A revolução do matemarketing

10 07 2009

(Amanhã) – 08/07/09

A prática que usa a estatística para medir com precisão cada detalhe da relação com clientes, apresentada pelo próprio criador do conceito

Por: Eduardo Aspesi*

Comecei minha vida profissional em controladoria e auditoria. Quando recebi um convite para assumir a área de marketing e vendas, fiquei surpreso com a falta de ferramentas analíticas e instrumentos de mensuração.

Acredito que tudo seja mensurável. Comecei a calcular o valor de cada cliente e identifiquei que eles tinham várias características em comum. Então fui ao mercado procurar prospects semelhantes e deu muito certo.

Foi assim que criei o que eu chamo de “matemarketing”. Cada negócio tem uma equação. Ganha o jogo quem souber montá-la, adaptá-la às necessidades e oportunidades do mercado e transformá-la, antes da concorrência, em um relacionamento rentável com os clientes.
Sou um apaixonado pelo marketing dirigido, por trabalhar a informação de forma inteligente, identificar padrões de comportamento do consumidor e, a partir daí, direcionar as ações de vendas e de relacionamento.

Como vice-presidente de marketing e vendas da NET, trabalho passo a passo a concretização do “matemarketing”. O desafio é dar a milhões de clientes o tratamento típico de um armazém de cidadezinha do interior, onde o dono conhece todos em detalhes e, por isso, pode diferenciar o tratamento dispensado a cada um, atendendo às necessidades e garantindo a satisfação da freguesia.

No mercado de telecomunicações, isso significa evoluir da visão da engenharia para a visão do relacionamento, ou seja, uma estratégia que priorize o foco no cliente. Para atingir esse objetivo, é necessário desenvolver uma grande quantidade de ações customizadas para pequenos grupos de clientes, com uma taxa de retorno muito superior àquela obtida no modelo tradicional (poucas ações para quantidades massivas de clientes). Dessa forma, mobiliza-se a empresa para o objetivo único de maximizar o valor do cliente a cada oportunidade de contato.

O ponto de partida para esse processo é uma estrutura informacional que permita a visão integrada do cliente e um ambiente analítico flexível por meio de um banco de dados no qual as informações estejam prontas para ser exploradas. Essa é a base para a segmentação e para o cálculo do valor do cliente ao longo do tempo.

Com técnicas de modelagem estatística, é possível usar dados históricos não apenas para explicar tendências passadas, mas também para prever comportamentos futuros, como a compra de produtos e serviços ou o tão temido churn (migração para a concorrência).

A partir do momento em que a empresa conhece o perfil de cada cliente, suas necessidades e seu valor, é possível definir o que, como e para quem oferecer. É inquietante ver que, no Brasil, ações fundamentadas no “matemarketing” fazem parte de um grupo de ilhas de excelência e projetos ad hoc. Os investimentos de marketing ainda são muito concentrados na mídia de massa, pois esses veículos atingem uma parcela muito grande da população, o que facilita a comunicação com todos os clientes de uma só vez.

Porém, para determinados produtos ou serviços, típicos da indústria de telecomunicações, isso é justamente o que deve ser evitado, sob o risco de destruir progressivamente o valor do negócio com ações que não levam em conta os diferentes tipos – ou segmentos – de clientes.

O mercado de telemarketing tem apresentado grande crescimento nos últimos anos, mas ainda é muito pequeno em relação a outros lugares, como os Estados Unidos. Além disso, a atividade de telemarketing tem sido, na prática, um marketing de massa pelo telefone. Não se considera o perfil e o valor do cliente. Não conheço ninguém – e há tempos me esforço nessa procura – que tenha recebido mais de duas ligações anuais de telemarketing que sejam referentes a gentilezas, retenção ou fidelização proativa.

Os atores de Marketing Direto, DBM e CRM, são verdadeiros heróis. Já conseguiram sensibilizar os sócios e CEOs das empresas sobre a importância do marketing dirigido, mas ainda têm um longo caminho a percorrer. Muitas empresas já investiram grande quantidade de tempo e dinheiro em enormes projetos de CRM e tiveram pouco sucesso. Ao longo da minha vida profissional, tive dois grandes aprendizados: simplificar com soluções que não sejam baseadas em milagres e fazer primeiro para depois mostrar os resultados.

*Eduardo Aspesi é vice-presidente de marketing e vendas da NET, com passagem também pelas empresas Vivo, Oi e RBS





Viabilidade da renda média baixa

23 02 2009

(Contrução Mercado) – maio/2007

Pesquisador faz estudo e vê dificuldades aos construtores para entrar nesse mercado

Forte migração de recursos para o segmento deve acontecer naturalmente, mas equação para validar os investimentos ainda não está adequadamente estruturada

O planejamento estratégico dos empreendedores habitacionais no Brasil, especialmente aqueles com foco de atuação no mercado de São Paulo, está pautado por três vetores preponderantes: 1) o ingresso de recursos de investimento no caixa de suas empresas, em volume nunca antes experimentado pelos empreendedores, como resultado das chamadas de capital via ações (Initial Public Offering – IPOs); 2) o incentivo via crédito direcionado e diminuição de tributos, definidos nos princípios norteadores do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento); 3) e o vivo interesse demonstrado por capitais externos (fundos de investimento) de aplicar recursos no mercado de real estate no Brasil.

70_negocios2

Considerando a atual escala do mercado, os números são grandiosos: 1) mais de R$ 10 bilhões foram e estão sendo captados via ações – e são “recursos à vista”; 2) somente para moradias de baixa renda, o Ministério das Cidades planeja a aplicação de mais de R$ 55 bilhões em quatro anos (2007-2010), considerada a contrapartida de Estados, municípios e dos próprios adquirentes, para uma previsão total de investimento em habitação de R$ 106 bilhões, considerando todos os recursos que estarão envolvidos na produção de habitações, inclusive financiamentos via SBPE (Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo); 3) a se confirmarem as declarações e interesses de investir divulgados, pode-se esperar recursos externos de no mínimo US$ 5 bilhões no curto prazo (um a dois anos).

