Habitação ganha impulso com pacote de estímulo a financiamento de longo prazo

17 12 2010

(Folha Online) – 17/12/10

O financiamento habitacional pode ganhar novo impulso com o pacote de incentivo ao crédito de longo prazo. Uma das medidas permitirá aos bancos fazer mais empréstimos utilizando os recursos da poupança.

Atualmente, as instituições financeiras são obrigados a direcionar 65% dos depósitos da caderneta de poupança para financiar a casa própria. Quando não conseguem atingir esse patamar, a parte que falta é recolhida como depósito compulsório no Banco Central.

Se o banco “vende” parte desses empréstimos para reciclar os recursos, corre o risco de ser obrigado a recolher mais dinheiro ao BC.

A novidade é que as instituições terão agora 36 meses para “diluir” o impacto de créditos vendidos antes de ficarem desenquadradas.

“É um estímulo para o banco que não fazia isso [vender parte dos empréstimos] entrar nesse mercado e criar uma alternativa estratégica de captação [de dinheiro]“, afirma Fernando Brasileiro, presidente da Cibrasec, maior securitizadora do país.

Para Dyogo de Oliveira, secretário-adjunto de Política Econômica do Ministério da Fazenda, a medida fortalece esse mercado, mas ainda há dois grandes entraves.

O primeiro é o desinteresse dos bancos em se desfazer de empréstimos rentáveis. O outro é convencer os aplicadores a optar por esse título, mesmo tendo papéis de longo prazo com retorno maior no mercado.

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Impacto no crédito imobiliário

Os empréstimos vendidos só podem ser considerados por três anos nas contas para efeito de enquadramento nas regras e, ainda assim, com redução de 1/36 a cada mês.

Segundo Oliveira, o período e a gradação para a diluição foram definidos para elevar o tamanho dos lotes.

Na avaliação de João Crestana, presidente do Secovi-SP (sindicato da habitação), o pacote é muito oportuno ao estimular os bancos a buscar alternativas de recursos para financiar a habitação, além de FGTS e poupança.

Líder em financiamento habitacional no país, a Caixa Econômica Federal havia anunciado que faria ainda neste ano a primeira operação de venda de empréstimos para testar o apetite do mercado de capitais por esses papéis. Essa emissão inicial era estimada em R$ 500 milhões, de acordo com Jorge Hereda, vice-presidente de Governo do banco federal.

Procurados, Caixa e Abecip (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança) não se pronunciaram ontem.

Os números comprovam a expansão acelerada dos empréstimos com recursos da poupança. Entre janeiro e outubro, os financiamentos somaram R$ 44,9 bilhões, 69% a mais do que no mesmo período de 2009 e mais do que o dobro do valor contabilizado em todo o ano de 2007.





Governo anuncia reforma em crédito de longo prazo

16 12 2010

(Valor Econômico) – 16/12/10

Medidas de incentivo tributário são tentativa de tornar viável, nos próximos quatro anos, financiamento de R$ 350 bilhões em investimentos em infraestrutura com recursos oriundos do sistema financeiro privado

O governo anunciou ontem um conjunto de medidas de estímulo ao crédito de longo prazo para viabilizar, nos próximos quatro anos, o financiamento de até R$ 350 bilhões em investimentos com recursos oriundos do setor privado, segundo estimativa do presidente do BNDES, Luciano Coutinho.

Nessa conta, o governo considerou que entre 2011 e 2014 o investimento terá que subir de dos atuais 19% do PIB para 23% do PIB. “Esses investimentos serão financiados por meio de mecanismos privados e não pela expansão do BNDES. Dos investimentos adicionais de até R$ 650 bilhões, cerca de R$ 300 bilhões deverão vir do lucro das empresas e os restantes R$ 350 bilhões terão que viabilizados pelo mercado de capitais”, explicou.

Coutinho vinculou o sucesso das medidas divulgadas ontem à expectativa de redução da taxa Selic e ao projeto de política macroeconômica do governo que assumirá em janeiro. “À medida que a expectativa for de redução dos juros, o mercado terá que procurar uma alternativa [de aplicação] aos papéis públicos.”

O secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, um dos formuladores do pacote, avaliou que os efeitos das medidas começarão a ser sentidos no primeiro semestre de 2011.

O pacote é dividido em dois grupos de medidas. Em uma vertente, há incentivos tributários para a emissão primária e negociação de títulos de longo prazo, que serão ser desonerados do Imposto de Renda e da CSLL. E, em outra, há um conjunto de medidas coordenadas pelo BNDES, que assume a posição de agente indutor das emissões e das negociações dos papéis no mercado secundário.

Para viabilizar os projetos de infraestrutura, o governo baixou para zero a alíquota do Imposto de Renda, que variava de 15% a 22%, para o investidor pessoa física que adquirir debêntures vinculadas a projetos de infraestrutura e para os investidores estrangeiros. No segmento das pessoas jurídicas, o recolhimento do IR e da CSLL nas aquisições desses papéis passará de 34% para 15%.

O benefício só será concedido para as debêntures com características pré-definidas. Elas têm que ser emitidas por sociedades de propósito específico, com “duration” de 4 anos (prazo médio de vencimento do título conforme o pagamento dos juros e do principal), que equivale a quase 6 anos de prazo total de vencimento. Os projetos de infraestrutura também terão que ser submetidos e aprovados pelo governo, por meio dos ministérios setoriais. Não há cláusula de recompra nos dois primeiros anos do papel e o indexador só poderá ser índice de preços ou uma taxa fixa.

Cálculos do avaliação do Ministério da Fazenda indicam que com a desoneração as emissões de debêntures para projetos de infraestrutura poderão atingir cerca de R$ 15 bilhões no ano que vem e até R$ 70 bilhões em quatro anos. A renúncia fiscal é estimada em R$ 40 milhões ao ano.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, explicou que as desonerações visam estimular a emissão de debêntures a grandes projetos como a hidrelétrica de Belo Monte e o Trem de Alta Velocidade. “O Brasil sempre teve carência de investimentos de longo prazo, no passado isso não fazia muita diferença, porque havia o BNDES para suprir projetos com prazos entre cinco e oito anos. Porém, o ciclo de desenvolvimento se ampliou e agora temos grandes projetos com prazos que saltaram para 20 a 30 anos”, comentou.

Outra medida abrange os títulos privados de longo prazo emitidos por empresas não financeiras e adquiridos por investidores estrangeiros. Nesse caso, a alíquota do IR cai de 15% para zero.

Assim, o governo dá o mesmo tratamento tributário ao investidor estrangeiro tanto em títulos públicos quanto em papéis privados. A renúncia estimada nessa medida é de R$ 60 milhões.

Os bancos foram autorizados a usar até 3 pontos percentuais do recolhimento compulsório sobre depósitos a prazo para compor um “Fundo de Liquidez para Títulos Privados”. Esse fundo será criado para dar liquidez a esses papéis no mercado secundário e o percentual de aporte em compulsório equivalerá a R$ 2,2 bilhões, mais R$ 200 milhões que o BNDES poderá colocar também nesse fundo.

“Esse fundo irá comprar e vender debêntures”, explicou Luciano Coutinho. Ele informou que o fundo será usado para financiar entre 5%, 10% e 15% a emissão primária de debêntures e demais títulos de longo prazo.

O governo eliminou a cobrança do IOF de até 30 dias sobre a compra e venda de títulos privados também para dar liquidez ao mercado.

Para assegurar novas formas de financiamento do BNDES que não o Tesouro Nacional, o Conselho Monetário Nacional (CMN) autorizará hoje o banco a emitir letras financeiras (LF). A autorização não será ilimitada. Hoje o CMN definirá um limite de emissão proporcional ao patrimônio de referência do BNDES, estimado em R$ 40 bilhões.

