a transformação do departamento de marketing em “departamento do cliente”. A primeira providência será substituir o diretor de marketing tradicional por um novo tipo de líder: o diretor de clientes.

Diretor de clientes. A figura do “chief customer officer” é cada vez mais comum em empresas do mundo todo. Hoje, há mais de 300; em 2003, eram 30. Empresas como Chrysler, Hershey’s, Oracle, Samsung, Sears, United Airlines, Sun Microsystems e Wachovia têm um diretor de clientes. Muitas vezes, contudo, esse executivo está apenas tentando tornar uma organização convencional mais centrada no cliente. Em geral, é um papel mal definido, o que talvez responda por uma dúbia distinção: de todos os executivos da diretoria, esse é o que menos dura no cargo.

Para ser eficaz, esse diretor, tal como o concebemos, deve ocupar uma posição operacional forte, diretamente subordinada ao presidente. Esse executivo é responsável por conceber e executar a estratégia de relacionamento com o cliente e por supervisionar toda área da empresa em contato com o cliente.

Um bom diretor de clientes promove uma cultura centrada no cliente e remove obstáculos ao fluxo de informações sobre clientes por toda a organização. Isso inclui promover a interação regular de líderes com clientes. Na seguradora americana USAA, altos executivos passam duas ou três horas por semana no call-center falando com clientes. Isso mostra ao pessoal que a diretoria leva a sério a interação com o cliente e ajuda esses gerentes a entender o que o cliente quer. Executivos da Tesco, por sua vez, passam uma semana por ano trabalhando em supermercados e interagindo com clientes (parte do programa Tesco Week in Store, ou Twist).

À medida que o foco passa a ser o cliente e que informações sobre a clientela cada vez mais norteiam as decisões, estruturas organizacionais que inibem o fluxo de informação devem ser derrubadas. O fato é que, apesar de grandes investimentos na obtenção de dados de clientes, a maioria das empresas subutiliza o que sabe. A informação não circula — em geral devido à falta de confiança, à disputa por promoções ou recursos e à mentalidade de silo. O diretor de clientes deve criar incentivos para eliminar essa postura contraproducente.

Por último, esse diretor é responsável por aumentar a rentabilidade dos clientes — conforme indicado por critérios como o valor vitalício do cliente (VVC) e o customer equity (valor do cliente), bem como por indicadores intermediários como o boca a boca (ou o mouse a mouse).

Gerentes de clientes. No novo departamento do cliente, gerentes de clientes e de segmentos identificam as necessidades do cliente. Gerentes de marcas, sob a direção de gerentes de clientes, tratam então de fornecer produtos que contemplem essas necessidades. Para tanto, é preciso transferir recursos — sobretudo gente e verba — e autoridade de gerentes de produtos para gerentes de clientes (veja o quadro “O que faz um gerente de clientes?”). Essa estrutura é comum no universo B2B. Em suas atividades de B2B, a Procter & Gamble, por exemplo, tem gerentes de contas importantes para grandes varejistas como o Walmart. Esse exército está menos interessado em vender o escovão Swiffer, digamos, do que em maximizar o valor do relacionamento com o cliente a longo prazo. Certas empresas voltadas ao grande público também adotam a estrutura. É o caso de bancos comerciais que colocam gerentes a cargo de segmentos distintos do público — clientes de patrimônio elevado, universitários, aposentados — e não de produtos.

O que faz um gerente de clientes?

Na empresa que cultiva o cliente, o gerente de um segmento de bens de consumo pode oferecer ao público incentivos para trocar a marca A, menos rentável, pela B, mais rentável. Isso não ocorreria no sistema convencional, no qual gerentes de marcas e de produtos dão as cartas. O gerente da marca A não vai incentivar seus clientes a desertar a marca — ainda que seja para o bem da empresa —, pois é recompensado pelo desempenho da marca, e não por aumentar o VVC ou outro indicador do gênero voltado ao longo prazo. Não é uma mudança menor: significa que gerentes de produtos devem deixar de pensar em maximizar o lucro de seus produtos ou marcas e assumir a responsabilidade de ajudar gerentes de clientes e segmentos a maximizar o deles.

Áreas em contato com o cliente. Nexo da atividade voltada ao cliente, o departamento do cliente assume a responsabilidade por certas atividades que, focadas no cliente, saíram da tutela do departamento de marketing nos últimos anos e por outras que normalmente nem faziam parte dele.

