BR Properties incorpora One

30 03 2012

(Valor Econômico) – 29/03/12

A incorporação da One Properties – antiga WTorre Properties – pela BR Properties foi aprovada em assembleia de acionistas da companhia ontem. Essa foi a última etapa da operação, anunciada em setembro, que torna o BTG Pactual o maior acionista da empresa resultante, com 28,8% das ações. Com a nova configuração, o portfólio de ativos da BR Properties dobra, passando a R$ 10,1 bilhões.

O pagamento pelos ativos da One foi feito por meio de ações da BR Properties. Os acionistas da então WTorre Properties, controlada pelo BTG, ficarão com 41,9% da nova companhia. Já os antigos acionistas da BR Properties, cujo capital é bastante pulverizado, terão os outros 58,1%.

O conselho de administração será dividido. Os antigos acionistas da BR Properties terão três assentos, que serão ocupados pelo diretor-presidente, Claudio Bruni, por Antônio Bonchristiano, da GP Investimentos, e por José Flávio Ramos, do Safra – ambos investidores de longa data da companhia. As três cadeiras destinadas aos sócios da One serão ocupadas pelo alto escalão do BTG, incluindo o presidente, André Esteves. Haverá ainda um membro independente.





Queda geral da demanda surpreende

7 12 2011

(Valor Econômico) – 07/12/11

As restrições à expansão doméstica e as expectativas negativas sobre a crise na Europa se disseminaram por toda a economia a ponto de paralisá-la no terceiro trimestre – o Produto Interno Bruto não cresceu nada em relação ao trimestre anterior.

Pela primeira vez desde o auge do impacto da crise financeira mundial, na virada de 2008 para 2009, houve retração em todos os componentes do consumo interno: famílias, governo e investimento. O consumo das famílias recuou 0,1%, os investimentos, 0,2% e os gastos do governo, 0,7%. A combinação desses números desfavoráveis torna bem mais difícil chegar a um crescimento de 3,5% em 2012 e improvável a possibilidade de uma expansão superior a 4%, como desejado pelo governo.

Dos componentes do PIB pela ótica da demanda só as exportações cresceram no trimestre passado, 1,8%. O Departamento Econômico do Bradesco, que calcula a série da demanda doméstica total, apontou queda de 0,2%, a primeira desde a virada de 2008 para 2009. Pelo lado da oferta, o setor de serviços foi coadjuvante da queda da indústria, com retração de 0,3%. Exceto pelo quarto trimestre de 2008, a última vez em que o setor de serviços teve queda foi no início de 2005. A exceção entre os três grandes componentes do PIB foi a alta de 3,2% da agropecuária.

As previsões para o PIB do último trimestre em relação ao terceiro variam de 0,2% a 0,8%, na série com ajuste sazonal. Grande parte dos economistas espera para o ano expansão inferior a 3%. E alcançar um PIB muito acima de 3% em 2012 será difícil, mesmo com atuação agressiva do governo. Para atingir o crescimento desejado pela presidente Dilma Rousseff – entre 4% e 5% – o PIB precisará crescer entre 1,4% e 1,8% a cada trimestre em relação ao anterior, um desempenho nada comum na última década.

A expectativa é que o governo adote mais ações para reaquecer a demanda, retirando os freios impostos pelas medidas macroprudenciais e derrubando a taxa de juros. A retração de 0,7% do consumo público surpreendeu o Planalto. Nos próximos dias, será acelerado o empenho de verbas federais vinculadas ao investimento para que esses recursos sejam alocados antes do fim do ano. Do total de R$ 69 bilhões em dotação específica para investimentos, apenas R$ 10,3 bilhões foram gastos de janeiro a outubro. A diferença é a margem que pode ser empenhada e também migrar para o próximo ano, na forma de restos a pagar. Com isso, evitará o desaquecimento sazonal do início do ano e a incerteza em relação à liberação de verbas.





BC reduz os juros pela 1ª vez no governo Dilma

31 08 2011

(O Estado de S. Paulo) – 31/08/11

Instituição decidiu nterromper o ciclo de alta iniciado em janeiro e anunciou hoje a redução da taxa básica de juros do País em 0,50 ponto porcentual, para 12% ao ano

A “substancial deterioração” do quadro econômico global nas últimas semanas e a pressão de última hora vinda do próprio governo fez o Banco Central manobrar a economia em 180 graus. Influenciado pela percepção de que a crise deve manter a economia mundial em ritmo lento por “um período de tempo maior do que o antecipado”, a instituição preferiu interromper o ciclo de alta iniciado em janeiro e anunciou hoje a redução da taxa básica de juros do País em 0,50 ponto porcentual, para 12% ao ano. É a primeira redução dos juros no governo Dilma.

Após cinco aumentos seguidos do juro entre janeiro e julho – que somaram 1,75 ponto à taxa Selic – o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC entendeu que não havia razão para continuar subindo o juro. Pelo contrário, mudou radicalmente de opinião em 45 dias. Assim, os diretores do BC mostram que, após meses de trabalho para segurar a alta da inflação e esfriar a economia, agora é necessário acelerar a atividade econômica em reação à crise global.

“O Comitê avalia que o cenário internacional manifesta viés desinflacionário no horizonte relevante”, cita o comunicado após a decisão que, pela primeira vez em muito tempo, tem duas páginas de explicações.

A principal mudança para essa a avaliação do BC veio do exterior. O rebaixamento da nota de risco dos EUA no início do mês deflagrou uma série de revisões para pior das projeções dos economistas sobre o que deve acontecer com a economia mundial nos próximos meses. A percepção geral é que países centrais devem demorar ainda mais para sair da crise e crescer. Para o BC, o quadro representa maior incerteza da influência externa sobre o mundo e, claro, o Brasil.

“Para o Copom, a transmissão dos desenvolvimentos externos para a economia brasileira pode se materializar por intermédio de diversos canais, entre outros, redução da corrente de comércio, moderação do fluxo de investimentos, condições de crédito mais restritivas e piora no sentimento de consumidores e empresários”, cita o documento.

Se economias centrais crescerem menos, a demanda por produtos e serviços brasileiros seguirá fraca. Isso vai reduzir o ritmo da economia doméstica. O Bradesco, por exemplo, prevê que, se a economia mundial crescer 1 ponto porcentual menos, a expansão no Brasil deve perder pelo menos 0,65 ponto. Menos crescimento reduz a pressão de alta nos preços e diminui a necessidade de elevar o juro para manter a inflação sob controle.

Mesmo sem o quadro externo, o noticiário local já apontava para o fim do ciclo de aperto dos juros. Um dos principais sinais veio do Índice de Atividade Econômica do BC (IBC-Br), dado que antecipa o comportamento do PIB e mostrou em junho a primeira queda desde dezembro de 2008. No mercado de trabalho, a criação de empregos tem perdido força e o próprio BC divulgou números que mostram desaceleração no ritmo de concessão de empréstimos.