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) vai regulamentar a oferta pública das Letras Financeiras, até agora só emitidas por oferta restrita. De acordo com o Ministério da Fazenda, desde o início deste ano foram emitidos R$ 20 bilhões nesses títulos.

Uma medida direcionada à redução da inadimplência vai facilitar a recuperação de créditos bancários. Inicialmente ela será aplicada nas renegociações de dividas rurais, sobretudo em máquinas e implementos, e nos empréstimos a pessoas físicas com saldo devedor de até R$ 30 mil. Para isso, o Ministério da Fazenda permitirá que as instituições financeiras façam o diferimento do IRPJ e da CSLL nessas renegociações.

Também foi acertada a desoneração do IOF sobre operações de câmbio. O tributo passa de 6% para 2% na entrada de recursos para aplicações em fundos de investimento em participações (FIPs) e fundos mútuos de investimento em empresas emergentes (FMIEE), ambos operações de “private equity”.

Para dar impulso à securitização de crédito imobiliário, o governo autorizou os agentes financeiros a contabilizar esses créditos no enquadramento do direcionamento de 65% dos depósitos de poupança. Esse crédito poderá ser contabilizado em até 36 meses.

Os atos legais para a implementação dessas medidas ainda serão divulgados. As ligadas a desoneração da alíquota do imposto de renda e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) dependem de medida provisória do governo. A redução do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) será feita por decreto. As alterações ligadas ao setor imobiliário e à emissão de letras financeiras serão tratadas em voto do Banco Central na reunião de hoje do Conselho Monetário Nacional (CMN). Sobre a criação do novo fundo de liquidez, o BC deve emitir uma circular tratando do tema.





Pacote incentiva emissão de até R$ 70 bi por ano

16 12 2010

(Valor Econômico) – 16/12/10

O governo anunciou ontem um pacote com mais de uma dezena de medidas para incentivar o financiamento de longo prazo na economia brasileira. Em uma corrida contra o tempo, os benefícios tributários concedidos às debêntures voltadas a projetos de infraestrutura e aos títulos privados emitidos por empresas não financeiras e adquiridos por estrangeiros deverão ser parcela importante do financiamento, assumindo parte do papel exercido hoje pelo BNDES.

A expectativa é que as emissões primárias de papéis cheguem a R$ 60 bilhões ou R$ 70 bilhões por ano nos próximos 3 a 4 anos. O objetivo é elevar a taxa de investimentos, nesse mesmo período, dos atuais 19% do Produto Interno Bruto (PIB) para 23% do PIB.

“Esse é um projeto de desenvolvimento financeiro do Brasil”, sintetizou o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, durante o anúncio das medidas, feito pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega. “Em 3 ou 4 anos poderemos ter um mercado de debêntures pujante como o mercado de ações”, disse.

Até 3 pontos percentuais do recolhimento compulsório sobre depósitos a prazo poderão ser destinados pelos bancos à criação de um fundo de liquidez para títulos privados. Esse percentual representa R$ 2,2 bilhões. Com isso, explicou Mantega, pretende-se incentivar o surgimento de um mercado secundário relevante para as debêntures. Esse fundo poderá contar, também, com recursos de até R$ 200 milhões do BNDES.

Entre as principais medidas divulgadas estão a redução a zero da alíquota do Imposto de Renda sobre os rendimentos de debêntures voltadas a projetos de infraestrutura adquiridas por pessoas físicas e investidores estrangeiros. No caso das pessoas jurídicas, a alíquota do IR e da CSLL cai de 34% para 15%. Essas debêntures terão de ser emitidas por Sociedades de Propósito Específico (SPE) com prazo médio de no mínimo 4 anos e vencimento em até 6 anos, entre outras exigências. Títulos privados em geral, adquiridos por investidores estrangeiros, também terão alíquota zero de IR, tal como é hoje para os papéis públicos.

Segundo o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, ao governo interessa atrair moeda estrangeira para investimentos de longo prazo, de mínimo de 6 anos, e isso não conflita com a apreciação cambial. Barbosa também destacou entre o leque de medidas aquela que busca reduzir a inadimplência do crédito rural e do crédito de pequeno valor das pessoas físicas com uma mudança no tratamento tributário de dívidas renegociadas.





Temendo bolha, BC joga água fria na economia

4 12 2010

(Gazeta do Povo) – 04/12/10

Banco Central aumenta quantia que os bancos devem manter depositada na instituição, tirando dinheiro de circulação e freando oferta de empréstimos

Demorou um pouco, mas o Banco Central finalmente reconheceu o risco de uma bolha de crédito no Brasil. Por isso, medidas anunciadas ontem pela instituição devem colocar um freio em financiamentos a perder de vista, como os que vinham sendo oferecidos especialmente para a venda de automóveis. Para diminuir a liquidez da economia brasileira, a intervenção reduzirá o dinheiro disponível para empréstimo no mercado, onerando os consumidores.

O adicional de compulsório sobre depósitos à vista e a prazo, quantia que os bancos são obrigados a manter no BC, será elevado de 8% para 12%. O compulsório efetivo sobre transações a prazo – que os bancos devem manter em carteira, mas sem liberdade para emprestar – aumentará de 15% para 20%. O BC estima que as medidas retirem R$ 61 bilhões de circulação.
Veículos

Financiamento sem entrada custará mais a bancos
O consumidor terá, a partir de agora, mais dificuldade para comprar veículos sem entrada. Pelas normas anunciadas pelo Banco Central, haverá restrições de recursos para financiamentos com prazo superior a 24 meses. Pela nova regra, para não cair na restrição, os bancos deverão exigir uma entrada de pelo menos 20% nos financiamentos entre 24 e 36 meses para carros novos ou usados.

Nos parcelamentos entre 36 e 48 meses, a entrada sobe para 30%. Entre 48 e 60 meses, para 40%. Todas as vendas de veículos com prazo superior a 60 meses terão restrição, independentemente da entrada.

Para restringir essas operações, o BC vai exigir que os bancos façam uma reserva de capital 50% maior para garantir esses empréstimos. Hoje, para cada R$ 100 emprestados, o banco precisa ter uma reserva de R$ 11. Nos financiamentos que o BC classificou como de “prazos muito longos ou garantias insuficientes”, o valor da reserva sobe para R$ 16,50. Isso significa que, se o banco fizer essas operações, terá menos recursos para emprestar.

Regra similar foi adotada para os empréstimos consignados acima de 36 meses e para o crédito pessoal ou aquisição de bens acima de 24 meses. Em todos os casos, os bancos poderão oferecer as operações se elevarem a reserva, mas isso encarece e desestimula o financiamento. A medida vale somente para novos empréstimos, concedidos a partir da próxima segunda-feira.

Como o BC quer restringir apenas o crédito ao consumo, não haverá restrição de prazo para crédito imobiliário, rural ou aquisição de veículos de carga com capacidade de transporte acima de duas toneladas, como caminhões. O crédito a pessoas jurídicas também não foi afetado.

A ação da autoridade monetária tem efeito direto no consumo e procura evitar os efeitos colaterais de uma economia muito aquecida. Com menos dinheiro à disposição dos bancos, as taxas de juros pagas pelas empresas e pessoas físicas devem ficar maiores. O encarecimento do crédito, por sua vez, reduz a demanda por financiamentos e empréstimos. Uma simulação feita pelo economista-chefe do Bradesco, Octavios de Barros, prevê que a medida do BC deve elevar os juros em um ponto porcentual.

Outra preocupação do Banco Central é conter a pressão inflacionária, que vem crescendo nos últimos meses. A inflação deve fechar o ano num patamar próximo ao máximo da meta estabelecida pelo governo. O centro da meta é um aumento geral nos preços de 4,5%, com oscilação de dois pontos porcentuais para cima ou para baixo, e a previsão do mercado é de que o índice feche 2010 em 5,72%.