Tomando como referência somente os recursos novos das empresas e uma condição de alavancagem conservadora numa proporção de 2 de financiamento para a produção para 1 de investimento, esses R$ 10 bilhões representam a injeção, de imediato, de R$ 30 bilhões para novos empreendimentos, capazes de gerar, aos padrões de custos e margens prevalentes no setor, 70 mil unidades para renda média alta ou 230 mil unidades para renda média. A capacidade total de produzir do setor está bem acima desse patamar, porque a ele devem-se agregar os recursos desses empreendedores que já estão em giro na produção e a pulverização da oferta por meio dos muitos outros empreendedores, que, no total, supera, à larga, o que representam as grandes marcas que vêm se capitalizando via ações. Qual empresa estará disposta a enfrentar a competição nesses segmentos do mercado, considerado esse potencial de oferta? Qual empresa tem a ilusão de que a demanda é capaz de absorver esse nível de oferta, nos custos e nas margens ora prevalentes no setor? Já no patamar atual, há notícias de escassez de mão-de-obra qualificada em São Paulo, de insumos e equipamentos. Isso, associado aos preços dos terrenos subindo, significa crescimento de custos contra a margem, porque não há razão aparente para acreditar que seja possível praticar preços mais altos, para preservar as margens, num mercado pautado por disputas que vêm se tornando ainda mais agressivas.

Perspectivas
Diante desse quadro, muitos olhos se voltam para a habitação de baixa renda. A demanda mais elevada, não atendida há muito tempo pelas grandes marcas, que se concentraram disputando os mercados de renda média e média alta, indica um segmento de menor risco nos próximos anos. Algumas das grandes marcas já divulgam estratégias de ação para a baixa renda, concebendo, até mesmo, marcas isoladas para conduzir essas operações.

Nesse estrato de mercado: demanda e sua estratificação geográfica são informações de acesso fácil; idéias periféricas de marketing, como isolamento de marca, estão na hierarquia de decisão que não exige validação econômica; 3) recursos para operar estão disponíveis, seja como investimento (caixa dos IPOs ou de investidores) ou financiamento (Sistema Financeiro da Habitação ou Sistema Financeiro Imobiliário); instrumentos de financiamento, securitização de créditos e recursos de longo prazo, para fazer funding dos instrumentos de securitização, aparentemente estão disponíveis no volume adequado, pela via do SFH, da capacidade de investidores institucionais e até da oportunidade de captar poupanças, tendo em vista o incentivo de imposto de renda para investimento nos CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários). Então, já que as premissas são conhecidas e há capacidade de planejar, a migração de forte massa de investimentos para a baixa renda deverá acontecer naturalmente! Passar da percepção para o desejo e, daí, para a ação, não será automático. A equação para validação dos investimentos ainda não está adequadamente estruturada.

70_negocios31

Vale ressaltar que os empreendimentos para renda média baixa é o limite até onde chegam os recursos privados das empresas preocupadas em gerar rentabilidade em padrões atrativos, especialmente quando se verificam os processos de abertura de capital conhecidos. Para baixo da renda média baixa, habitação é uma questão que envolve o Estado.

Os recursos dos IPOs estão sendo captados numa expectativa de rentabilidade equivalente aos padrões atuais, quando não acima deles. Afinal, os estruturadores têm perpetrado valuations que atingem preços elevados de ação contra o valor patrimonial e muitas ações estão sendo colocadas para investidores estrangeiros, tendo como imagem de rentabilidade o entorno dos 20% ano, que se divulga possível de alcançar com os negócios de real estate habitacional no Brasil. Este patamar é “convidativo” para capitais denominados em Reais e é tão competitivo para capitais estrangeiros que há colocações de ações feitas em mais de 60% no exterior e notícias de que até fundos hedge têm buscado aplicar diretamente em empreendimentos no Brasil.

Como é o comportamento dos investimentos nesse mercado? Para responder à pergunta, é possível explorar a qualidade dos investimentos nos empreendimentos, tratados como corpos isolados. Haverá poucas diferenças entre empreendimentos desenvolvidos por uma ou outra empresa, do ponto de vista dos custos e dos preços. Vantagens competitivas terão as empresas cujo desenho dos produtos e agressividade das ações de marketing resultem numa velocidade de comercialização mais elevada. Isso melhora a equação de fundos e diminui a pressão de investimentos para o mesmo resultado, aumentando a taxa de retorno dos empreendimentos. No ambiente das empresas, parte da rentabilidade derivada dos empreendimentos é consumida com as contas gerais da administração e aí cada uma delas apresenta suas particularidades.

Comportamento dos investimentos
Para produzir uma imagem que ilustre o que acontece com os investimentos nos diferentes segmentos do mercado, tomamos parâmetros prevalentes do mercado de São Paulo, compilados dos estudos do NRE-Epusp (Núcleo de Real Estate da Escola Politécnica da USP), considerando empreendimentos e empresa protótipos. Admitindo para os empreendimentos, nos diferentes estratos de mercado, a mesma velocidade de vendas e o mesmo programa de produção, mostramos no gráfico 1 como se compõe a receita e o que se pode esperar de taxa de retorno dos investimentos nas diferentes faixas de renda, da média baixa para a média alta.

Evidencia-se que investir no estrato de mercado para renda média baixa, nesses padrões de comportamento, não é validado (3,2% ano de taxa de retorno). E o problema econômico tem duas raízes: terrenos de baixo aproveitamento e custos de construção mais elevados do que o produto é capaz de absorver.

O aproveitamento dos terrenos é um problema localizado da cidade de São Paulo, o que tem feito empresas migrarem suas estratégias para fora da cidade e até do Estado. Com respeito a isso, há que se fazer advertência sobre as particularidades regionais e recordar eloqüente exemplo do passado, não muito remoto, de tentativa de abraçar todo o País, como se bastasse a língua e a nacionalidade para homogeneizar comportamento do mercado, cujo resultado foi um grande desastre.

O custo de construção pode se acomodar a novos padrões. Até aqui, disputando o mercado nas faixas de renda mais elevadas, as empresas perceberam que a competitividade se concentra no desenho do produto e seus acessórios e na agressividade do marketing, de modo que o custo de implantação (terreno e construção), respeitados os padrões correntes, cabe no preço, com margem satisfatória. Nas faixas de baixa renda, cujo preço não tem praticamente nenhuma elasticidade, o fator de competitividade é o custo de construção – engenharia de produto e gerenciamento da produção. O gráfico 2 mostra como se pode recompor a taxa de retorno aproveitando melhor os terrenos, na opção sair de São Paulo, e como se organizam as contas, diminuindo os custos de construção.