Mas essa virada na política monetária teve uma ajuda política. A redução do juro 45 dias após o último aumento era um desejo do Palácio do Planalto e de membros da equipe econômica, como o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Houve um esforço de última hora em anunciar aumento da economia feita pelo governo para pagar a dívida (superávit primário) como forma de abrir caminho para os cortes do juro.

Com isso, o BC ignora a inflação que segue em ritmo elevado. Nos últimos 12 meses, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo tem alta acumulada de 6,87%, acima do teto da meta de inflação que é de 6,50%. Para os próximos 12 meses, a expectativa para o IPCA é de 5,47%.

“O sinal do BC é que, após a piora recente, o quadro internacional não está feio, está horroroso. Porque no Brasil estamos mais para auge que para o descenso da economia. Ou seja, é o quadro externo que determinou essa decisão”, diz o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves.





Imóveis sobem 156% em 5 anos e levantam dúvidas sobre bolha

30 08 2011

(Gazeta do Povo) – 27/08/11

Para alguns especialistas, preço já subiu demais; para outros, os valores atuais são um ajuste após vários anos de mercado debilitado

De janeiro de 2006 a julho deste ano, o preço médio do metro quadrado de imóveis residenciais em Curitiba subiu 156% – um apartamento comprado há cinco anos por R$ 150 mil vale hoje algo em torno de R$ 380 mil. O crescimento é superior à valorização dos aluguéis na cidade e bem acima da inflação medida pelo IPCA, segundo levantamento mensal realizado pelo Sindicato de Habitação e Condomínios do Paraná (Secovi-PR). O aumento constante dos preços de imóveis levanta a questão: até quando eles vão continuar subindo?

Analistas estão longe de um consenso. Para muitos, o movimento atual é parte de um longo ciclo de alta, provocado por um descompasso entre oferta e demanda. Por diversos motivos – baixa oferta de terrenos, escassez de mão de obra, exigências ambientais pouco flexíveis e tempo longo para a construção de imóveis –, a oferta de novas casas e apartamentos não acompanha o desejo do mercado consumidor. O fenômeno também ganha força com a pressão pelo lado da demanda, que vem crescendo com o aumento da renda do trabalhador e o maior acesso ao crédito.

“Preço justo”
Mas mas há quem argumente que já é possível soar o alerta de uma bolha de preços – bolhas são caracterizadas pelo valor de um ativo acima de seu preço justo, calculado pela reposição dos custos mais uma margem de lucro compatível com o risco do negócio. O professor João da Rocha Lima Jr, do Núcleo de “Real Estate” da Poli-USP, tem analisado os números do mercado de São Paulo e afirma que já é possível identificar sinais de bolha por lá. Ao comparar os preços dos imóveis com o Índice Nacional da Construção Civil (INCC), indicador dos custos do setor, as análises mostram que os preços dos imóveis estão acima de seu preço justo.

O mesmo fenômeno pode ser verificado na capital paranaense. De janeiro de 2006 até julho deste ano, o INCC aumentou 46% – medido pela FGV, o índice faz um média dos custos de materiais e mão de obra da construção civil em sete capitais brasileiras. Por uma decisão metodológica da instituição, Curitiba deixou de ser pesquisada em 2009, mas o INCC serve de termômetro para o país.

Descolamento
Se comparado à valorização dos imóveis na cidade, o índice mostra que, assim como em São Paulo, os preços estão descolados da variação dos custos de construção. Enquanto os imóveis valorizaram quase 20% nos últimos 12 meses, a inflação da construção civil foi de 7,28%. “Não é possível afirmar que estamos vivendo uma bolha”, ressalta o professor da USP. “As bolhas são temas delicados, porque você não pode defini-las com antecedência, apenas fazer alertas. Só sabemos que ela ocorreu quando ela se desvanece”, avisa.

Apartamento pequeno teve maior valorização
O preço médio do metro quadrado em Curitiba passou de R$ 904, em janeiro de 2006, para R$ 2.323 em julho deste ano, uma alta de 156%, segundo levantamento do Sindicato de Habitação e Condomínios do Paraná (Secovi-PR). No mesmo período, o metro quadrado do aluguel saltou de R$ 6,27 para R$ 12,22, um aumento de 94%. O levantamento leva em conta o preço em diferentes regiões da cidade e de diferentes tipos de imóveis (kitinete; apartamentos de um, dois, três e quatro quartos; residências de dois, três e quatro quartos, e sobrados).

Os imóveis pequenos foram os que tiveram o maior reajuste. O metro quadrado das kitinetes, por exemplo, está 255% mais caro hoje do que há cinco anos e meio – um salto de de R$ 844 para R$ 3.002. Segundo a pesquisa do Secovi, este é o metro quadrado médio mais caro entre os tipos de imóveis, seguido pelos apartamentos de um quarto (R$ 2.779) e de quatro quartos (R$ 2.703). As residências de dois quartos (R$ 2.001) e sobrados (R$ 2.138) são os mais baratos. A pesquisa não discrimina o preço por bairro.

Indicador: Preço também sobe mais que aluguel
Uma outra comparação que pode ser sintoma de que os preços já foram longe demais é a relação com o custo dos aluguéis. Enquanto nos últimos 12 meses o metro quadrado médio da locação teve uma alta de 13%, o preço para venda subiu quase 20%. Em julho, a taxa de retorno média do aluguel – o valor do metro quadrado para locação sobre o preço do metro quadrado do imóvel – foi de 0,52% em Curitiba, um rendimento considerado baixo – menos que a remuneração da poupança (0,5% mais TR, algo perto de 0,6%) e bem abaixo do CDI (0,96%), um ativo livre de riscos. Segundo especialistas, a baixa taxa de retorno é um indicativo de que os imóveis estão supervalorizados. Quem desmente a tese argumenta que, no Brasil, a maioria das pessoas está comprando imóvel para ocupação, ou seja, não está especulando e comprando apenas visando retorno rápido.

Descompasso entre demanda e oferta provoca alta, diz analista
Ainda que alguns especialistas sugiram que há uma bolha imobiliária em formação, muitos argumentam que o país vive um longo ciclo de alta dos preços, e que eles devem começar a se estabilizar em breve. O principal argumento é de que o Brasil passou por um longo período de estagnação imobiliária, em que o número de novas construções foi muito pequeno.

“Não vejo a possibilidade de bolhas. É um aquecimento normal. Havia uma demanda muito reprimida. Enquanto houver compradores, o preço vai se manter”, diz o diretor do Secovi e proprietário da imobilária Cilar, Luciano Giongo Tomazini. Paulo Queiroz, economista-chefe da Portfolio Asset, consultoria econômica baseada no Rio de Janeiro, concorda. “Há uma procura muito grande, mas a oferta não acompanha. Essa alta acelerada seria mais uma correção, talvez um pouco exagerada, de preços deprimidos por muito tempo”, afirma.