“As medidas demonstram que já há uma preocupação do Banco Central com o retorno da inflação. Com a alta nos juros, os consumidores vão gastar menos, o que vai reduzir a demanda. Isso tem impacto direto no PIB [Produto Interno Bruto, soma de todas as riquezas produzidas no país]. A inflação ocorre por uma aceleração muito forte da economia, e essas medidas buscam frear um pouco esse crescimento”, afirma o economista Cláudio Considera, professor de Macroeconomia da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Selic
O instrumento utilizado pelo BC é uma alternativa a um aumento da taxa Selic, mas com a vantagem de não aumentar a atratividade do país para o capital estrangeiro. A alta na taxa básica de juros significa maior retorno para os investidores, que vêm encontrando nas economias emergentes, inclusive o Brasil, uma opção vantajosa a aplicações de dinheiro nos países ricos. Esse fluxo de dólares em direção ao país valoriza a taxa de câmbio e acaba gerando críticas dos exportadores, que alegam perda de competitividade de seus produtos no mercado externo.

Para analistas, a medida anunciada ontem praticamente elimina a possibilidade de uma alta na taxa Selic, hoje em 10,75% ao ano, na semana que vem, quando o Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne para discutir o assunto. “Estas medidas ampliam as alternativas de caminhos para a condução da política monetária e poderão permitir que a Selic se mantenha no patamar atual, tanto na semana que vem como nos próximos meses, e que venha até a ser reduzida nos próximos anos”, diz o presidente da Associação Nacio­nal dos Executivos de Finanças, Administração e Conta­bilidade (Anefac), Andrew Frank Storfer.

O presidente do BC, Henrique Meirelles, afirmou que o aumento do compulsório é apenas um recuo nas políticas de incentivo criadas pelo governo durante a crise financeira mundial. Em 2008, no auge da crise, o BC reduziu essas mesmas alíquotas que aumentou ontem, liberando cerca de R$ 100 bilhões para os bancos. Uma primeira retirada nesses incentivos já havia sido feita em março e abril deste ano, quando a autoridade monetária “recuperou” cerca de R$ 70 bilhões. Somadas as últimas duas medidas, o recolhimento compulsório fica R$ 10 bilhões acima do nível pré-crise, o que de­­monstra que de fato há uma preocupação do BC com o surgimento de uma bolha de crédito.

Aperto
Objetivo das medidas anunciadas ontem é frear o aumento do crédito ao consumo, um dos principais responsáveis pelo ritmo de crescimento da economia e da inflação

Compulsório - O BC obriga os bancos a depositar em uma conta (no próprio BC) parte dos recursos captados dos seus clientes nos depósitos à vista, a prazo ou poupança. O chamado “depósito compulsório’’ é um instrumentos do BC para controlar a quantidade de dinheiro que circula. Quando aumenta o compulsório, o BC “tira” dos bancos dinheiro que seria usado para emprestar aos clientes.

É o que o BC anunciou ontem: bancos terão de deixar depositados no BC R$ 61 bilhões a mais.

Garantia de prazos – O BC obriga os bancos a reservar um porcentual do seu patrimônio como garantia de empréstimo. Agora, ele irá pedir um porcentual maior para empréstimos mais longos (superiores a 24 meses no crédito ao consumo e 36 meses no crédito consignado). Como resultado, além de reduzir o dinheiro disponível para empréstimos, o BC encarece os financiamentos mais longos, estimulando prazos menores.

Operações que serão desestimuladas – No financiamento de veículos (crédito direto e leasing) de 24 a 36 meses, o BC recomenda que o banco exija entrada acima de 20%; se o empréstimo for de 36 a 48 meses, a entrada mínima recomendada é de 30%; de 48 a 60 meses, a entrada não pode ficar abaixo de 40%. Se o financiamento for de 60 meses ou mais, independentemente da entrada, o banco terá de fazer uma reserva maior para cobrir eventual calote. Também será desestimulado o consignado acima de 36 meses e o empréstimo direto ou para aquisição de bens acima de 24 meses. Ficam de fora o crédito rural, habitacional, aquisição de caminhões e ônibus e empréstimos com recursos de fundos ou programas do governo. O crédito para empresas também não será atingido.

Próximos passos – O BC já indicou que deve aumentar a taxa básica de juros a partir de dezembro ou janeiro, e membros da nova equipe econômica prometeram cortes de gastos em 2011 para ajudar a desaquecer a economia.

O que ainda pode ser feito – Aumento de impostos (especialmente IOF) e novas elevações dos compulsórios.

Quem tomou a decisão – A diretoria do Banco Central, o que inclui o atual diretor e futuro presidente da instituição, Alexandre Tombini; e o Conselho Monetário Nacional, presidido pelo ministro Guido Mantega, que continuará no comando da Fazenda.

Veículos

Financiamento sem entrada custará mais a bancos

O consumidor terá, a partir de agora, mais dificuldade para comprar veículos sem entrada. Pelas normas anunciadas pelo Banco Central, haverá restrições de recursos para financiamentos com prazo superior a 24 meses. Pela nova regra, para não cair na restrição, os bancos deverão exigir uma entrada de pelo menos 20% nos financiamentos entre 24 e 36 meses para carros novos ou usados.

Nos parcelamentos entre 36 e 48 meses, a entrada sobe para 30%. Entre 48 e 60 meses, para 40%. Todas as vendas de veículos com prazo superior a 60 meses terão restrição, independentemente da entrada.

Para restringir essas operações, o BC vai exigir que os bancos façam uma reserva de capital 50% maior para garantir esses empréstimos. Hoje, para cada R$ 100 emprestados, o banco precisa ter uma reserva de R$ 11. Nos financiamentos que o BC classificou como de “prazos muito longos ou garantias insuficientes”, o valor da reserva sobe para R$ 16,50. Isso significa que, se o banco fizer essas operações, terá menos recursos para emprestar.

Regra similar foi adotada para os empréstimos consignados acima de 36 meses e para o crédito pessoal ou aquisição de bens acima de 24 meses. Em todos os casos, os bancos poderão oferecer as operações se elevarem a reserva, mas isso encarece e desestimula o financiamento. A medida vale somente para novos empréstimos, concedidos a partir da próxima segunda-feira.

Como o BC quer restringir apenas o crédito ao consumo, não haverá restrição de prazo para crédito imobiliário, rural ou aquisição de veículos de carga com capacidade de transporte acima de duas toneladas, como caminhões. O crédito a pessoas jurídicas também não foi afetado.





Previ investirá mais em imóveis e varejo

18 11 2010

(Valor Econômico) – 17/11/10

Fundo de pensão busca oportunidades de negócios em lojas voltadas para o consumo crescente

Ricardo Flores que, em junho, passou a comandar a Previ (Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil), o maior fundo de pensão do país, assume no dia 25 a presidência do conselho de administração da Vale. Entra em momento delicado diante dos rumores de que o presidente da companhia, Roger Agnelli, poderia deixar o cargo.

Nesta entrevista ao Valor, Flores enfatiza as conquistas da empresa na administração Agnelli, mas é cauteloso, embora sutilmente crítico, quanto ao envolvimento da maior empresa privada no país em questões político-partidárias. Para ele, “essa discussão não é uma pauta da Vale”, diz, embora reconheça que o período de eleições favoreça esse tipo de clima. “O habitat da Vale é o mundo corporativo”, afirma.

Prudente, Flores diz que vai “pesquisar e identificar” se há desvios no processo de gestão da companhia. “Se há desvios, esses precisam ser corrigidos”, frisou.