Um redutor próximo dos 40% nos preços dos terrenos, frente aos atuais, leva a taxa de retorno para o patamar dos 16% ao ano e um redutor próximo dos 10% nos custos da construção leva a taxa de retorno ao mesmo patamar.

Nesse segmento de mercado é ilusório imaginar que se podem praticar taxas de retorno no patamar dos 20%. A competição se verifica em empreendimentos de grande escala, para absorver custos acessórios. Os preços não têm elasticidade e os custos são operados no seu limite, para atender a especificações capazes de atrair o mercado. Resulta que as margens são mais moderadas do que as possíveis de praticar nos segmentos de renda mais alta. Considere-se, entretanto, que aqui os valores estão calculados respeitando fluxos de comercialização e produção sem inovações com respeito aos padrões atuais do mercado. Sistemas de produção mais avançados podem reduzir prazos e, assim, levantar a taxa de retorno, mantendo a mesma margem de resultado sobre o preço, mas que, encaixada mais cedo, melhora o desempenho do investimento.

O setor soube enfrentar o desafio da organização de estruturas de funding agressivas para operar em escala industrial, abrindo o capital de empresas de grande marca. Isso provoca a necessidade de alargar as fronteiras de ação, porque os novos acionistas estão ávidos por rentabilidade nos padrões prometidos pelos controladores nos prospectos (ressalvado o capítulo de fatores de risco). Parece claro que só há uma fronteira nova, com escala adequada para absorver a capacidade de investimento e de financiamento que os IPOs e o PAC conferem ao setor. Nesse segmento habitacional de renda média baixa, para serem competitivas, as empresas deverão desviar o foco, da agressividade de marketing (campanhas que chegam a consumir 10% da receita) para a engenharia de produto, para o que se chama a contribuir, a inteligência dos sistemas de produção e os fornecedores de insumos.

Dr. João da Rocha Lima Jr. é professor titular da Escola Politécnica da USP e Coordenador do Núcleo de Real Estate (NRE-Epusp)





Real estate – do marketing à engenharia de produto

23 02 2009

(Construção Mercado) – junho/2008

A mudança de foco necessária para atuar no segmento econômico do mercado residencial

A expansão da capacidade de investimento de importantes empresas de real estate residencial no Brasil tem suscitado debates entre especialistas percorrendo variadas temáticas, que envolvem desde os níveis mais estratégicos das organizações e de comportamento de mercados aos problemas operacionais vivenciados nos canteiros de produção.

Um dos temas de maior interesse refere-se aos drivers (parâmetros) a serem observados para uma atuação de destaque no denominado mercado residencial econômico (faixas de renda baixa e média baixa). Antes de elencá-los é importante destacar que a maioria das empresas, que, aliás, foram muito bem-sucedidas em suas aberturas de capital, vinha há tempos privilegiando seus investimentos nos segmentos de alta renda, nos quais o marketing do produto é crucial para a boa inserção de mercado. A atuação nesses segmentos pressupõe munir os empreendimentos com atributos que possam ser percebidos pelo público-alvo como diferenciais em relação à oferta competitiva – diferente, portanto, de uma competição baseada no menor preço.

No chamado segmento econômico, entendemos que a questão da competitividade está em focar os custos da construção (terreno e obras), para superar a configuração presente, que comprime fortemente a margem de resultado dos empreendimentos, pois a capacidade de pagar das faixas de renda desses segmentos é baixa diante de suas necessidades e anseios, o que faz a equação do preço se distorcer.

De fato, estudos do professor João da Rocha Lima apontam claramente essa configuração, conforme pode ser observado no gráfico, que compara os itens de desagregação do preço para três empreendimentos protótipo, destinados a diferentes segmentos de mercado, mantidos os parâmetros de custos da região metropolitana de São Paulo.

Evidencia-se, no gráfico, a expressiva participação dos custos de construção e de aquisição do terreno na receita global de vendas dos empreendimentos voltados para renda média baixa, cerca de 83%. Nas faixas de renda média e média alta, essas participações alcançam respectivamente 70,7% e 67,5% da receita global de vendas, ou VGV (Valor Geral de Vendas), lembrando que a receita de venda por unidade residencial é variável conforme a faixa de renda e limitada pela capacidade de pagar do público-alvo.

No gráfico, os custos de construção e de terrenos das diferentes faixas de renda espelham produtos típicos para cada estrato na região metropolitana de São Paulo e, naturalmente, acompanham o crescimento da renda. Assim, quanto maior a capacidade de pagar do público a que se destina o produto, maiores serão os custos de produção e de aquisição do terreno por metro quadrado. Ainda assim, verificam-se no gráfico que as margens de resultado sobre a receita são de 4,4%, 14,5% e 16,8% para as faixas de renda média baixa, média e média alta, respectivamente, evidenciando o conforto para o empreendedor ao atuar nos segmentos de maior poder aquisitivo.

As taxas de retorno estimadas nesses empreendimentos protótipos são de: 5,1%, equivalente anual para o protótipo da renda média baixa; de 19,6%, equivalente anual para o de renda média e; de 21,2%, equivalente anual para o de renda média alta. Essas simulações apontam para a não atratividade do investimento no segmento de renda média baixa, se tomarmos como referência para a taxa de atratividade setorial o patamar de 16% (equivalente anual efetiva), que já é entendida como conservadora, tendo em vista que as empresas tendem a usar como guidance (meta) de taxa de retorno o patamar de 20% ano.

83_estate1

A possibilidade de alcançar esse referencial de atratividade por empreendimentos típicos para o segmento reclama a observância estreita aos seus principais drivers, citados a seguir:

  • Apesar da clara tendência de preços de terrenos serem mais elevados nos bairros mais centrais, desenvolver empreendimento em terreno localizado distante do centro urbano, buscando-se a validação do investimento por meio do seu baixo custo de aquisição, traz riscos de inserção de mercado, pois nesse segmento a demanda tem forte vínculo com pólos geradores de emprego. Um eficiente sistema de transporte público mitiga consideravelmente esse risco.
  • Apesar da menor oferta de grandes terrenos nas áreas centrais, os empreendimentos a serem desenvolvidos deverão ter larga escala, ou muitas unidades para diluir o custo do terreno por unidade e, na medida do possível, propiciar economia nos custos de construção, pois os ganhos de escala permitem construir a partir de uma logística operacional mais eficiente. Todavia, desse modo ocorrerá um agravamento dos riscos de concentração de oferta.
  • Nesse segmento há pouco espaço para vetores emocionais na compra, pois o comprometimento de parcela da renda para pagamento do produto residencial é crescente conforme a faixa de renda diminui, ainda que o padrão dos atributos nele embarcados também caia à medida que se desce nos estratos de renda. Assim, a capacidade de pagar é o vetor que predomina na decisão de compra.