Juros
Análises de história econômica mostram que, apesar de não poderem ser previstas, as bolhas têm pelo menos um elemento em comum: o baixo nível da taxa de juros, o que costuma significar desejo do governo de que as famílias e empresas gastem mais, com o crédito mais barato. “Essa não é a realidade do Brasil”, diz Fábio Nogueira, diretor da Brazilian Finance Real Estate (BFRE), empresa que atua na área de crédito imobiliário. “O juro no Brasil é um dos mais caros do mundo. Hoje os brasileiros financiam, em média, 62% do imóvel, um patamar considerado bastante saudável. Quando há a comparação com a bolha imobiliária americana, é bom lembrar que lá, muitas vezes, o financiamento chegava a até 105% do valor do imóvel”, argumenta.

Nogueira também lembra que, no Brasil, os bancos fazem um controle rigoroso da concessão de crédito. Como as próprias instituições carregam quase que integramente os ativos imobiliários, elas têm os incentivos corretos para não arriscar demais. “A nossa regulamentação do crédito é muito rigorosa. No Brasil não há produtos financeiros como havia nos EUA, como o refinanciamento de hipotecas”, afirma Queiroz. (BB)





Especialista alerta para formação de bolha no mercado imobiliário residencial

29 07 2011

(PINIweb) – 19/07/11

Coordenador¹ do Núcleo de Real Estate da Poli-USP afirma que os preços têm crescido além do explicável por sua estrutura de custos. Confira, na íntegra, carta trimestral produzida pela entidade sobre o tema

1. Já tenho escrito que bolhas de mercado não podem ser projetadas, nem em escala de valorização inadequada, nem em prazo para aparecer e desvanecer. Todavia, é possível identificar conformações de mercado, nas quais certas evidências emitem alerta de formação de bolha, cujo resultado, esse sim previsível, será a migração do valor de ativos precificados acima do seu patamar justo para baixo, penalizando as poupanças equivocadamente abrigadas em certos imóveis.

Os preços dos imóveis residenciais e comerciais, estes mais, têm crescido no mercado brasileiro além do que é explicável pela sua estrutura de custos. Preços crescentes não são sinônimos de bolha, mas preços crescentes sem explicação na estrutura de custos são efeitos de desorganização do mercado e identificam a ocorrência de bolha.

Preços crescentes não são causas de bolha, mas são efeitos de existência de demanda desarticulada de mercado, influenciada pela sensação de que o produto de real estate, mesmo prejudicado pelos seus atributos de rigidez e liquidez, representa um ativo no qual é possível fazer posições especulativas de curto prazo com expectativa de resultados expressivos.

2. Na Carta do NRE-Poli-23-11 postei um conjunto de informações sobre os fatores indicativos de que os preços crescentes aplicados pelas empresas aos empreendimentos residenciais de 2008 até o final de 2010 carregavam componentes de custos e margens adequadas para cobertura de incertezas. Os preços descolavam do crescimento do INCC-FGV, porque alguns fatores não estão cobertos pelo índice de inflação de custos de construção mais respeitado no mercado, desde terrenos, passando pelos custos da outorga onerosa cada vez mais presente, até os custos diretos mascarados em subempreitadas com margens especulativas, pela pressão de demanda.

Até o final de 2010 não se podia perceber indicativos de preços crescentes pela formação de bolha, inclusive tendo em vista que as empresas de maior destaque do setor apresentaram balanços com resultados reduzidos diante das expectativas por elas emuladas quando divulgaram suas metas de comportamento. Naquela conjuntura ficava fácil explicar que, no que dependia do planejamento das empresas, os sistemas de formação de preços estavam em alteração para incluir margens de proteção para o descolamento do INCC-FGV dos custos de cada obra e para o desvio entre custos e orçamento.

Os resultados decepcionantes do primeiro grande giro de empreendimentos depois das aberturas de capital das empresas, com injeção de massas expressivas de capital para investimento no setor, estavam presos à ineficácia no planejamento. Considere-se que o setor trabalha com preços fechados e custos abertos, na medida em que se vende antes de construir. Os preços estavam formados sob a premissa de que as empresas dispunham de sistemas de controle de custos para realinhá-los aos orçamentos, quando evidenciados desvios. O que se viu é que as empresas haviam instalado sistemas capazes de registrar custos, portanto de identificar os desvios, mas não a tempo hábil de promover crítica aos processos e tentar compensações, nem sempre viáveis. Registro de custos não é controle de custos em real estate. Quando os resultados frágeis apareceram, acendeu-se uma luz de alerta sobre a precificação dos empreendimentos e os preços saltaram, para abrigar as necessárias margens de cobertura para incertezas do ciclo de construção, depois de fechados os preços, derivadas da economia, de problemas estruturais do setor e das questões sistêmicas do controle de custos.

Então era possível explicar, usando os índices de preços Fipe-zap como referência, que as variações se justificavam levando em conta cinco fatores estruturais: preços dos terrenos, custos da obtenção do direito de construir, crescimento de custos acima da variação do INCC-FGV, crescimento dos custos de construção devido à natureza dos processos utilizados no mercado, além da imposição de margens de segurança para não repetir as frustrações do passado.

Entretanto, se verificarmos o desenvolvimento dos preços dos empreendimentos residenciais de janeiro até junho-2011, utilizando o índice Fipe-zap, fica claro que os movimentos de preços continuam descolados da variação de custos de construção pelo INCC-FGV, em uma conjuntura em que os cinco fatores já estão precificados. Ou seja, terrenos não continuam em disparada, porque a pressão de mercado caiu muito, como atestam as empresas de maior destaque, e o custo do direito de construir já estava embarcado nos preços. Do lado dos custos de construção, com margens para descolamento dos custos de cada obra para o INCC-FGV e com margem para cobertura de desvios já precificados, o orçamento mais margens deve acompanhar o INCC-FGV. Não é isso que se verifica em São Paulo, por exemplo, quando tomamos a evolução do índice Fipe-zap, contra a do INCC-FGV no período, como ilustro no gráfico 1. No primeiro semestre de 2011, com velocidade de vendas em baixa (velocidade sobre a oferta, segundo medida do Secovi-SP), os preços residenciais subiram na amostragem global, 14,4%, o que se traduz em um aumento recorrente mensal equivalente a 2,21%, contra 5,6% de variação do INCC-FGV, equivalente a 0,91% recorrente mensal, metade da taxa de crescimento dos preços. Para acompanhar a curva de custos, o índice de preços deveria estar em junho-2011 em 185,66, contra os 203,37 medidos pela Fipe.