Com patrimônio de R$ 141 bilhões consolidado até setembro, o fundo de pensão do BB na gestão de Flores terá participação forte em investimentos em infraestrutura, imóveis comerciais e no segmento das grandes redes de varejo. A Previ pretende buscar oportunidades de negócios em lojas voltadas para o consumo crescente a partir do aumento da renda da população brasileira. A proposta é a Previ tornar-se sócia de uma empresa bem estruturada que atue no setor de varejo.

Pernambucano de Recife, Flores, de temperamento calmo e elegante, afirma ter orgulho de presidir a Previ. Aos 46 anos, ele considera que este é o maior desafio profissional da sua carreira. Ele começou como menor aprendiz no BB, aos 14 anos. Na primeira oportunidade, fez concurso para o BB, indo trabalhar em Brasília, onde ficou por 32 anos e fez carreira. No banco, exerceu os cargos de diretor de reestruturação de ativos, diretor de seguros, previdência e capitalização e foi vice-presidente de governo. Na época da crise econômica foi deslocado para ser vice-presidente de crédito do banco, quando foi designado para comandar o maior fundo de pensão do país por Altemir Bendini, presidente do BB. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Valor: O sr. será indicado dia 25 como presidente do conselho da Vale em substituição a Sérgio Rosa.
Ricardo Flores: Serei aprovado na reunião do conselho e assumo o cargo no próprio dia 25. É uma substituição natural, uma vez que a Previ é um dos principais acionistas da Vale. Sérgio Rosa cumpriu um papel importante e como foi designado para presidir a BrasilPrev, não haveria razão também para não se fazer esse ajuste.

Valor: Como se sente ao assumir o conselho de uma empresa cujo presidente (Roger Agnelli) é alvo de rumores por ter criado uma “saia justa” com o PT?
Flores: Estarei assumindo focado em exercer a função de presidente do conselho de administração de uma empresa relevante mundialmente, absolutamente estratégica e relevante para os sócios. A Vale é o maior ativo da Previ que, individualmente, é a maior sócia. Vejo essa função com muita responsabilidade. Quero dar uma contribuição para que a Vale continue trilhando o caminho do sucesso, de rentabilidade, de lucratividade, de diversificação.

Valor: A Previ está satisfeita com a gestão atual da Vale? Os rumores sobre a saída do presidente têm fundamento?
Flores: Eu acho que o que sintetiza melhor a resposta para essa pergunta é que temos convicção de que tudo pode melhorar, inclusive a gestão da Vale. Quero dizer o seguinte: os sócios estão satisfeitos com seu ativo Vale, tendo em vista a importância que essa empresa adquiriu e em vista a relevância dos resultados para a composição das receitas dos sócios. Estamos, sob o aspecto da rentabilidade, satisfeitos. Agora, um ponto específico que eu acho que pode e deve ser melhorado para os sócios é que tenhamos um aperfeiçoamento. Acho que essa discussão político- partidária que se estabeleceu em torno da Vale não agrega valor à companhia. A discussão com viés um pouco mais político e partidário não é uma pauta da Vale.

Valor: Mas o próprio Roger Agnelli concedeu entrevistas falando sobre a questão política. Isso preocupa ou é compreensível por ser o presidente de uma empresa desse porte?
Flores: As discussões que tangenciaram as eleições acabaram favorecendo esse tipo de clima. Digamos assim, é natural num processo de democracia. O que nós entendemos é que não é positivo que a Vale fique dentro de uma discussão interminável, polêmica, seja sobre essa questão que vocês citaram e foi atribuída a ele, ou não. A gente não quer que a Vale fique dentro dessa discussão.

Valor: Vai haver uma orientação dos conselheiros nesse sentido?
Flores: Acho que isso já está acontecendo. Ou seja, a Vale já está num clima de mais tranquilidade, voltando ao mundo corporativo. O habitat dela é o mundo corporativo. E não as páginas de jornais com declarações polêmicas. O que queremos dizer é o seguinte: a Vale tem uma pauta extensa para trabalhar e que não deve, digamos assim, o seu executivo, ou a Vale ou seus sócios gastarem energia com discussões que não são próprias da sua atividade.

Valor: O senhor assume a presidência do conselho sem intenção de fazer mudanças? Os diretores que saíram se queixaram muito da postura de Roger Agnelli. A diretora Carla Grasso, por exemplo, é acusada de fritar executivos.
Flores: Na matéria que vocês produziram no Valor, o que me chamou a atenção é que trabalharam nela quatro jornalistas. Deve ter gerado uma pesquisa muito grande. Tendo em vista a credibilidade do jornal e dos jornalistas e das questões ali colocadas, é evidente que, dentro do processo natural de governança corporativa que a empresa tem, das hierarquias, é evidente que as questões lá pontuadas vão ser trabalhadas no sentido de gerar um aperfeiçoamento para a própria Vale. Evidentemente, aquilo que vocês colocam são sinais que precisam ser pesquisados. Agora, eu particularmente não acho razoável qualquer direcionamento que vá na linha de demonizar A, B ou C ou pedir cabeça de A, B ou C. Acho que estas questões têm que ser tratadas dentro de um grau de naturalidade, de pesquisa, de identificação. Se há desvios, estes precisam ser corrigidos. E dependendo da natureza dos desvios, são corrigidos de uma forma ou de outra. Há vários caminhos. Não há como dizer a aqui que a correção vai ser feita assim ou de outra forma até porque ainda não cheguei à presidência do conselho.

Valor: O sr assumiu a Previ em junho e teremos um novo governo. O senhor avalia que haverá mudanças na Previ?
Flores: Acho que a função de presidente da Previ é uma função estatutária. A definição é uma indicação que compete ao banco (do Brasil) fazer. O que eu acho importante ressaltar, mais do que a gente ficar avaliando como foram os bastidores da minha vinda para cá, é a gente poder discutir um pouco o futuro, o trabalho que está sendo feito.

Valor: Qual será o foco dos investimentos na sua administração?
Flores: A nossa visão é de que o Brasil já vive uma década que chamamos da infraestrutura. Então, a gente entende que nesse guarda-chuva da infraestrutura residem várias oportunidades de investimento e que são compatíveis com um fundo de pensão. Nossa visão de fundo de pensão é uma visão de longo prazo, que tem que pagar benefícios atuais e futuros a seus associados. A gente paga anualmente R$ 6 bilhões em benefícios. Estamos falando de um país que cresce anualmente a taxas positivas, que o mundo procura oportunidades no Brasil e que residem em boa parte no guarda-chuva da infraestrutura. A gente quer atuar aqui na Previ no que chamo de conjunto intercessão, ou seja, se for bom para o país e for bom para a Previ e se encaixa dentro das nossas políticas de investimento e permite dar retorno adequado a nossos associados, por que não fazer? O que precisa é estar sintonizado com nossa política de investimentos, gerar a rentabilidade adequada para Previ e associados e ajudar o país a ser ainda melhor. O país e tem na sua agenda uma Copa e uma Olimpíada pela frente.

Valor: A Previ vai investir no trem-bala?
Flores: Na questão do trem-bala, a Previ tem uma empresa chamada Invepar que tem sócios como Funcef, Petros e OAS. É uma empresa que tem seu chassi voltado para estradas, metrô, portos e aeroportos. Temos técnicos que estão analisando o projeto do trem-bala. Temos a própria Invepar que tem contratado estudos sobre esse projetos. Os estudos ainda estão sendo concluídos para que possam gerar massa crítica para uma decisão.

Valor: Quando o senhor assumiu havia a discussão entre a fusão da CPFL e da Neoenergia. A imprensa vem falando que a Iberdrola não teria concordado com o negócio. Quais são os planos da Previ para as duas empresas?
Flores: A Previ está tanto na CPFL como na Neoenegria. Nosso papel como acionista é apoiar nos seus planos de negócios e buscar, sendo sócios das duas, que tenham cada vez mais sinergias para serem compartilhadas, para que possam agregar um valor maior aos acionistas. A discussão, no caso da Previ, não passa pela ideia que muitas vezes se viu na imprensa. Nós achamos que o setor de energia elétrica é estratégico, vital, principalmente para um país que está numa década de infraestrutura e precisa crescer. Um setor que retroalimenta. Não queremos perder posições nesse setor que é vital.