O que se pode depreender da conjuntura competitiva a que se sujeitam empreendedores ao atuar no mercado econômico é que a acomodação das margens de resultado dentro do preço que esse público pode pagar, necessárias para se alcançar uma relação entre preço e custos que gere indicadores de qualidade do investimento atrativos, exigirá uma competente engenharia do produto, que pode permitir tanto a validação do investimento quanto criar um diferencial competitivo no mercado na medida em que a redução dos custos de construção e gerenciamento propiciarem uma melhoria nos atributos de qualidade do produto, sem comprometer as margens de resultado.

O gráfico 2 é elucidativo nesse ponto; ele nos mostra que uma redução da ordem de 13,7% nas contas de construção, mantendo-se a participação do terreno em relação à receita, também fixada de acordo com a capacidade de pagar reconhecida do público, possibilitaria obter uma margem de resultado sobre essa receita da ordem de 13,4%, o que conduziria a uma relação adequada de preço para custo para alcançar uma taxa de retorno de aproximadamente 16%, equivalente anual efetiva, atrativa para os parâmetros atuais do mercado residencial de São Paulo. Efeito similar seria conseguido se fosse factível reduzir preços de terrenos em 40%.

83_estate2

Acreditamos que a busca desses patamares de redução de custos reside na melhoria dos processos de planejamento e de gerenciamento das empresas, pois a conjuntura do fornecimento de insumos para a construção se encontra bastante pressionada pela demanda, havendo pouco espaço para melhoria das condições de negociação com outros agentes da cadeia.

Assim, a melhoria do processo de planejamento e de gerenciamento terá o sentido de proteger a margem de resultado projetada, ou de mitigar as incertezas envolvidas na implantação bem-sucedida dos empreendimentos, o que passa necessariamente pela engenharia do produto, que nesse contexto envolve, principalmente:

  • Conformação do produto para que não haja inclusão de atributos que geram custos adicionais, mas que não agregam valor – escapar da camisa-de-força mental do marketing voltado para alta renda.
  • Desenho acurado dos sistemas de programação e controle da produção, desenvolvendo a análise crítica e a proposição de inovações nos sistemas de gestão da produção – reforçar a inteligência de gerenciamento e a segurança para a correta estimativa e manutenção dos parâmetros de produtividade.
  • Estruturação de processos logísticos e de suprimentos capazes de “acelerar” o desenvolvimento dos empreendimentos – a redução dos prazos de implantação, a manutenção dos custos dentro dos orçamentos e o estabelecimento de parcerias com fornecedores favorecem a qualidade do investimento.

Por fim, temas que há tempos estão na agenda setorial como racionalização da produção, modulação de projetos, educação da mão-de-obra e a acertada construção de sistemas de incentivos, quando adequadamente implementados promovem a excelência da engenharia do produto.

Prof. Dr. Claudio Tavares de Alencar, do Núcleo de Real Estate da Poli-USP (Escola Politécnica da Universidade de São Paulo).





Valuation e Investimento nas Ações das Empresas de Real Estate no Brasil

19 02 2009

Artigo publicado (baixar) sobre a precificação de ações do segmento de Real Estate.

Autores: João da Rocha Lima Jr (Escola Politécnica da USP – Núcleo de Real Estate – rocha.lima@poli.usp.br) e Carolina Andrea Garisto Gregório (Escola Politécnica da USP – Núcleo de Real Estate – carolina.gregorio@poli.usp.br)

Resumo
No ciclo de set/2005 a out/2007 empresas representativas do mercado brasileiro de real estate residencial adotaram a estratégia de captar recursos via mercado de capitais. O contexto se mostrava favorável para produção de imóveis destinados a classe média, por dois principais fatores, primeiro, em razão das melhores condições de financiamentos para a compra de imóveis decorrente da reestruturação do sistema financeiro habitacional brasileiro a partir de 2005, e, segundo, por ser um segmento de mercado com demanda não atendida, já que boa parte das empresas focava para a produção de imóveis para a classe média alta e alta em razão da maior poupança dos compradores, que facilitava o encaixe de preço no ciclo de implantação e reduzia a necessidade de investimento por parte das empresas. Nesse sentido, para atender a demanda da classe média restava às empresas aumentarem sua capacidade de investimento para produção. A estratégia de capitalização via mercado de capitais, por meios das IPOs, foi adotada pelas empresas mais representativas, em curto intervalo de tempo. O foco do artigo consiste na análise da qualidade de investimento nas ações dessas empresas (fazem parte da análise 15 ofertas). Na finalidade de identificar em quais expectativas as empresas se apoiaram para entrarem na Bovespa nos períodos, volumes e preços ocorridos, foram analisadas as correlações dessas ofertas com o índice de mercado (IBOVESPA). A partir dos resultados obtidos, por meio do método de valuation mais conhecido e fundamentado, é possível concluir que a colocação das ofertas não foi sustentada em procedimentos validados de precificação, configurando ofertas meramente especulativas.





“Lançamento de um empreendimento imobiliário – Qual o melhor momento?”

27 10 2008

Valéria Martins Salgado- Engenheira Civil
Caixa Econômica Federal
III Simpósio Brasileiro de Engenharia e Avaliações 2002

O Melhor Momento para o Lançamento de um Empreendimento Imobiliário no Mercado.