2.1. As evidências são de que o preço dos imóveis residenciais está acima do seu valor justo. Valor não é atributo de qualquer bem, mas o preço justo equivale a um valor justo. O preço justo é aquele que cobre os custos de produção em regime eficaz, contém margem para cobertura das incertezas, tendo em vista que o preço é fechado antes da construção, e contempla uma margem de resultado para os investimentos, que conduz a uma taxa de retorno adequada aos riscos de empreender. Com os preços atuais, se contarmos os custos, as margens, a estrutura tradicional de funding, com financiamento à produção no SFH (Sistema Financeiro da Habitação), encontraremos taxas de retorno desequilibradas para a atratividade do real estate, nos padrões reconhecidos no mercado brasileiro, que são inclusive superiores aos internacionais. Se os preços estão acima do preço justo, há um valor sem lastro que está sendo comprado pelo mercado nesta conjuntura.

3. O que faz bolha de mercado é: i. crédito irresponsável, ii. Investidor desinformado e iii. forte presença de capital especulativo.

3.1. No mercado brasileiro não se verifica a concessão de crédito irresponsável para aquisição de imóveis, especialmente residenciais. Os prazos de pagamento são compatíveis com a curva de vida dos imóveis, o que preserva o valor da garantia contra o saldo devedor. Os juros são aplicados em regime constante, não ocorrendo exemplos como os do falido sistema do mercado norte-americano, quando se iniciava um financiamento com juros abaixo da taxa referencial de mercado nas prestações, levando a diferença para o saldo devedor, para compensar no futuro, acreditando que a economia faria crescer a renda dos devedores em uma proporção equivalente à alavancagem do saldo devedor e a valorização continuada do imóvel preservaria a garantia do saldo devedor, nos casos de inadimplência. A relação [dívida/valor do imóvel ] é adequada, girando no intervalo 70-80%, tradicionalmente considerado seguro.

3.2. Tipifico investidor nesta Carta como aquele que aplica recursos em um imóvel na busca de renda regular no longo prazo, suportada por valor estabilizado do ativo. Especulador é o investidor que faz posição em um ativo na busca de ganho de curto prazo, resultado da valorização do ativo acima das taxas de atratividade para aplicações conservadoras.

Investidor desinformado há em grande proporção nesta conjuntura do mercado brasileiro, especialmente no segmento dos pequenos imóveis de escritórios, no qual continuam a pipocar lançamentos vendidos na sua totalidade, inclusive com apoio em desinformação, induzindo o investidor a julgar o preço de venda por meio da sua comparação com valores irreais de locação. A esse assunto, com o objetivo de informar, dedico maiores detalhes em tópico adiante.

3.3. No setor do real estate no Brasil não foram muitos os períodos, nestas últimas duas décadas de moeda confiável, nos quais se tenha identificado forte presença de recursos especulativos. Grandes capitais, em geral, tendem a especular em mercados de maior liquidez, como bolsa de valores ou commodities, deixando para especuladores mais ingênuos o mercado do real estate. É complexo auferir ganhos especulativos em real estate, uma vez que a baixa velocidade das transações pode comprometer o ponto de saída adequado do investimento especulativo, fazendo o investidor agressivo se prender ao ativo até a cauda inferior da curva de preços, provocando perda.

Nessa conjuntura vejo a presença de investidores tão desinformados, que se aventuram até à especulação, quando ouço um relato de investidor de que conseguiu fazer uma posição imobiliária, por especial deferência do empreendedor, comprando um apartamento do seu estoque particular, em um empreendimento destinado à classe média, em um bairro com esse perfil, pagando um preço completamente fora de parâmetro (não cito o preço por me parecer inadequado). Respondi: você conseguiu comprar e isto parece importante, mas pensou que o seu ciclo só será virtuoso se vender adiante por um preço além desse de compra, que já é muito alto, como você reconhece? Grandes especuladores do mercado de capitais costumam afirmar que quando a bolsa está aquecida e o valor médio das transações se estabiliza em patamar baixo (pequenos investidores se vestindo de especuladores) chegou a hora de sair, e acelerado. Está soando o alarme de bolha.

4. Informação para os investidores em pequenas salas de escritórios para renda

Admito que o seu propósito de investimento é aplicar recursos conservadores de poupança, cujas premissas são: i. obter renda regular (mensal) de longo prazo, ciente de que, como a compra é feita na planta, o investimento é a prazo (ciclo de 3 anos de obras), mas, evidentemente, a renda só se inicia depois da obra terminada e o preço pago e ii. fazer um investimento cujo valor não se deteriore ao longo do tempo, seja pela inflação, ou pela perda de competitividade do produto investido no seu mercado.

4.1. O seu investimento apresenta um risco implícito, derivado da sua condição física: ele é parte de um edifício, ou parte de um pavimento (mais comum), sobre o qual nenhum dos proprietários terá controle de qualidade ao longo do tempo, considerando os necessários investimentos em conservação, manutenção, adequação e atualização funcional, que façam o edifício (não a sua sala, porque ela é parte do todo) permanecer competitivo ao longo do tempo. É muito provável (veja os números adiante) que o payback do seu investimento aos preços ora vigentes aconteça entre 15 e 20 anos, se o edifício permanecer competitivo no mesmo fator de inserção de quando ficar pronto, o que exigirá investimento em revitalização dentro desse período.

4.2. Vejamos números e vamos partir da fantasia corrente. Como os aluguéis mensais na vizinhança do seu investimento estão no patamar de R$ 70 /m², você faz o investimento à taxa de atratividade de 10% ano, admitindo que o valor do imóvel crescerá no ciclo operacional a ponto de proteger o preço da variação inflacionária, de forma que você admite que esta taxa de atratividade é taxa de retorno, efetiva acima da inflação. A taxa de atratividade mensal é de 0,7974%, de modo que o preço que você arbitra justo pagar é aluguel mensal/0,7974% = 8.778 R$/m². Como o edifício está na planta, admita que você paga 12% de entrada, 68% em prestações mensais até as chaves e 20% nas chaves, com parcelas corrigidas pela variação do INCC-FGV.

4.3. Entrando o edifício em operação, com o preço já pago, admitamos uma configuração ideal de comportamento de mercado: i. os aluguéis cresceram exatamente no patamar do IGP-M/FGV no período e continuarão crescendo ordenadamente por 20 anos; ii. o imóvel nunca fica vazio, havendo custos somente relacionados com a taxa de corretagem a cada ciclo de 3 anos (2 aluguéis); iii. não há qualquer investimento no edifício em 20 anos e mesmo assim ele continua competitivo; iv. os aluguéis são corrigidos em ciclos de 12 meses; v. o imóvel é propriedade de uma pessoa física, logo o aluguel entra na renda mensal e recebe um impacto de 27,5% de imposto sobre a renda; vi. você administra o contrato de locação, logo não há honorários de serviço para este fim.