Valor: A Oi está passando por restruturação societária com a entrada da Portugal Telecom. Qual ficou sendo a participação da Previ?
Flores: Ficou em 9,76% (na Telemar Participações).

Valor: A Previ ficou satisfeita com o resultado da negociação?
Flores: Foi uma bela discussão técnica negocial, onde o assunto foi evoluindo, as questões foram sendo colocadas à mesa e houve um processo normal de amadurecimento. No final, os fundos não vão perder nenhum poder político. Mantivemos nossa representatividade nos conselhos, o quórum de decisão foijustado à qualidade dos nossos votos, assim como os outros fundos também. Mas falo sempre pela Previ. E o preço que está sendo concluído também passou a ser considerado atrativo. Não posso falar quanto porque os acordos estão sendo fechados.

Valor: O fechamento vai ser anunciado no Oi Day em Nova York no dia 30?
Flores: Não, a formatação vai ser anunciada no final da primeira ou na segunda quinzena de dezembro. Até para dar tempo dos fundos caminharem nas aprovações e levarem para seus boards. Os profissionais envolvidos estarão trocando minutas lendo a documentação final para poder fechar a formatação.

Valor: A Previ vai aumentar investimentos em alguma área específica?
Flores: Vamos investir mais em imóveis em função do boom imobiliário. A Previ estuda investimentos em prédios comerciais modernos que respeitem mais e mais o meio ambiente e sejam bem localizados porque a gente com isso tem boas receitas de aluguel além da valorização do ativo e tende a crescer no regime de taxa de juros declinante. Hoje respondem por 2,91% dos investimentos totais. A meta é chegar 5%. Para isso precisaremos investir R$ 4 bilhões até 2013.

Valor: Nesse sentido, o balanço da Previ do terceiro trimestre aponta que a maior rentabilidade do período foi em imóveis?
Flores: A rentabilidade de imóveis em 2010 foi de 11% no acumulado até setembro e de 16% em 12 meses. O total de investimentos rendeu (na média) 5,56% e ainda está abaixo da meta atuarial que foi de 8%. Os investimentos em renda variável registraram rentabilidade baixa de 2,62% por causa da Bolsa (de Valores). A carteira de ações da Previ soma R$ 90 bilhões e representa 63,54% dos investimentos totais da fundação. Os negócios em renda fixa renderam 9,64% até setembro. No acumulado de nove meses, o patrimônio (da Previ) alcançou R$ 145, 1 bilhões. Em em 2009 (no mesmo período), estava perto de R$ 140 bilhões. Até setembro, a fundação apresentou superávit acumulado no balanço de R$ 42,8 bilhões.

Valor: E quais outros setores que serão privilegiados?
Flores: Este ano nós já participamos do aumento do capital do Banco do Brasil , do qual somos sócios, e mantivemos nossa participação. Pagamos perto de R$ 1 bilhão, mantendo a participação de 10,64%. Nós participamos da capitalização da Petrobras. O que quero dizer é que os recursos têm limite. Temos que escolher bem.





Garantias para o crescimento imobiliário

26 10 2010

(Gazeta do Povo) – 24/10/10

Mudanças no cenário político brasileiro podem influenciar a manutenção do bom momento da construção civil. A principal preocupação é a disponibilidade de crédito

Recorde de lançamentos, preço e venda são apresentados nas pesquisas que mostram o comportamento do mercado imobiliário brasileiro em 2010. Incorporadores e construtores sabem que o bom momento só se manterá com a permanência da combinação de aumento de renda com crédito farto. “É preciso pensar no futuro da economia brasileira, tendo em vista as novas gestões nos governos estadual e federal”, apontou o presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Paraná (Sinduscon-PR) Hamilton Pinheiro Franck, durante o debate “Cenário econômico e construção civil: quais as perspectivas para os próximos dois anos?”, promovido pela entidade na última terça-feira.

Os economistas Fábio Dória Scatolin, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), e Gilmar Mendes Lourenço, docente da FAE Centro Universitário, que estiveram no evento, afirmam que o cenário ainda instável da economia norte-americana exigirá habilidade do novo presidente na política macro-econômica para controlar a valorização da moeda brasileira, reduzir os juros e fortalecer a indústria, garantindo a manutenção dos empregos.

“Comemora-se a distribuição de renda e a ascensão da nova classe média, fatos que ajudaram a construção civil. Mas apenas com o crescimento da economia, que este ano deve rondar os 8%, será possível manter o otimismo”, avalia Sca­­­tolin.

Lourenço explica que, como o setor imobiliário tem dependência do mercado interno, é menos afetado por questões globais da economia. Em compensação, teve no programa do governo federal Minha Casa, Minha Vida o principal fator de aquecimento. “Não acredito que haja uma mudança brusca de postura no que diz respeito ao programa. Fala-se em aumentar o subsídio e a faixa de preço dos imóveis vendidos, o que será importante para a construção civil”, diz.

O último relatório da Caixa Econômica Federal (CEF) sobre o programa, divulgado no início de setembro, mostra que foram assinados 630.886 contratos no país desde o lançamento, em abril de 2009, chegando a 63% da meta. O programa do governo federal previa a contratação de 1 milhão de casas até o fim de 2010.

A crítica ao programa, porém, está no número de casas prontas. A CEF afirma que mais de 100 mil moradias foram entregues e que até o fim do ano este número deve dobrar. “Há bastante burocracia na contratação, o que instensifica a demora. É preciso flexibilizar e encontrar uma solução para o preço dos terrenos, cada vez mais caros nas regiões metropolitanas”, analisa Hamilton Pinheiro Franck.

O fator crédito
Independentemente da configuração do novo governo e da manutenção das políticas habitacionais, há uma outra preocupação: os recursos para o crédito.

A poupança é a principal fonte de financiamento do setor e, de acordo com projeções da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), esgota-se em 2012. “O crédito imobiliário via poupança é um modelo que deu certo e dificilmente será abandonado ou enfraquecido. Há a percepção da escassez e, qualquer que seja o governo a assumir em 2011, deverá procurar formas de estimular a poupança”, prevê o consultor de mercado do Sinduscon-PR, Marcos Kahtalian, que também participou do debate na entidade.

O presidente da Abecip, Luiz Antonio França, mostra que o saldo da poupança cresce abaixo de 20% ao ano, enquanto o crescimen­­­to do crédito está por volta de 50%. “A relação de crédito imobiliário e PIB não chega a 4% e tudo indica que chegará a 11% em 2014, quando atingiremos cerca de R$ 520 bilhões em financiamentos. O que preocupa é que hoje os depósitos na poupança estão em R$ 270 bi­­lhões”, analisa.

Para o superintendente regional da Caixa Econômica Federal (CEF), Hermínio Basso, as bases para o crescimento do crédito, renda mais alta e geração de empregos formais estão sólidas e mesmo defendendo que há aumento significativo na captação da poupança, ele admite que será preciso recorrer a diferentes instrumentos de obtenção de recursos.

Entre as alternativas está a securitização, que transforma as carteiras imobiliárias em títulos que serão vendidos no mercado. “É um modelo que oferece ao mercado imobiliário a dinâmica e a liquidez do mercado financeiro”, diz Lou­­­renço. A desvantagem, no entanto, é que a alternativa é mais cara. O custo de captação da poupança é de 7% ao ano e por meio da securitização, chega a 10%, na análise da Abecip.