São diversos os parâmetros que norteiam um empreendedor ao investir em um empreendimento imobiliário do qual almeja sucesso.
Seu foco primeiro recai sobre as carências e desejos do mercado comprador seguindo-se do diagnóstico deste mercado de tal sorte a estimar os prováveis valores de venda das unidades.
Escolhido o tipo de empreendimento volta-se a atenção para a escolha do melhor terreno.
Em seguida, a elaboração do projeto mais adequado e o responsável levantamento do custo de produção, são etapas fundamentais para a garantia do sucesso.
Cumpridas todas essas etapas pode-se finalmente iniciar as obras de construção.
Surge neste momento uma nova incógnita: onde buscar os recursos necessários para viabilizar a execução da obra e financiar as demais despesas envolvidas no processo como, por exemplo, a publicidade e outras despesas de comercialização.
Os possíveis caminhos a trilhar são conhecidos: o primeiro seria o emprego do próprio capital de giro da empresa caso haja disponibilidade de caixa; em seguida a busca de recursos de financiamentos de agentes financeiros e, por fim, a antecipação das vendas das unidades.
Se ficarmos com a primeira hipótese, será necessário calcular em um fluxo de Caixa a remuneração do capital investido. Na segunda hipótese é necessário pesquisar as taxas praticadas no mercado financeiro escolhendo-se a mais atrativa.
Porém se a opção for a terceira hipótese, qual seja a antecipação das vendas das unidades, é necessário conhecer o deságio praticado no mercado de inserção do empreendimento quando da comercialização de unidades não concluídas. De tal sorte a que se possa comparar as alternativas e escolher aquela de maior rentabilidade ao empreendedor.
Sabe-se, mesmo que intuitivamente, que a venda antecipada de unidades, embora capte capital para a cobertura das despesas com a execução do empreendimento, reduz fatalmente o valor de mercado das unidades, ou seja, paga-se mais por uma unidade pronta do que por uma outra idêntica ainda em projeto.
É necessário saber qual é este deságio para que a tomada de decisão se dê de forma consistente e aumente assim as probabilidades de lucratividade.

Cabe portanto ao profissional de avaliações conhecer qual é a diferença entre os preços praticados no mercado, considerando-se unidades iguais, porém negociadas em momentos diferentes do ponto de vista prazo de entrega do empreendimento.
Etapa 1 do trabalho: conhecer o deságio relativo ao prazo de entrega.
Na busca da mensuração do deságio pela não conclusão da obra, praticado no mercado imobiliário de unidades habitacionais verticalizadas na cidade de Goiânia, desenvolvemos um trabalho que teve por objetivo principal, comparar dados de transações de imóveis com diferentes prazos de entrega no momento da transação.
Efetuamos para tanto uma pesquisa no mercado de imóveis novos na cidade de Goiânia onde foram contemplados 182 dados. Essa pesquisa ocorreu num intervalo de tempo total de 23 meses ( de JUL/1999 a JUN/2001) e por esse motivo a variável DATA foi testada no modelo e se mostrou bastante significativa.
Os dados foram pesquisados minuciosamente podendo-se conhecer e analisar as características de cada um deles. Cada uma das diferenças entre os mesmos foi tratada a partir da definição de uma variável dependente, cuja interferência ou não na variação de preços foi comprovada através dos testes de hipóteses.
Foram pesquisados 182 dados de venda e oferta de apartamentos, sendo 90 destes imóveis com obras concluídas e prontos para uso e 92 com prazos previstos de entrega que variaram de 1 a 36 meses.
Foram diagnosticadas 15 (quinze) variáveis independentes, influenciantes na formação de preços dos apartamentos, algumas dizem respeito às características intrínsecas dos imóveis e outras ao tipo e data do evento imobiliário e logicamente uma variável que diz respeito especificamente ao PRAZO de entrega do empreendimento.

Variáveis independentes utilizadas no modelo:
Área Privativa – variável quantitativa que exprime a área privativa do apartamento em m² vez que no mercado imobiliário da cidade de Goiânia os apartamentos são divulgados ao mercado pela área privativa das unidades. Amplitude da amostra: 57,36 m² a 186,0 m².

Vagas de Garagem – variável quantitativa que exprime a quantidade de vagas de garagens vinculadas ao apartamento. Amplitude da amostra: 1 a 3 vagas.
PRAZO DE ENTREGA – Variável quantitativa que diz respeito ao número de meses restantes para a entrega do imóvel no momento da transação ou oferta do mesmo. Será obviamente igual a “0” no caso do imóvel estar concluído. Amplitude da amostra: 0 a 36 meses.
Andares Altos – Variável dicotômica que diferencia apartamentos situados no primeiro andar dos demais – que denominamos andares altos. Assume o valor “0” quando o imóvel localizar-se no 1º andar e valor “1” quando estiver em andares altos.
Oferta – Variável dicotômica que diferencia apartamentos ofertados daqueles efetivamente vendidos. Assume o valor “0” quando o preço refere-se à venda e valor “1” quando o preço fizer referência à oferta.
Localização – Variável qualitativa que diferencia os apartamentos pelas diferentes localizações dos mesmos na malha urbana. Tal variável foi construída a partir do índice fiscal obtido na Planta de Valores Genéricos da cidade de Goiânia. Amplitude da amostra: 18 a 190.
Padrão de Acabamento – Variável dicotômica que diferencia os apartamentos situados em prédios de padrão normal daqueles situados em prédios de padrão normal/alto. Assume valor “2” quando o prédio for de padrão normal e valor “3” quando o prédio for de padrão normal/alto.
Número de Sanitários – Variável quantitativa que exprime a quantidade de sanitários existentes no apartamento. Esta variável é importante porque está fortemente correlacionada ao padrão do apartamento e não acrescenta subjetividade ao modelo. Amplitude da amostra: 1 a 5.
Data – Variável quantitativa que cronometra os diferentes tempos de cada evento imobiliário pesquisado. Amplitude da amostra: 19 a 42.
Apartamento/Andar – Variável quantitativa que exprime a quantidade de apartamentos por andar existente no prédio. Amplitude da amostra: 1 a 6.
Equipamento – Variável qualitativa que representa o somatório ponderado dos diferentes equipamentos comuns existentes nos prédios, tais como: salão de festas, play ground, piscina, quadra poli esportiva, sauna, quiosque com churrasqueira, etc.
As variáveis: Elevadores (quantidade de elevadores); DCE (quantidade de peças da dependência de empregadas no apartamento); Dormitórios (quantidade de quartos na área íntima) e Unidades (quantidade de apartamentos no prédio), embora tenham sido diagnosticadas nas hipóteses de pesquisa, não se mostraram influenciantes na formação de preços unitários ou apresentaram correlação muito acentuada com a variável Área Privativa, e por esse motivo foram retiradas do modelo.