O gráfico 2 mostra a sua taxa de retorno em 20 anos, que, em vez dos 10% que era a sua expectativa, será de 5,76%, decomposta como ali está mostrado. Se você pensava nos 10% como renda bruta, antes do imposto de renda, então a sua comparação é 7,83% ano de taxa desejada contra 5,76% de taxa auferida em uma configuração ideal de comportamento, que não será alcançada.

Esta taxa de 5,76% é composta por uma parte de somente 2,29% que é proporcionada pelo fluxo dos aluguéis, sendo o saldo da taxa de retorno produzida pelo valor da propriedade ao final de 20 anos. A renda anual média do investimento em 20 anos de locação é de 6,68%, sendo evidentemente zero nos três anos de construção.

Isoladamente estes são efeitos do impacto de variáveis que ficaram “esquecidas” até aqui:

- se os investimentos em atualização funcional para manter o edifício competitivo equivalerem a uma reserva sobre os aluguéis de 3,0% de cada recebimento mensal, que é um fator razoável de proteção para edifícios de escritórios segundo os estudos do NRE-Poli, os 5,76% se transformarão em 5,52%;
- se a administração dos contratos de locação for entregue a uma imobiliária que cobra 5% da receita pelos seus serviços, os 5,52% se transformarão em 5,12%;
- se a entrega da obra atrasar 6 meses, mesmo você dilatando os pagamentos restantes do preço, os 5,12% se transformarão em 4,95%.

4.4. A taxa de retorno de 5,76% tem forte pressão do valor do imóvel ao final do ciclo de 20 anos de geração de renda de locações, na hipótese ideal de aluguel estável, sem vazios e sem investimentos em revitalização. Se considerarmos valorização, ou desvalorização do imóvel no final desse ciclo, os valores de taxa de retorno se comportam como está mostrado no gráfico 3.

Ali vemos que, ainda que a renda média anual permaneça inalterada, o valor do imóvel caindo, por exemplo em 50% do valor original do investimento nesse ciclo, faz a taxa de retorno mergulhar para 4,39%, enquanto uma valorização de 50% faz a taxa de retorno crescer para 6,80%. Esses valores e a imagem do gráfico 3 ilustram a vulnerabilidade do investimento nesses patamares de taxa de retorno, tendo em vista que o maior responsável pela formação da taxa é justamente uma variável aberta (o valor do imóvel ao final de 20 anos de locação), cuja arbitragem na data do investimento é frágil.

4.5. Os efeitos mais complexos para se avaliar e de impacto mais contundente na qualidade do investimento são resultantes de vazios e de quebras de valor de locação. Esta conjuntura é de aluguéis pressionados, porque os investimentos em edifícios de escritórios ficaram adormecidos por algum tempo e estão sendo retomados a partir de 2010. Somente verificaremos uma reversão desse quadro quando os edifícios em construção entrarem no mercado, a partir do segundo semestre de 2012.

Verificando flutuações recentes entre picos e vales de valor de aluguel de escritórios em São Paulo, para edifícios AAA, encontramos 64 R$/m²-mês em janeiro de 2002, 48 em junho de 2005 e 100 em junho de 2011. Ajustando esses valores para junho 2011 e admitindo que 100 seja pico de valor (o que é discutível, porque o mercado continua pressionado), a diferença entre vale e pico é de queda de 33,8%.

Usando um modelo que cria cenários estressados com vazios de 2 a 4 meses a cada ciclo de 3 anos de vida do contrato de locação e faz os aluguéis flutuarem com perda no intervalo [ 0 - 30% ], chegamos a uma amostra de resultados para a taxa de retorno, o componente da taxa de retorno função do fluxo da renda e a renda anual média do investimento. Os dados de taxa de retorno extraídos da amostra podem ser vistos no gráfico 4. Tratando as amostras de laboratório para os três indicadores, chegamos aos intervalos esperados de flutuação sob esse efeito estressado, ilustrados no gráfico 5.

O gráfico 4 mostra também a vulnerabilidade do investimento e, principalmente, a vulnerabilidade de se fazer análise e tomar decisão sob cenário de fantasia. O nosso cenário ideal de aluguel estável, sem vazios e sem investimentos em revitalização representa a fantasia simplificadora muitas vezes utilizada ou induzida a utilizar para a decisão de investimento. O conjunto dos cenários estressados, cujo reflexo na taxa de retorno está mostrado no gráfico 4 representa configurações mais perto da realidade comportamental desse tipo de investimento. Notar que, nesse intervalo de taxa de retorno [ 3,45% - 3,69% ], o fluxo da renda isoladamente não faz taxa de retorno. Isso significa que a totalidade do fluxo da renda em 20 anos nem mesmo devolve o investimento na compra do imóvel.

O gráfico 5 sintetiza os indicadores nos quais o investidor nesta conjuntura deveria apoiar sua decisão. Ou seja, naquela configuração de utilizar a taxa de atratividade (cap rate) de 10% ano para relacionar aluguel sendo praticado no mercado e valor justo de compra do imóvel, o que o investidor pode verdadeiramente esperar é uma renda anual no ciclo operacional de 20 anos, na média entre 4,09% e 4,35% do valor que investiu, depois de pagar os impostos vinculados à receita, para uma taxa de retorno no intervalo entre 3,45% e 3,69% ano, acima de inflação pelo IGP-M/FGV. Nessa conjunção operacional, é provável (90% de confiabilidade) que o total do fluxo da renda dentro de 20 anos de ciclo operacional nem mesmo devolva o investimento na compra do imóvel.

4.6. Para que o investidor tenha uma taxa de retorno de 10% ano dentro do ciclo operacional, depois dos impactos de vazios, quebra de valor do aluguel e investimentos em revitalização, admitindo que o valor do imóvel venha a ficar inalterado no ciclo operacional, sendo sempre ajustado conforme a variação do IGP-M/FGV, o preço de compra deveria ser de R$ 4.957 /m² de área privativa. Se o investidor aceita que os 10% sejam sua taxa de retorno bruta e que depois do imposto de renda a taxa líquida será de (10,00 – 2,17) = 7,83% (gráfico 2), mantidas as demais premissas, o preço de compra deveria ser de R$ 6.413 /m² de área privativa.

Lembro que o ponto de partida dessa análise foi o preço de compra de R$ 8.778 /m² de área privativa, que supostamente levaria à taxa de retorno de 10% ano, antes do imposto de renda.

Se usarmos o mesmo raciocínio primário da relação aluguel mensal e taxa de atratividade mensal, para o valor de 4.957, validaríamos a taxa de atratividade bruta de aluguel mensal/ preço de compra = 70/4.957 = 1,41% mês, equivalente a 18,3% ano, contra os 10% originais. Isso faz uma relação de múltiplo entre preço e aluguel, que é muito utilizado como referência paramétrica nesse mercado de preço de compra/ aluguel mensal = 4.957/70 = 70,8.