Lourenço ressalta que para in­­­gressar nesse mercado o país não pode perder de vista a crise que ocorreu nos Estados Unidos em 2008. “Somos um mercado em desenvolvimento e o que ocorreu no mercado norte-americano deve servir de lição. O Brasil tem um volume pequeno de empréstimos imobiliários em relação ao PIB e uma análise rígida na concessão de crédito. Esses são pontos positivos”, diz.

Preços em Curitiba tendem à estabilização

Com a perspectiva de fechar o ano com 33 mil unidades liberadas para construção, um aumento de 19% em relação a 2009, de acordo com pesquisa apresentada pelo Sinduscon-PR, Curitiba e Região Metropolitana assistem também ao aumento contínuo no preço do metro quadrado. “O preço é definido pelo mercado e hoje não vejo espaço para que continuem subindo acima da inflação e dos custos. Havia uma defasagem, ela já foi corrigida”, opina o presidente do Sinduscon-PR, Hamilton Pinheiro Franck.

Uma pesquisa feita pela entidade revela que a valorização dos imóveis em Curitiba entre dezembro de 2003 e setembro de 2010, ao contrário do que se imagina, não está acima da valorização de outros investimentos. Um imóvel de dois quartos teve 166% de valorização no período, enquanto que a renda fixa (CDI – Certificado de Depósito Interbancário) valorizou 168% no mesmo período. “É preciso separar o preço exagerado de imóveis de alto luxo ou em regiões específicas da cidade, do desempenho dos imóveis que atendem a maior parcela da população, os de um, dois ou três dormitórios”, diz o consultor de mercado Marcos Kahtalian.

Ainda com base no estudo, a média de preço do metro quadrado de área privativa no mês de outubro é de R$ 4.611 para unidades verticais e R$ 2.806 para horizontais. “Antes calculávamos o preço com base na área total, mas com a grande quantidade de condomínios em que a área privativa é menor do que a proporção das áreas comuns, faz-se necessário a análise do preço da área útil, o que ajuda a provocar a sensação de aumento dos preços”, diz Franck.

Empresários do setor não se arriscam em falar no volume de lançamentos para o próximo ano, mas não se cogita retração. “De­­ve-se ter aumento moderado de 10%, por exemplo. Certamente teremos mais lançamentos no segundo semestre, até para aguardar o comportamento do mercado com o novo governo”, opina o vice-presidente do Sinduscon-PR, Nor­­mando Baú.





Apaixonados por construção

25 06 2010

(Valor Econômico) – 24/06/10

Gestores de recursos aplicam R$ 6,6 bi em papéis do setor via fundos de investimento.

O aquecimento do mercado imobiliário no ano passado – com reflexo direto na valorização das ações do setor, que subiram 205% em 2009 – e a perspectiva de crescimento consistente das companhias abertas por, pelo menos, mais três anos, seduziram os gestores de renda variável. Segundo estudo feito pela Economática com exclusividade para o Valor, a indústria de fundos investe R$ 6,6 bilhões nos papéis de construção civil.

Os dados são de fevereiro e mostram que a destinação de recursos dos fundos no setor de construção civil está aumentando. Em janeiro, os investimentos totais das gestoras de recursos eram de R$ 5,4 bilhões – uma diferença de 22,2%. O total em construção em fevereiro é quase 60% dos R$ 11,3 bilhões que os gestores aplicam no setor bancário, segmento mais maduro e consolidado e com maior participação no Índice Bovespa.

O setor financeiro representa 17,3% do Ibovespa. As empresas de construção civil presentes no índice – Cyrela, Gafisa, MRV, PDG Realty e Rossi – somam 8,1% do referencial. É mais do que setores que já brilharam na bolsa em outros momentos, como telecomunicações, varejo e alimentos e bebidas.

O aumento da construção civil no índice é recente e o volume de recursos detectado pelo levantamento é um reflexo direto disso, já que boa parte dos fundos, sejam ativos ou passivos, usa o Ibovespa como referencial. No fim de 2007, estavam do índice apenas Cyrela e Gafisa. Em 2008, entrou Rossi e, por último, PDG Realty e MRV. No IBrX -100, há oito construtoras, com participação de 3,3%.

De acordo com o levantamento, a gestora que mais investe no setor é o Itau Unibanco, com R$ 766 milhões, seguida do Credit Suisse Hedging-Griffo, com R$ 553 milhões, Vinci Gas Gestora de Recursos, com R$ 482 milhões e BB DTVM, com R$ 372 milhões. O papel que os gestores mais gostam é a PDG Realty que, com a compra da Agre, passou a liderar o setor. A PDG tem 21% do total investido no segmento, o que corresponde a R$ 1,4 bilhão e está relativamente distante da segunda colocada, a Cyrela, com R$ 580,1 milhões. Gafisa, Brookfield e MRV surgem na sequência. “O setor está barato versus o potencial de crescimento”, diz Clécius Peixoto, gestor de renda variável da Vinci Gas.

Uma análise mais detalhada do estudo – feito com a nova ferramenta de fundos da Economática – mostra que a PDG também aparece como o principal ativo das 20 maiores gestoras. Mas há, também, apostas diferenciadas, de papéis com menos evidência. O J.P. Morgan tem 61% aplicados na ação da São Carlos, empresa que tem como sócios o trio Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira. A São Carlos nasceu dos dos ativos imobiliários da Lojas Americanas e chegou a ser colocada à venda, mas está bastante ativa nos últimos meses, inclusive na compra de imóveis.

A Maxima Asset tem 95,6% do total investido na João Fortes – empresa com forte atuação no Rio, mas com baixa liquidez. A Polo Capital investe em 14 ações diferentes, mas a principal (27,7%) é a Inpar – que enfrentou problemas e hoje está em fase de restruturação nas mãos do fundo americano Palladin. A Fama Investimentos tem 48,5% do total investido no setor na Rodobens, empresa de baixa renda.





Fundos que investem em florestas têm R$ 4,5 bi para novos projetos

25 06 2010

(Valor Econômico) – 25/06/10

Madeira: Com o crescente interesse, BRWoods e Brazil Timber devem lançar novas carteiras

Os fundos de investimento em florestas estão se multiplicando no Brasil. Fundos nacionais e estrangeiros têm comprometidos cerca de R$ 4,5 bilhões de investimentos em projetos de produção de madeira no mercado brasileiro. O número tende a aumentar pois estão surgindo novos empreendimentos capitaneados por gestoras da área florestal. É o caso da BRWoods e da Brazil Timber, que preparam o lançamento de dois novos fundos de investimento no setor.

A BRWoods negocia a constituição de um fundo de investimento em participações (FIP) em uma possível parceria com a Caixa Econômica Federal (CEF). Já a Brazil Timber pretende formar um fundo offshore para investimento exclusivo em florestas no Brasil. “Em termos de equity (ações), vai ser o maior fundo de florestas do Brasil”, diz Henrique Aretz, diretor de investimentos da Brazil Timber Investment Management, gestora de investimentos do grupo Brazil Timber. Ele não fala em números, mas até hoje um dos maiores fundos florestais do país, o FIP Florestal Brasil, teve comprometido em equity (ações) R$ 1,1 bilhão.

A iniciativa da Brazil Timber reforça a posição do Brasil como um bom lugar para se investir na produção de madeira. A lógica dos fundos é formar florestas e fechar contratos de venda com consumidores de madeira, como indústrias de papel e celulose, móveis e ferro-gusa. Esse é um negócio novo no país, que tem atraído investidores estrangeiros e também brasileiros, como fundos de pensão, em uma visão de longo prazo. Em geral, os fundos florestais trabalham com um retorno, em reais, entre 8% e 14% ao ano.