Conclusões da Etapa 1:
Verificamos ao final da modelagem que 11 (onze) das variáveis estudadas exercem influencia na formação dos preços praticados incluindo-se a variável PRAZO DE ENTREGA.
A variável PRAZO DE ENTREGA, cuja significância foi de 0,01 %, nos permitiu identificar que o deságio nos preços de apartamentos provocados pela sua não conclusão, foi linear no período estudado e teve uma variação mensal estimada em 0,60 % ao mês.
A partir daí pudemos estudar, através da construção de um fluxo de caixa, em qual momento o lançamento do empreendimento provoca maior lucratividade ao empreendedor.

Etapa 2 do trabalho: Calcular a previsão do Lucro do Empreendedor considerando-se diferentes momentos de lançamento do empreendimento.
Para subsidiar o diagnóstico nesta etapa partimos da mensuração dos custos de produção de um empreendimento hipotético e em seguida estimamos, a partir do modelo de regressão obtido na etapa anterior, o valor de mercado das unidades produzidas, do início da construção até o seu término.
Os custos de produção foram estimados com o auxílio do Sistema de custos – SINAPI, elaborado pela Caixa Econômica Federal.
O projeto hipotético considerado foi o PR123QP 6013, qual seja, um edifício residencial com 12 pavimentos tipo mais pilotis, contendo 48 apartamentos de 03 quartos com 02 sanitários, com padrão de acabamento normal e área privativa de 100,0 m² por unidade e 01 vaga de garagem vinculada a cada apartamento. Na área comum consideramos a construção de um salão de festas, um play ground e um quiosque com churrasqueira.
O custo total de construção estimado foi de R$ 2.394.160,00 (dois milhões, trezentos e noventa e quatro mil e cento e sessenta reais), data base JUNHO/2001 e o prazo total previsto para as obras, de 18 (dezoito) meses.
Idealizamos a construção do empreendimento em um bairro residencial de alta densidade na cidade de Goiânia, cujo índice fiscal na PGV é 85. O terreno necessário para receber o empreendimento foi avaliado em R$ 120.000,00 (cento e vinte mil reais).
Portanto o custo total de produção do empreendimento foi estimado em R$ 2.514.160,00 (dois milhões e quinhentos e quatorze mil e cento e sessenta reais).
Os apartamentos deste edifício hipotético foram então avaliados em:
No início da obra ou a 18 meses do seu término::
- Apartamento no 1º andar = R$ 663,48 /m²
- Apartamento nos andares altos = R$ 693,17 /m²
Na conclusão da obra:
- Apartamento no 1º andar = R$ 739,20 /m²
- Apartamento nos andares altos = R$ 772,27 /m²

Efetuamos então dois fluxos de caixa considerados críticos, um primeiro onde consideramos que o início das vendas coincida com o início das obras de construção do empreendimento e um segundo em que o lançamento do empreendimento no mercado só ocorra após o término da obra de tal sorte a esperar o momento de maior valorização das unidades.
Após pesquisa efetuada no mercado imobiliário verificamos que lançamentos no início do empreendimento provocam um prazo total de comercialização médio estimado em 10 meses. Enquanto lançamentos ao final da obra melhoram a liquidez e podem ter as unidades comercializadas em um tempo médio de 6 meses.
Na primeira hipótese consideramos que a cada 2 meses houve revisão nos preços de vendas tendo em vista a concomitante redução dos prazos de entrega das unidades. Ou seja, os apartamentos foram reavaliados a 18, 16, 14, 12 e 10 meses do término da obra.

Conclusões da Etapa 2:
Verificamos que o lucro final do empreendedor no caso de lançar o empreendimento no início da obra poderá ser de R$ 609.930,00 (seiscentos e nove mil e novecentos e trinta reais).
Na hipótese do empreendedor optar por lançar o empreendimento somente ao término da obra para evitar o deságio nos preços e aparentemente aumentar a previsibilidade de lucro, poderá ao contrário, ter seu lucro reduzido a R$ 330.000,00 (trezentos e trinta mil reais), praticamente a metade daquele possível na hipótese anterior.
Conclui-se finalmente que o empreendedor não pode se guiar apenas pela intuição no momento da tomada de decisão. Um estudo responsável alicerçado em uma boa base de dados certamente lhe trará maiores possibilidades de lucratividade.
Conclusões e Recomendações:
Concluímos que existe de fato um deságio mensurável na venda de unidades na planta ou nas diversas fases da construção, comparada com a venda de unidades concluídas porém, o mesmo pode e deve ser conhecido do empreendedor para a tomada de decisão. O empreendedor não pode se guiar apenas pela intuição pois, um estudo responsável, alicerçado em uma boa base de dados, certamente lhe trará maiores possibilidades de lucratividade.
No presente trabalho, de tal forma a focar apenas em nosso objetivo, mensuração do deságio, desprezamos a possibilidade de valorização real das unidades durante o período de construção e vendas. Porém, recomendamos que, na prestação de consultoria sobre o assunto, tal análise (feita a partir do estudo do crescimento da variável DATA relativamente ao INCC ou outro índice de preços julgado mais adequado) seja também inserida nas planilhas de fluxo de caixa para espelhar de forma mais precisa os resultados.





Patrimônio de afetação (Lei nº 10.931/04): Prós e contras para o construtor/incorporador.

29 06 2008

Darci Paulo Mota
James Ansil
Marcelo Ribeiro Losso

A afetação é um encargo que vincula um patrimônio (bens, direitos, deveres e obrigações) de uma incorporação imobiliária a uma determinada destinação (conclusão total da obra e entrega das unidades aos adquirentes devidamente registradas).

O seu propósito é dar segurança jurídico-patrimonial às partes envolvidas e sob a égide da função social, transparência e ética negocial, garantir a realização do empreendimento imobiliário afetado e assim contribuir para expansão e crescimento do mercado imobiliário nacional de maneira sustentável com reflexos na melhoria da qualidade de vida da população.

Passados 6 anos (3 dos quais como Medida Provisória n° 2.221/01 e 3 como Lei n° 10.931/04) da existência legal do patrimônio de afetação para incorporações imobiliárias, constata-se que tem sido um instrumento pouco utilizado pelo mercado imobiliário brasileiro e se mostrado inócuo para solução do déficit habitacional do País.

Nesse período, em Curitiba (PR), em consulta preliminar aos Cartórios de Registro de Imóveis da Capital, até o início de dezembro de 2007, haviam sido averbadas em torno de 10 incorporações imobiliárias que tinham aderido ao regime de segregação patrimonial e uma parcela menor ao Regime Especial de Tributação (RET).