CRM. Segundo sondagem da Harte-Hanks com 300 empresas na América do Norte, a gestão de relacionamento com o cliente está, cada vez mais, a cargo do departamento de TI da empresa, devido aos recursos técnicos exigidos por sistemas de CRM. Das empresas consultadas, 42% disseram que a plataforma de CRM é administrada pela TI, 31% por vendas e apenas 9% pelo marketing. Em última análise, no entanto, o CRM é uma ferramenta para medir necessidades e comportamentos do cliente — a principal função do novo departamento do cliente. Faz pouco sentido que os dados exigidos para a execução da estratégia de cultivo do cliente sejam colhidos e analisados fora desse novo departamento. Trazer o CRM para o departamento do cliente significa, é claro, trazer também recursos de TI e de análise.

Pesquisa de mercado. Na empresa centrada no cliente, a ênfase da pesquisa de mercado é outra. Primeiro, usuários internos de pesquisa de mercado passam a ser todas as áreas da organização com impacto no cliente — e não só o departamento de marketing —, o que inclui crédito (fonte de opções de pagamento do cliente) e distribuição (fonte de prazos de entrega e serviços). Segundo, o escopo da análise já não é uma visão global, mas sim uma visão individual de atividades e valor do cliente. Terceiro, a pesquisa de mercado passa a ter a finalidade de coletar dados de clientes que permitam avanços em indicadores focados no cliente, como VVC e customer equity.

Um novo departamento de marketing.

Pesquisa e desenvolvimento. Quando a engenharia pesa mais no produto do que as necessidades do cliente, as vendas podem sofrer. Engenheiros gostam, por exemplo, de entupir de funções um produto, embora saibamos que o excesso de recursos pode cansar o cliente, prejudicando vendas futuras.

Para garantir que decisões sobre o produto reflitam necessidades da vida real, o cliente precisa ser incluído no processo de concepção. Uma boa saída, para tal, é integrar a P&D e o marketing. Aqui, poucas empresas superam a Nokia na Ásia, onde sua participação de mercado é de mais de 60%. Num setor no qual todo fabricante precisa lançar levas de novos aparelhos a cada ano, a capacidade da Nokia de converter a opinião do cliente sobre recursos e valor em produtos de sucesso é lendária. Entre suas ferramentas de inovação focada no cliente está o Nokia Beta Labs, uma comunidade virtual de desenvolvedores que reúne usuários e equipes de programação para o teste virtual de protótipos de novos recursos e produtos, abrindo espaço até para “idéias malucas” que talvez nunca cheguem ao mercado (nos EUA, onde a Nokia adotou uma estratégia com muito menos subsídios do público, sua participação de mercado caiu).

Há muitos exemplos de empresas que criam mais valor por meio da colaboração entre usuários e produtores. É o caso da Mozilla e do navegador Firefox na área de browsers; da P&G e do escovão Swiffer na limpeza doméstica; e o da International Flavors and Fragrances e sua parceria com clientes B2B como Estée Lauder no mercado de perfumes. Num mundo no qual o velho modelo de desenvolvimento de produtos, movido a P&D, dá lugar a colaborações originais como estas, a P&D deve estar subordinada ao diretor de clientes.

Atendimento ao cliente. Essa atividade deve ser feita pela empresa, sob a tutela do departamento do cliente — não só para garantir que a qualidade do serviço seja elevada, mas também para ajudar no cultivo de relações de longo prazo. A Delta Airlines, por exemplo, há pouco desistiu de call centers no exterior porque as diferenças culturais tolhiam a capacidade da companhia aérea de interagir com os clientes norte-americanos. A Delta concluiu que o impacto negativo na qualidade do relacionamento com os clientes não compensava o custo menor. Agora, quando a central de atendimento recebe uma ligação, um atendente imediatamente identifica o segmento de quem está ligando e transfere esse cliente a um representante do atendimento treinado para trabalhar com aquele segmento. A interação é registrada no sistema de informações do cliente e usada pelo departamento do cliente para detectar novas necessidades do público e criar soluções.

Se for preciso terceirizar o atendimento ao cliente, a operação deve estar subordinada a um gerente de clientes interno de alto escalão e a infraestrutura de TI e os dados da clientela devem ser perfeitamente integrados aos bancos de dados de clientes internos.

Modelo novo, Indicadores novos.

Novo foco em indicadores do cliente
Quando deixar de promover produtos e passar a cultivar o cliente, a empresa precisará de novos indicadores para medir a eficácia da estratégia. Primeiro, terá de se concentrar menos na rentabilidade do produto e mais na rentabilidade do cliente. O varejo aplica esse conceito há algum tempo ao usar o chamado “loss leader” — um produto que pode até não dar lucro, mas fortalece a relação com o cliente.