O mesmo raciocínio, usando a taxa de retorno de 7,83%, como válida para a taxa de retorno depois de impostos, levaria à taxa de atratividade bruta de aluguel mensal/ preço de compra = 70/6.413 = 1,09% mês, equivalente a 13,9% ano, com múltiplo de 91,6.

5. Alerta de Bolha.
A conjuntura de mercado, usando os dados de São Paulo como proxy para o que acontece com o mercado de real estate no Brasil, autoriza soar um alarme de bolha:

- os preços dos empreendimentos residenciais permanecem crescendo acima do índice de custos do setor, mesmo que esse índice não cubra terrenos e contas fora da construção. Os terrenos, entretanto, não estão sujeitos a agressivas disputas de compra, o que tem paralisado os preços em moeda nominal (BRL), favorecendo inclusive permutas e uma variação de preços de imóveis para baixo, relativamente à variação do INCC-FGV. Os descolamentos dos custos das obras contra o INCC-FGV, tendo em vista que o índice não consegue espelhar a realidade de cada obra e de alguns parâmetros de comportamento do setor, como as empreitadas de mão de obra, representam um efeito que já se entendia como precificados, tendo em vista as variações havidas no ciclo 2008-2010. Não há razão estrutural para o crescimento de preços nesses patamares;

- entretanto, preços não fazem bolha. Preços crescendo continuamente indicam que o mercado aceita, como valor, os preços propostos pelos empreendedores. A redução da velocidade de vendas indica que o poder de compra não cresce na proporção desses aumentos. Para suprir a demanda orgânica, os novos empreendimentos têm sido lançados com dimensões mais modestas para os mesmos segmentos de mercado, pretensamente munidos de atributos de qualidade que justificam os preços crescentes. A presença de demanda artificial, não mais reprimida como se explicava em 2010, mas agora especulativa (investidor mal informado) está evidenciada e ajuda a sustentar a curva de preços;

- nos empreendimentos comerciais, notadamente nos edifícios de escritórios compartilhados, diluídos em pequenas unidades, para atingir investidores de potencial médio de poupança não há nenhuma explicação estrutural para os preços que estão sendo praticados. A única explicação é a desinformação, cujo contraponto escrevi no item 4 desta Carta. Nesse segmento o alarme de bolha é estridente.

Os preços devem cair, até qual patamar e quando? Não há resposta cartesiana para o anticiclo de uma bolha:

- os preços dos imóveis residenciais só se estabilizarão quando não houver pressão de demanda artificial provocada por investidores desinformados, que ora estão fazendo posições especulativas. Na crise norte-americana recente, a velocidade de queda dos preços foi elevada, quando os especuladores se viram incapazes de sustentar o fluxo de pagamento das compras, das quais tinham liquidado não mais do que 10 a 20% e os tomadores de financiamentos não puderam sustentar os ajustes das prestações. No Brasil, os investidores mal informados (especuladores de ocasião) fazem posições de investimento com recursos de poupança, que lhes permite liquidar o total do preço e não há grande volume de financiamentos para compradores finais que venham a se tornar inadimplentes, tendo em vista que a economia não está em depressão, com redução de empregos e renda;

- os empreendedores compõem um conjunto com grande capacidade de investimento, que deve girar agressivamente para satisfazer os resultados prometidos aos seus acionistas. Isso significa que, ao menor sinal de que a velocidade de vendas caia recorrentemente e que não há mais poder de investimento especulativo presente no mercado para colocar os lançamentos, as empresas se voltarão exclusivamente para a demanda orgânica e os preços ficarão estáveis em moeda nominal. No patamar de inflação esperado para os próximos dois anos, manter os preços em BRL constantes significará baixá-los em termos reais, em um ciclo de um a dois anos, recuperando o patamar de 2010;

- o caso dos escritórios compartilhados é mais complexo. Se a economia brasileira se mantiver no nível atual de atividade, e, nesse momento, ainda que luzes de alerta já estejam acesas, os indicadores da economia ainda não induzem a concluir que desse nível cairá de forma expressiva, a posição dos estoques proporcionará a manutenção de valores elevados de locação, o que poderá continuar embaçando a visão de longo prazo do investidor desinformado, deixando uma abertura para que empresas especulem contra os investidores. Quando o estoque novo iniciar sua vida de mercado, a partir do segundo semestre de 2012, os aluguéis provavelmente atingirão níveis mais baixos, provocando uma sensível desvalorização desses imóveis. Isso só não acontecerá na hipótese de que a economia brasileira apresente um retumbante crescimento nesses próximos dois a três anos. Investidor não representa demanda efetiva; investidor desinformado demanda sem reconhecer o risco que corre. Especulador muito menos representa demanda.

No site do Núcleo de Real Estate da Poli estará postada a questão:
Tendo em vista os comentários da Carta NRE-Poli-25-11, você acredita que há um alarme de bolha disseminado no mercado de real estate brasileiro, nesta conjuntura?

¹ Prof. Dr. João da Rocha Lima Jr., Professor Titular de Real Estate da Poli-USP e coordenador do Núcleo de Real Estate da Poli-USP (NRE-Poli)





Operação de venda de carteira de crédito entre bancos terá que ser registrada pelo BC

28 07 2011

(Gazeta do Povo) – 28/07/11

Esse tipo de operação, denominada cessão de crédito, ocorre quando um banco repassa um financiamento tomado por pessoa física ou empresa para outra instituição financeira

O Conselho Monetário Nacional (CMN) estabeleceu que operações de venda de carteira de crédito feitas a partir do dia 22 de agosto têm que, obrigatoriamente, ser registradas em sistema autorizado pelo Banco Central (BC). Esse tipo de operação, denominada cessão de crédito, ocorre quando um banco repassa um financiamento tomado por pessoa física ou empresa para outra instituição financeira.

De acordo com o chefe do Departamento de Normas do BC, Sérgio Odilon dos Anjos, “esse tipo de operação ocorre com frequência entre bancos”. A obrigatoriedade do registro da operação de venda de carteira de crédito, segundo Odilon, “favorece a rigidez do sistema financeiro, dadas as características do mercado de cessão, além de [dar] conforto e transparência” à transação.

Inicialmente, a medida abrange apenas a venda de carteira de crédito de empréstimos consignados, ou seja, em que o desconto da dívida é feito em folha de pagamento, e a de financiamento de automóveis. Segundo Odilon, os dois tipos de operação respondem pelo maior volume de cessão de crédito entre os bancos. O objetivo final é que todas as operações de crédito e arrendamento mercantil sejam registradas no sistema, o que só ainda não ocorrerá porque é preciso “tempo e formatação de tecnologia de sistema operacional para ter todas as informações disponíveis na central”.