Alguns fatores são tidos, pelos incorporadores, como relevantes para não utilização do regime de segregação patrimonial nos empreendimentos imobiliários, como o “relativo desconhecimento” e uma “certa complexidade” na aplicação da Lei, além do “ônus” administrativo-contábil imputado. Por outro lado, há um arcabouço jurídico que tem contribuído para incentivo e desburocratização dos negócios imobiliários, como a alienação fiduciária (Lei n° 9.514/97), a averbação premonitória (Lei n° 11.382/06) e a norma que possibilita a realização de divórcios, partilhas e inventários em cartórios, dispensando às partes de recorrerem à Justiça, quando há consenso entre elas, o que garante maior rapidez às transações imobiliárias principalmente no que se refere à partilha de bens (Lei nº 11.441/07).

Somados a essas legislações “facilitadoras”, o “boom imobiliário” verificado nos anos recentes, deve-se também à crescente alta da oferta do capital de investimento, à relativa estabilidade e crescimento da economia nacional, à melhoria da renda do trabalhador e de algumas ações governamentais que estimulam o aumento do financiamento (como as taxas pré-fixadas, créditos consignados, a redução dos juros, ampliação dos prazos de pagamento, etc.), além da expansão do crédito imobiliário pelo SFI, da desoneração de produtos da cesta básica da construção civil, da Lei geral das micro e pequenas empresas, do supersimples, da regulamentação do mercado de securitização e recebíveis imobiliários (instituição da Letra de Crédito Imobiliário – LCI e da Cédula de Crédito Imobiliário – CCI) e da diminuição, ainda que incipiente, das exigências burocráticas para obtenção de financiamento.

Afora os aspectos relevantes supracitados que inibem a aplicação da afetação, alguns itens são enumerados como desvantagens (contras) da Lei em comento, pois podem representar critérios mais “ortodoxos” dos deveres e responsabilidades inerentes ao construtor/incorporador e que são obrigações “de dar” e “de fazer”, ou seja de resultados:

1. A Lei faculta a averbação a qualquer tempo, porém afetar um empreendimento já iniciado deve ser administrativa e contabilmente muito complicado, senão praticamente impossível. A segregação contábil, administrativa e financeira imputada traz maior complexidade e limitações;

2. Afetado o patrimônio, é requerido que ele tenha contabilidade própria, com conta bancária independente das demais da empresa. Cabe à incorporadora a missão de emitir relatórios trimestrais de acompanhamento da obra — receitas, despesas, contratos firmados, prazos, previsões financeiras — e encaminhá-los à comissão de representantes nomeada pelos compradores;

3. Mesmo que a construtora seja optante pela tributação com base no lucro presumido, ela não se exime de manter escrituração contábil apartada completa;

4. Cada “incorporação-patrimônio-de-afetação” só responde pelas dívidas e obrigações a ela vinculadas, tem ativo e passivo próprios, incumbindo ao incorporador a complexa e burocrática tarefa de diligenciar com atenção e zelo a obtenção dos recursos necessários ao pagamento do passivo de cada um dos patrimônio de afetação, mesmo retirando-os do seu patrimônio geral;

5. Para verificação da comissão de representantes ou de técnicos por ela indicados, o incorporador acabará tendo que abrir informações e detalhes empresariais tais que possam extravasar o interesse daquele determinado empreendimento;

6. As empresas terão nitidamente, uma limitação na sua liberdade de gestão do caixa, com “aperto” no capital de giro e implicará na necessidade de maior capital de giro próprio ou de terceiros – estes aportes são mais caro evidentemente e não tão imediatamente disponíveis, contrariando às perspectivas legais de créditos facilitados;

7. A exigência de anuência dos adquirentes no “termo de afetação” e nos documentos de apresentação de balancetes e de auditoria são considerados mecanismos de controle excessivos;

8. Os incentivos fiscais prometidos e os financiamentos desburocratizados e de baixo custo propalados ainda não se tornaram realidade acessível e o RET não unifica os tributos estaduais e municipais.

Outros aspectos, abaixo enumerados, são considerados como vantagens (prós) do Construtor/Incorporador que optar pelo regime de afetação:

1. A afetação sob a conveniência do incorporador por ser de caráter opcional e irretratável, dá-lhe poder estratégico de barganha na negociação;

2. Não o impede constituir garantias reais sobre os bens e direitos da incorporação, bem como a ceder os créditos oriundos da comercialização, seja em termos plenos ou fiduciários (§§ 3° ao 8° do Art. 31-A da Lei nº. 4.591/64, introduzido pelo Art. 53 da Lei n° 10.931/04);

3. Excluem-se do patrimônio de afetação os recursos financeiros que excederem a importância necessária à conclusão da obra, e o valor referente ao preço de alienação da fração ideal de terreno de cada unidade vendida. Em outras palavras, o patrimônio afetado é o do custo de construção apenas;

4. Cada unidade, quando não quitada, representa um crédito a ser percebido por parte do promitente-adquirente. A expressão deste crédito poderá constituir-se em título cedível, de forma plena ou para fins de garantia, e não perderá sua vinculação ou natureza de patrimônio de afetação, a ser utilizado para pagamento ou reembolso das despesas inerentes à incorporação.

5. Tem o incorporador o benefício de denúncia, desistência ou resilição unilateral do empreendimento com prazo de carência improrrogável estipulado em contrato, não podendo ultrapassar o prazo de validade do registro ou de sua revalidação, ou seja, 180 dias (§§ 2º, 4º e 6º do Art. 34 da Lei nº. 4.591/64) e prazo de 30 dias para ressarcir seus credores pelas importâncias já pagas (Art. 36 da Lei em comento);

6. Unificação dos tributos federais, com pagamento de 7% da receita mensal recebida: Imposto de Renda Pessoa Jurídica, PIS/Pasep, Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) e Cofins;

7. A responsabilidade da incorporação imobiliária é alta, ampla e com consideráveis riscos, podendo, nas ilicitudes, até implicar em ônus civis e/ou criminais, mas é proporcional ao seu próprio negócio lucrativo e assim, dessa forma a Lei em comento força o construtor/incorporador a dar o melhor de si, a cumprir com mais atenção e zelo o rol de deveres e obrigações que lhes são atribuídos, acarretando em resultados mais favoráveis e consolidados;

8. Por fim, para o incorporador que trabalha com seriedade e honestidade, a nova medida deverá aumentar a credibilidade das incorporações imobiliárias, aumentando a segurança dos investidores e dos adquirentes, refletindo diretamente na quebra das desconfianças do interessado na aquisição do produto, o que poderia estimular o mercado imobiliário, inclusive criando “selos de qualidade” e publicidade positiva, com o objetivo de identificar as construtoras sólidas, capazes e eficientes e empreendimentos juridicamente confiáveis e seguros.