Segundo, será preciso dar menos atenção às vendas no presente e mais ao VVC. Uma empresa em declínio pode estar vendendo bem hoje, mas ter péssimas perspectivas. O valor vitalício do cliente é um indicador que mede o lucro futuro que um cliente trará, devidamente descontado para refletir o valor do dinheiro no tempo. O valor vitalício foca a empresa na saúde a longo prazo — ênfase que a maioria dos acionistas e investidores deveria compartilhar. Embora o mercado normalmente recompense o ganho de curto prazo em detrimento do desempenho futuro, essa infeliz tendência irá mudar à medida que indicadores do cliente voltados ao futuro virem rotina em informes financeiros. Há, hoje, um movimento internacional para exigir de empresas a inclusão de ativos intangíveis em demonstrações financeiras. Com indicadores importantes, como métricas centradas no cliente, figurando cada vez mais nessas demonstrações, a cotação de ações começará a refleti-los. Analistas sagazes já fazem pressão para que empresas entendam seus índices de retenção de clientes e o valor do cliente e de ativos de marcas.

Terceiro, a empresa deve transferir o foco do brand equity (o valor de uma marca) para o customer equity (a soma dos valores vitalícios de seus clientes). O melhor é encarar o aumento do capital da marca como um meio para se chegar a um fim, que é aumentar o customer equity (veja “Gestão de marca centrada no cliente”, HBR Setembro 2004). Esse capital do cliente tem o benefício adicional de ser uma boa aproximação do valor da empresa, tornando o marketing mais relevante para o valor ao acionista.

Quarto, a empresa deve dar menos atenção à participação presente de mercado e mais à participação no capital do cliente (o valor da base de clientes da empresa dividido pelo valor total dos clientes no mercado). Enquanto a participação de mercado é um instantâneo da posição competitiva das vendas da empresa no momento, a participação no customer equity é uma medida da competitividade da empresa a longo prazo no que diz respeito à rentabilidade. Dada a crescente importância da informação ligada ao cliente, a empresa deve aprender a colher informações em vários planos: individual, segmento e global. Cada tipo de decisão estratégica exige níveis distintos de informação. Logo, a empresa normalmente precisa de várias fontes de informação para dar conta de suas necessidades.

No plano individual, o principal indicador é o valor vitalício do cliente; aqui, as atividades de marketing monitoradas mais atentamente são as de marketing direto; e a principal fonte de informação é o banco de dados de clientes mantido pela empresa. No nível do segmento, o principal indicador é o valor vitalício do segmento (o valor vitalício do cliente médio multiplicado pelo total de clientes no segmento); as atividades de marketing monitoradas mais atentamente são iniciativas de marketing dirigidas a segmentos específicos de clientes, às vezes usando mídia de nicho; e as principais fontes de informação são painéis de clientes e resultados de pesquisas.

No plano do mercado como um todo, o principal indicador é o customer equity, ou o capital do cliente; as atividades de marketing monitoradas mais atentamente são iniciativas de marketing de massa, em geral em veículos de comunicação de massa; e as principais fontes de informação são dados de vendas agregadas e resultados de pesquisas. É comum a empresa ter toda uma carteira de fontes de informação.

Fica patente que a empresa precisa de métricas para avaliar o progresso na obtenção e utilização de informações sobre clientes. A freqüência com que gerentes contribuem para arquivos de informações de clientes e acessam esses dados é um bom parâmetro geral, embora não diga muito sobre a qualidade da informação. Para sanar o problema, certas empresas criam uma espécie de mercado de novas informações — mercado no qual o valor de cada contribuição é avaliado pelos próprios funcionários.   Assim como qualquer outra transformação interna, converter uma organização focada em produtos em empresa totalmente centrada no cliente será difícil. O grupo de TI não vai querer soltar as rédeas do CRM; o pessoal de P&D vai brigar para manter a relativa autonomia; e, acima de tudo, executivos do marketing tradicional vão lutar com unhas e dentes por seu posto. Por ir contra interesses estabelecidos, essa transformação não vai ocorrer de forma orgânica — deve ser conduzida de cima para baixo. Mas, por mais desafiante que seja, a mudança é inevitável. Em breve, será a única forma competitiva de servir o cliente.

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Roland T. Rust (rrust@rhsmith.umd.edu) é Distinguished University Professor e titular da cátedra David Bruce Smith Chair in Marketing na Robert H. Smith School of Business (University of Maryland), nos EUA. Christine Moorman (moorman@duke.edu) é titular da cátedra T. Austin Finch Sr., Professor of Business Administration na Fuqua School of Business (Duke University), nos EUA. Gaurav Bhalla (gaurav.bhalla@knowledgekinetics.com) é presidente da consultoria americana Knowledge Kinetics.