O chefe de Normas do BC não especificou o motivo que justificou a medida, mas a decisão remete aos problemas verificados no Banco Panamericano, em novembro do ano passado. A instituição bancária, que era de propriedade do empresário Silvio Santos, teve que receber aporte financeiro do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) após serem constatadas inconsistências contábeis nos balanços, devido à incompatibilidade verificada nas carteiras de crédito vendidas.





Material de construção para casas populares terá isenção de ICMS

14 07 2011

(Agência de Notícias do Paraná) – 13/07/11

O governo do Paraná concedeu isenção do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) para materiais destinados à construção de casas populares. A medida será operacionalizada por meio da Companhia Habitacional do Paraná (Cohapar), e se aplica a empresas contratadas ou conveniadas com a entidade.

“Casas populares são uma das prioridades do governador Beto Richa”, afirma o presidente da Cohapar, Mounir Chaowiche. Na opinião dele, a medida é mais um passo no sentido de fortalecer e aperfeiçoar a política habitacional do Paraná.

O secretário da Fazenda, Luiz Carlos Hauly, disse que as empresas só podem comprar material de construção sem ICMS apresentando declaração da Cohapar atestando que o uso será em moradias de interesse social. No documento também deve constar a quantidade de mercadoria a ser adquirida.

“Temos um plano de governo a cumprir e um dos instrumentos de que dispomos é o bom uso que a Secretaria da Fazenda pode fazer da política fiscal”, disse Hauly. “Barateando o custo das construções, a necessidade de recursos diminui e o número de casas populares pode ser ampliado.”





Economista enumera fatores que eliminam hipótese de bolha imobiliária no Brasil

10 06 2011

(PINIweb) – 03/06/11

O crescimento da renda das famílias, a rigorosidade na regulação do mercado financeiro e a alta taxa de juros seriam indicadores de que o mercado não corre risco

O economista José Roberto Mendonça de Barros, sócio da consultoria MB Associados, descartou a possibilidade de haver uma bolha no mercado imobiliário brasileiro. “Nossos preços aumentaram porque a demanda foi liberada”, afirmou ele durante sua apresentação no seminário “Ampliando o funding para o mercado imobiliário”, promovido pela Abecip (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança) em 2 de junho. Para Mendonça Barros, o crescimento da renda do brasileiro justifica a forte demanda, mas há uma série de fatores macroeconômicos que ajudam a eliminar o risco de um eventual crescimento artificial dos preços.

De acordo com estudo desenvolvido em 2010 pela MB Associados, a pedido da Abecip, “a economia brasileira hoje segue em trajetória sustentável, sem riscos macroeconômicos de curto prazo relevantes. (…) a perspectiva é de continuidade de crescimento da economia para os próximos anos, com taxa média de expansão do PIB entre 4,5% e 5% até 2015″. O estudo aponta que não há sinais de mudança política ou econômica que implique em maior liberalização financeira ou conduza a taxas de juros excessivamente baixas.

A forte regulação do sistema financeiro do país seria uma razão para confiar na solidez do cenário econômico. “Há uma grande quantidade de informações que o setor bancário precisa repassar para o BC [Banco Central], o que garante que situações de risco sistêmico não se formem com facilidade”. Além disso, o grau de alavancagem dos financiamentos imobiliários ainda é baixo, comparado a outros países, e o mercado secundário ainda é incipiente. O estudo cita o caso dos CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários), cujo estoque não passa de 12% total de crédito imobiliário, enquanto nos Estados Unidos a securitização correspondia à quase totalidade do financiamento.

O estudo ressalta ainda as altas taxas de juros do Brasil. As bolhas de preços de ativos, em geral, aparecem em situações onde a liberalização financeira leva a taxas reais de juros negativas ou muito baixas. Nesse sentido, “a Selic ainda é cara para o tomador e deveríamos ter vários anos seguidos de custo do dinheiro baixo para fornecer espaço para o crescimento de outros preços de ativos”, afirma o texto do estudo.

Por fim, a oferta de imóveis normalmente demora para alcançar a demanda, já que se trata de bens que levam tempo para serem construídos. Num momento em que a demanda brasileira por imóveis é maior que a oferta é natural que os preços sejam pressionados.

Veja a íntegra do estudo aqui.





BNDES reduz repasse para grandes empresas

26 01 2011

(Valor Econômico) – 25/01/11

Desembolso total somou R$ 168 bi em 2010, valor que deve ser reduzido para R$ 140 bi este ano

O orçamento só será fechado em fevereiro, mas no BNDES a expectativa para este ano é de redução do volume de desembolsos para R$ 140 bilhões, menos do que o valor recorde de R$ 168,4 bilhões de 2010. Apenas na operação de capitalização da Petrobras, o banco participou com R$ 24,7 bilhões. Descontado esse valor, as liberações fecharam o ano em R$ 143,7 bilhões, com alta de 5% ante os R$ 137, 4 bilhões liberados em 2009. Em 2010, a parcela dos desembolsos destinados às grandes empresas diminuiu quase 10 pontos percentuais em relação a 2009, quando essas companhias absorveram 82,5% do total liberado pela instituição. Na outra ponta, o peso das micro e pequenas empresas passou de 8,5% para 14% do total.

A maior parcela dos recursos para os próximos 12 meses deverá vir do retorno de empréstimos, que podem alcançar valores expressivos, na faixa de R$ 90 bilhões a R$ 100 bilhões devido ao pagamento dos financiamentos de capital de giro feito pelo banco para empresas durante a crise econômica iniciada no fim de 2008.

Não está descartada a entrada de recursos do Tesouro no caixa da instituição de fomento este ano, mas ainda não há uma definição. Se ocorrer essa transferência, ela será bem menor que no ano passado. Em 2011, por exemplo, não há perspectiva de operação tão expressivas e concentradas na Petrobras – como os R$ 25 bilhões liberados tanto em 2009 como em 2010. O BNDES não vai deixar de apoiar a Petrobras, mas não devem se repetir operações da magnitude das passadas.

Outra medida anticíclica adotada durante a crise, o Programa de Sustentação do Investimento (PSI), com taxas fixas de financiamento para bens de capital (5,5%), abaixo da TJLP de 6% ao ano e bem inferior as taxas do mercado, criado para financiar bens de capital, está programado para terminar em março. Mas poderá ser prorrogado, caso o governo assim o decidir, porém, com custo fiscal residual para o Tesouro. A carteira de pedidos de empréstimos do PSI fechou 2010 em R$ 120 bilhões e as liberações no período chegaram a R$ 87 bilhões.

Os números do desempenho do banco divulgados ontem informam que o total de projetos de investimentos aprovados fechou 2010 em R$ 200,7 bilhões, sinalizando que a demanda por recursos da instituição continua superaquecida. As consultas alcançaram R$ 255,9 bilhões, com alta de 14% ante 2009. Esses indicadores são determinantes do comportamento futuro dos desembolsos do banco.