A resistência cautelosa dos construtores/incorporadores ao patrimônio de afetação, pode ser minimizada ante a segurança jurídico-patrimonial que a Lei pode proporcionar ao mercado imobiliário como um todo. Caso, eventualmente, aconteça uma crise com quebra ou insolvência de empresas incorporadoras de porte análogo ao ocorrido no período “Encol”, os “efeitos” se restringiriam ao empreendimento afetado e assim não seria abalada a sutil confiança no mercado imobiliário brasileiro in totum.

Ao diploma legal tem sido proposto aperfeiçoamentos, como o Projeto de Lei – PL n° 747/07, em tramitação no Congresso e aprovado recentemente pela Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara dos Deputados, que obriga a vinculação à afetação dos bens físicos de qualquer incorporação imobiliária com venda de unidades na planta. Logicamente que, na vertente do construtor/incorporador e de seus órgãos representativos deve haver também pleitos maiores no sentido da obtenção de incentivos fiscais e financeiros e de minimizar substancialmente as exigências burocráticas. Então, nas situações relacionadas abaixo, poderá ser aplicado o patrimônio de afetação:

1. Para toda incorporação em que suas unidades venham ser colocadas à venda antes da conclusão do empreendimento;

2. Para toda incorporação erguida com financiamento público ou outro tipo de hipoteca de qualquer natureza;

3. Para incorporadoras que construam unidades para venda em numero igual ou superior a um número expressivo de empreendimentos por ano;

4. Para construtor/incorporador, com debito anteriores, seja tributário, trabalhista e/ou previdenciário;

5. Para incorporação cujo terreno é de terceiro;

6. Para obras contratadas seja pelo regime de administração ou por cota de participação ou ainda por empreitada;

7. Por interesse e conveniência tanto do incorporador como do consumidor.

*Artigo produzido a partir da Monografia de Especialização defendida e aprovada com louvor (out./07) no Curso de Especialização em Direito Imobiliário aplicado a Gestão Empresarial da PUCPR (onde encontram-se todas referências bibliográficas).





Marketing Estratégico e Competitividade Empresarial

15 06 2008

Formulando estratégias mercadológicas para organizações de alto desempenho

Luiz Claudio Zenone, Editora Novatec

Ver Capítulo 1 do livro.





Relações entre o Financiamento Imobiliário e a Produção do Espaço na Cidade de São Paulo: Casos de Segregação e Fragmentação Espaciais

23 03 2008
Adriano Botelho (aluno de Doutorado – Departamento de Geografia – USP)
E-mail: abot@usp.br
Download do artigo completo.
Resumo

A análise das relações entre o setor imobiliário e o mercado financeiro pode contribuir para a compreensão de intensificação da fragmentação do espaço urbano e para o entendimento da complexificação do processo de segregação sócio-espacial. Dessa forma, são discutidos três casos de empreendimentos imobiliários na cidade de São Paulo – Fundos de Investimentos Imobiliários [FII’s] e Certificados de Recebíveis Imobiliários [CRI’s]; cooperativas  (autofinanciamento); e provisão estatal de moradia através de Companhias Habitacionais -, sendo que cada um deles possui distintas fontes de financiamento e relações com o setor financeiro. O estudo de cada caso, estacando-se a sua localização no urbano e as características do mercado a que se destina, revela importantes elementos do processo de hierarquização, fragmentação e segregação no espaço da metrópole paulistana.





Mercado Imobiliário no Brasil

23 03 2008
PUC-Rio – Certificação Digital Nº 0312521/CA
Download do artigo completo.

  

Investimentos nesse mercado apresentam pouco giro, baixa liquidez, consumindo grande aporte de capital (principalmente custos de construção), não sendo incorporados de forma instantânea e com payback lento. Apresenta diversas incertezas econômicas como demanda, preço/m² do imóvel, velocidade de vendas (ocorrendo por vezes vacâncias prolongadas), e ainda com relação à regulação/legislação e ao poder público (habite-se, etc) o que aumenta o risco percebido pelos investidores. Exige-se um grau de conhecimento específico, elevando os custos administrativos, devido à alteração constante da legislação que regula aluguéis, impostos, aprovação de projetos etc, aumentando a volatilidade do projeto. Podemos encontrar exemplos de obras embargadas, mesmo após a liberação da Licença. Desta forma, o gerenciamento de risco e a utilização de hedge são importantes ferramentas.





Estudo de Caso de um Empreendimento Imobiliário, Analisando Diferentes Estratégias e suas Conseqüências no Resultado

23 03 2008

Artigo completo

Martinho Isnard Ribeiro de Almeida(*)
Francisco Ribeiro de Almeida(**)
III SEMEAD 

RESUMO 

O sucesso de um empreendimento de imobiliário depende de vários fatores além do processo de construção da edificação. Estratégias como antecipação de vendas (antecipando o lançamento ou investindo em publicidade), adequação da velocidade de construção à entrada de capital, negociação do terreno, entre outras, são fatores de grande influência no retorno do capital investido num empreendimento. A adequação desta estratégias resulta em grande melhoria no sistema como um todo. Neste artigo foram feitas simulações em um empreendimento real, a primeira estratégia simulada foi a troca do terreno por apartamentos (ou porcentagem das vendas de apartamentos) e a segunda estratégia foi diminuir a margem de segurança gerada por uma reserva de capital. Neste caso, essa reserva foi zerada, e todo o capital investido foi considerado como investido na obra, assim a construtora não teria que remunerar um capital que ficaria parado, ou com baixo rendimento. Para fazer o estudo de caso foram criados 4 cenários: o real (que realmente ocorreu), a troca do terreno por dois apartamentos, igualar a necessidade de caixa às suas entradas e o último, unindo essas duas mudanças estratégicas. A taxa interna de retorno para cada um destes cenários foi, respectivamente, 16,6%; 19,4% ; 20,7% e 26,1% ao ano acima do IGP-M.








Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 157 other followers