Nesse cenário, as chamadas “Timos” (sigla em inglês de Timberland Investment Management Organization), fundos de investimento florestais internacionais, desembarcaram no Brasil para concorrer com fundos de investimento nacionais. Aretz diz que a Brasil Timber tem hoje US$ 250 milhões em ativos florestais exclusivos. São fundos pertencentes a pessoas físicas e jurídicas. Segundo ele, a empresa está se associando a um gestor financeiro e até o primeiro trimestre de 2011 deve ser concluída a captação de recursos do fundo offshore.

Eduardo Barreto, diretor da BRWoods, disse que o FIP que a empresa está constituindo deve ser administrado pela CEF. Procurada, a Caixa não confirmou nem desmentiu a informação. Barreto afirmou que a empresa está prospectando investidores e trabalha no desenvolvimento da carteira de projetos. Ele revelou qual deve ser o capital inicial do FIP.

As negociações da BRWoods surgem na esteira de outros fundos do gênero surgidos no Brasil. Em maio, Vale e os fundos de pensão dos funcionários da Caixa Econômica Federal (Funcef) e da Petrobras (Petros), mais Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), juntaram-se para lançar o Vale Florestar, um FIP com aporte inicial de R$ 605 milhões. Os recursos serão investidos na empresa Vale Florestar S.A. e a estruturação financeira será realizada pela Global Equity Administradora de Recursos, que ficará responsável pela identificação de novas oportunidades de investimento. Otávio Lobão Vianna, chefe do departamento de operações de meio ambiente do BNDES, disse que o Vale Florestar é o primeiro fundo florestal do BNDES. Segundo ele, o fundo poderá fazer investimentos em outros projetos de reflorestamento.

Funcef e Petros também entraram como investidores financeiros no FIP Florestal Brasil, constituído em 2009. O fundo também tem como cotistas a holding J&F, que controla a JBS (do setor de alimentos), e a MCL, cada uma com 25% de participação. Os fundos de pensão têm outros 25% cada um. Carlos Rosa, diretor financeiro da Florestal Brasil, disse que o projeto da empresa, cujo acionista é o FIP homônimo, tem prazo de implantação de sete anos e uma necessidade de capital para o período de R$ 1,6 bilhão. A meta é a formação de 210 mil hectares de florestas plantadas.

Do investimento total previsto, um terço corresponde ao aporte de propriedades, viveiros e florestas da Florestal Brasil, formada em 2007 por J&F e MCL; outros 33% ao aporte de Funcef e Petros; e a parcela restante a financiamentos. “O Florestal Brasil é o primeiro fundo do setor formado por investidores institucionais brasileiros”, disse Rosa.

Antes dele já havia fundos florestais formados com participação de investidores estrangeiros. Em 2008, foi constituído o Brookfield Brazil Timber Fund, administrado localmente pela Brookfield Asset Management. O fundo, com aporte inicial de R$ 700 milhões, tem participação majoritária da Brookfield. Outros cotistas são fundos de pensão da Europa, Estados Unidos e Canadá. Do aporte inicial, 42% estão investidos em florestas em quatro Estados do país, disse Silvio Teixeira, presidente da área florestal da Brookfield.

Outro fundo com participação de estrangeiros foi constituído pela RMS (Resource Management Service), um dos maiores “Timos” do mundo, que investiu em florestas no Brasil em benefício do fundo de pensão dos professores de Ontário, no Canadá, o OTPP. Fábio Brun, diretor para América do Sul da RMS, disse que a empresa está criando um fundo global com um grupo de investidores para investimento em florestas no Brasil, China, Austrália e Nova Zelândia.

A gestora Claritas também analisa fazer novos investimentos. Marcelo Sales, co-gestor dos fundos florestais da Claritas, disse que o FIP Florestas do Brasil foi constituído em janeiro de 2009 com aporte inicial de R$ 102 milhões.





Apetite imobiliário

16 06 2010

(Valor Econômico) – 16/06/10

Estoque de LCI, LH e CRI quase dobra, para R$ 35 bilhões, mas ainda não atende demanda dos investidores.

Mesmo com o crescimento forte do mercado de títulos de renda fixa com base imobiliária nos últimos anos, a oferta ainda está longe de saciar o apetite do investidor. Entre as principais restrições está a falta de ativos. No último ano, na Cetip – principal ambiente de negociação desses papéis -, o saldo de Letras de Crédito Imobiliário (LCIs), Letras Hipotecárias (LHs) e Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) praticamente dobrou, chegando a R$ 33 bilhões em maio. Na bolsa, que tem parcela pequena dos ativos registrados, havia mais R$ 1,7 bilhão em CRIs no mês passado.

Somados esses valores, o estoque total dos ativos já beira os R$ 35 bilhões. Mas poderia ser bem maior considerando a demanda dos clientes de alta renda, afirma a diretora de investimento do HSBC Private Bank, Andrea Moufarrege. Entre as principais vantagens dos títulos estão a isenção de imposto de renda para a pessoa física e taxas mais atrativas que as da renda fixa tradicional.

A procura por esses papéis vem se acelerando desde o ano passado, diz o vice-presidente do Grupo BFRE, Fábio Nogueira. Segundo ele, o grande impulso veio da redução dos juros, que diminui a remuneração dos títulos públicos e levou o investidor a buscar alternativas. Contudo, falta lastro para as emissões de LCI e, no caso dos CRIs, as ofertas estão mais restritas, diz Andrea, do HSBC.

A LCI é emitida por bancos, à semelhança de um Certificado de Depósito Bancário (CDB), só que com a garantia de créditos imobiliários. Segundo a executiva, os bancos tendem a liberar LCI somente se há folga na carteira. Como a legislação obriga as instituições a aplicar 65% do que é captado via poupança em financiamento habitacional, é preciso que a carteira de crédito imobiliário seja maior que o volume necessário para cumprir essa exigibilidade.

“As operações de financiamento imobiliário não crescem na mesma velocidade que a demanda do cliente private”, ressalta. Não por baixa procura por empréstimos, mas porque o banco tende a ser mais criterioso na concessão do crédito. Além disso, toda vez que a captação da poupança aumenta, ela puxa o volume a ser direcionado ao crédito habitacional.

O HSBC renovou neste ano todas as LCIs emitidas e colocou dois lotes novos, de cerca de R$ 100 milhões. “Vendemos tudo em 20 dias”, diz Andrea. Os papéis vão apenas para o cliente private, com aplicação mínima de R$ 300 mil.

Por conta do benefício fiscal, Andrea diz que é possível encontrar LCIs de um ano com retornos na faixa de 89% a 90% do CDI, já líquidos para o investidor. Isso equivale a um CDB que paga 105,8% do CDI, imaginando uma alíquota de IR de 15% após dois anos. Para o banco, a emissão da LCI acaba sendo mais barata pois, com a isenção, pode oferecer uma taxa bruta mais baixa do que num CDB, por exemplo. É como se o investidor dividisse o ganho com o banco. “Mas a demanda forte deveria reduzir essas taxas”, diz Andrea.

Já as LHs são títulos semelhantes às LCIs, mas os créditos imobiliários usados como lastro são garantidos só por hipotecas. A LCI é emitida a partir de uma carteira garantida essencialmente por alienação fiduciária do imóvel, além daquela dada pelo próprio banco emissor. A Caixa Econômica Federal é a principal emissora de LH. Mas o estoque desse ativo hoje é marginal, de R$ 1,8 bilhão. E tende a desaparecer, já que não há nenhuma vantagem em relação à LCI, afirma o diretor comercial e de produtos da Cetip, Jorge Sant’Anna.

O grosso desses títulos está nas mãos de pessoas físicas, clientes dos cinco maiores bancos de varejo, responsáveis por 94% das ofertas. A Brazilian Mortgages, companhia hipotecária do Grupo BFRE, tem estoque superior a R$ 355 milhões em LCIs, dos quais 83% são pessoas físicas, informa Nogueira.