A ideia para reforçar o caixa do BNDES em 2011 e garantir uma oferta de crédito firme não vai se limitar ao retorno dos empréstimos. A instituição de fomento tem planos de fazer lançamentos mais fortes de debêntures de sua titularidade no mercado doméstico para prover mais recursos, principalmente à BNDESPar, para operar no mercado de capitais, adquirindo participações acionárias em empresas e em operações de abertura de capital (IPOs).

No mercado internacional, a intenção do BNDES é fazer inicialmente uma captação via lançamento de bônus, na faixa tradicional de US$ 1 bilhão, para avaliar a precificação de seus papéis lá fora. A área internacional do banco, que tem um escritório em Londres, está se preparando para crescer, mas ainda costura um projeto estratégico de maior alcance.

A infraestrutura vai continuar sendo prioridade do BNDES, incluindo obras do PAC e da Copa de 2014. O desenvolvimento regional e a inovação também serão focos de 2011. No âmbito das micro e pequenas empresas, a meta é continuar ampliando o alcance do Cartão BNDES. No momento, atuam nas operações indiretas do cartão os bancos Bradesco, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e alguns bancos menores. O Itaú está em fase de teste para operar o cartão, cujas operações já estão alcançando cerca de R$ 500 milhões mensais. No ano passado, o Cartão BNDES foi um dos maiores destaques na área de operações indiretas, com 320 mil operações, 84% a mais que em 2009, tendo desembolsado R$ 4,3 bilhões, ou 74% acima do liberado em 2009, segundo os dados do banco.

Apesar dos grandes grupos permanecerem à frente no desembolso por apresentarem os maiores projetos, as liberações para pequenas e médias empresas via operações com agentes financeiros vem avançando. Em 2010, os empréstimos para micro, pequenas e médias somaram US$ 45,7 bilhões, quase dobraram de tamanho ante o ano anterior, em boa parte devido ao PSI. O BNDES vai estimular mais a participação dos bancos privados nessas operações de crédito, na quais eles respondem pelo risco do negócio. Os agentes financeiros repassam hoje cerca de 70% dos empréstimos de médio e longo prazo da instituição.





Olhos de lince nos custos de 2014 e 2016

26 01 2011

(Valor Econômico – Coluna de Delfim Netto) – 25/01/11

Seguramente, a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016 serão eventos marcantes do próximo septênio. Haverá necessidade de imensos investimentos, que competirão com recursos públicos escassos, que teriam usos alternativos e retornos muito altos calculados objetivamente, como são, por exemplo, os projetos de portos e ferrovias, de rodovias, de aeroportos, das usinas de energia elétrica, de saneamento, de controle das catástrofes climáticas etc.

Eles geram emprego não apenas na sua construção: aumentam, depois de prontos, a produtividade de todo o sistema econômico, acelerando o desenvolvimento e beneficiando toda a sociedade.

Por outro lado, as taxas de retorno dos investimentos da Copa-2014 e da Olimpíada-2016 são difíceis de estimar objetivamente. Depois dos empregos gerados durante a sua realização, a utilização – a não ser quando cuidadosamente pensada para seu uso não festivo – terá efeito relativamente pequeno sobre o desenvolvimento e o emprego. Parte dos seus benefícios refere-se a fenômenos subjetivos, como a “melhoria da imagem” do país.

O Brasil teve uma experiência recente. A desastrosa herança dos Jogos Pan-Americanos foi a negação mais absoluta do uso correto dos recursos públicos extraídos de todos os brasileiros. Houve talvez alguma vantagem “esportiva”. Nada indica, entretanto, que ela não poderia ter sido alcançada sem o desastre financeiro, sem os trágicos indícios de superfaturamento e sem o triste legado dos “elefantes brancos”, que nem a mais furiosa imaginação dos administradores públicos consegue aproveitar.

É difícil estimar a taxa de retorno dos investimentos
Nada mais importante para o governo, portanto, do que atentar para a honestidade e franqueza do conselho do presidente da Comissão Olímpica Internacional (COI), Jacques Rogge, na sua visita ao Brasil. Ele chamou a atenção para a necessidade de realismo na dimensão das estruturas construídas para tais eventos: evitar a megalomania, atentar para o controle rigoroso da execução dos orçamentos e pensar – com antecipação e máximo cuidado – qual o uso que lhes será dado posteriormente em benefício do desenvolvimento social e econômico. Em uma palavra, tirar o maior efeito “imagem” possível de tais eventos, mas não deixar como herança “elefantes brancos”.

É um fato conhecido que os economistas (porque são treinados em pensar no melhor uso alternativo para os sempre escassos recursos de que se dispõe) não têm muita simpatia com eventos “pirotécnicos” para a compra da “imagem” dos países. E têm alguma razão. Fala-se que apenas na cerimônia de instalação da Olimpíada de Pequim foram gastos (em fogos e outras piruetas) mais de US$ 100 milhões, enquanto 100 milhões de chineses ainda viviam com menos de um US$ 1 por dia.

No Rio de Janeiro (Rose, A.K e Spiegel, M.M., “The Olympic Trade Effect, Finance & Development”), estima-se que (sem superfaturamento!) serão gastos US$ 15 bilhões. Mais ou menos US$ 80 de impostos para cada brasileiro, inclusive os que estão sofrendo a tragédia da região serrana…

Há, obviamente, alguns efeitos positivos desses projetos: a melhoria da infraestrutura que desafoga o transporte urbano, os gastos dos turistas que, em geral, permanecem depois dos jogos, uma publicidade internacional capaz de atrair mais turistas e, eventualmente, alguns investidores, um melhor conhecimento universal da geografia, da história e da cultura do país, um aumento da auto-estima nacional, um aumento da solidariedade da comunidade etc. O problema é evitar o que até aqui a experiência mundial mostra que é difícil: libertar-se da herança de elefantes brancos!

De 1976 a 2016, foram ou serão realizadas 22 Olimpíadas (11 de verão e 11 de inverno). A primeira, realizada em Montreal, no Canadá, orçada em US$ 124 milhões, deixou uma dívida de US$ 2,8 bilhões (mais ou menos US$ 10 bilhões de hoje) e levou 30 anos para ser paga! A única que produziu um quase equilíbrio foi a de Los Angeles (1984), aceita pela COI porque a tragédia de Montreal assustara outros candidatos e ela pode impor suas próprias condições. Além do mais, houve colaboração do setor privado.

A verdade é que os gastos de nenhuma Olimpíada ficaram dentro do orçamento. A de Atenas, Grécia (2004), foi estimada em US$ 1,6 bilhão e terminou em US$ 16 bilhões! Segundo as más línguas, foi uma das razões da desintegração das finanças do país! A última, a de Pequim (2008) começou com um projeto de US$ 1,6 bilhão e terminou, gloriosamente, com um gasto de US$ 40 bilhões, incluindo (como em todos os outros casos), os custos da infraestrutura.

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.








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