Já o CRI – título emitido com lastro em recebíveis imobiliários, numa operação conhecida como securitização – tende a ficar parado nas carteiras dos bancos, como alternativa para cumprir a exigibilidade da poupança. Do estoque total de CRIs, diz Sant’Anna, 63% estão nos bancos. Outro entrave para o aumento das emissões é que essa regra acaba limitando a cessão das carteiras de crédito pelos bancos, diminuindo o lastro potencial para a securitização.

Das emissões, Andrea, do HSBC, diz que a maior parte tem sido feita pelo regime de esforços restritos de distribuição, o que limita o rol de potenciais investidores. “Muitas vezes as operações são boas, mas, como só podem ser vendidas para até 20 clientes, saem com lotes mínimos altos”, explica. São ofertas que só fazem sentido para investidores de porte grande, que não correrão o risco da concentração.

Quando as ofertas chegam no private, há demanda. Segundo Sant’Anna, da Cetip, apesar do prazo longo, que chega a dez anos, as taxas são atrativas. “Além da isenção fiscal para a pessoa física, o CRI é indexado à inflação e remunerado a uma taxa de juros, o que o torna imbatível na comparação com outros produtos de renda fixa”, diz o diretor-executivo da RB Capital, Marcelo Michaluá.

Ele conta que tem muito investidor private querendo papel com vencimento até maior do que dez anos, em busca de uma renda programada para financiar despesas fixas. Alguns CRIs têm amortização mensal, lembra Michaluá, assim como baixo risco de crédito, como os das empresas Petrobras, Ambev, entre outras.

Outra vantagem do título, segundo o diretor da RB, é a garantia, em imóveis com alienação fiduciária ou lastro em recebíveis de aluguel pago por inquilinos corporativos, de primeira linha. Esse é o caso da oferta da RB Capital encerrada em meados de maio, com lastro em contratos de aluguel cedidos pela General Shopping e garantida por empreendimentos do grupo.

Com remuneração de 9,03% ao ano, mais correção pelo IPCA, os CRIs atraíram 107 pessoas físicas de um total de 115 subscritores. A operação inovou ao ser a primeira a sair com aplicação mínima abaixo dos R$ 300 mil. O tíquete foi de R$ 100 mil. No ano passado, a RB Capital vendeu diretamente a pessoas físicas cerca de 52% do total de R$ 1,1 bilhão em CRIs emitidos, informa Michaluá. Neste ano, o percentual está nessa mesma casa e o volume contratado já está em R$ 1,2 bilhão.

Levantamento da Uqbar com cerca de 60% das operações realizadas no ano passado mostra que cresceu a participação da pessoa física nas emissões de CRIs, chegando a 25%. Nos últimos dois anos, a fatia da pessoa física vinha abaixo de 10%. No estudo publicado recentemente, a empresa destacou que essa tendência deve se intensificar, mas de forma indireta, por meio de fundos imobiliários.

Sant’Anna, da Cetip, diz que os fundos de CRIs ampliam o rol de potenciais investidores, mas não resolvem o problema da falta de liquidez do papel. “Todo título de longo prazo precisa ter mercado secundário.” Ele conta o caso de um conhecido que comprou um CRI de risco Petrobras, remunerado a 9,6% mais IGP-M. Neste ano, o retorno será superior a 15%, líquidos. Mas a grande preocupação desse investidor é que ele tem 80 anos e pode querer resgatá-lo antes do vencimento.





Conheça detalhes do projeto referencial do Trem de Alta Velocidade elaborado por consultoria britânica

31 05 2010

(PiniWeb) – 27/05/10

PINIweb teve acesso ao estudo encomendado pelo BNDES à consultoria Halcrow. Projeto aguarda aprovação do TCU para ser licitado pela Agência Nacional de Transportes Terrestres

A ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) espera que até o fim de maio o TCU (Tribunal de Contas da União) aprove os estudos referenciais e a minuta do edital de licitação do TAV (Trem de Alta Velocidade), a ser instalado entre as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. A previsão inicial do governo brasileiro era de que o sistema entrasse em operação já na Copa do Mundo de 2014.

Segundo informações da ANTT, o principal questionamento do TCU é a falta de detalhamento do projeto, que definiu apenas o traçado, a demanda de passageiros e as previsões de construção do trem alta velocidade. Porém, segundo o estudo elaborado pela empresa britânica Halcrow, no qual a reportagem da PINIweb teve acesso, o projeto detalhado só é possível com a definição do tipo de tecnologia que será empregada, o que será feito apenas pela concessionária vencedora da licitação.

O estudo da Halcrow foi contratado pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) em 2008 e elaborado em parceria com a Sinergia Estudos e Projetos. Após a liberação do TCU, a ANTT tem prazo de 15 dias para finalizar o edital e publicá-lo. O leilão ocorrerá 60 dias após a publicação do edital. Confira alguns detalhes do projeto:

Traçado
O traçado referencial do TAV foi simulado por meio do software Quantm, que permite aos planejadores integrarem questões ambientais, da comunidade, culturais, do planejamento e de custo em uma única análise. A ferramenta também calcula os custos da implementação do sistema, considerando serviços como terraplenagem, construção, compra de terrenos e deslocamentos residenciais, entre outras coisas.

Software definiu, inicialmente, traçado que poderia variar em 20 km para baixo ou para cima

A rota foi definida pelo software em duas etapas. Na primeira, o traçado criado poderia variar em cerca de 20 km para cima ou para baixo. Assim, na segunda fase, os engenheiros puderam estudar em detalhes os melhores locais para a rota do TAV (Trem de Alta Velocidade).

No estudo da Halcrow, o traçado de 511 km começa na cidade de Campinas e passa pelas cidades de São Paulo, Guarulhos (SP), São José dos Campos (SP), Volta Redonda/Barra Mansa (RJ) até chegar ao Rio de Janeiro. O estudo também considerou a criação de estações intermediárias em Resende (RJ), em Jundiaí e Aparecida do Norte (SP).

A avaliação e a seleção de alinhamentos preferidos foram realizadas em comum acordo entre Halcrow, BID e ANTT nas oficinas realizadas em janeiro e em abril 2009.

Localização das estações
Definido o traçado referencial, a empresa britânica passou a estudar os melhores locais para a construção das estações nas cidades. No Rio de Janeiro, optou-se por aproveitar a estação em desuso de Barão de Mauá (Leopoldina), situada proximamente a estação do metrô Dom Pedro II. “Barão de Mauá foi escolhido para permitir que os passageiros de TAV e do Metrô sejam mantidos separados, mas, ao mesmo tempo, possam fazer o intercâmbio entre as duas linhas”, diz o documento.

Ao centro, estação Barão de Mauá que deverá ser reaproveitada pelo TAV

Já em São Paulo, segundo o estudo, a situação foi mais complexa. Inicialmente, a Halcrow analisou as regiões da Luz, no centro, e da Barra Funda, na zona oeste da cidade. Porém, em ambos os casos, não há espaço suficiente para a construção da estação. Os engenheiros optaram, então, pela região do Campo de Marte, na zona norte de São Paulo. “O tamanho de sua área e a possibilidade de adquiri-la com mais facilidade fez o Campo de Marte se tornar um local atrativo para uma estação do TAV”, explicam os engenheiros no documento.

Estação do TAV no Campo de Marte ficaria próxima aos principais meios de transporte e centros de negócios de São Paulo

No caso de Campinas, por fim, o terminal do trem de alta velocidade ficará no centro da cidade, em uma estação ferroviária abandonada.

Casos complexos
O estudo da Halcrow enumerou quatro regiões como as mais complexas para a passagem do TAV: a Serra das Araras, a cidade de Barra Mansa e a Represa do Funil, no Rio de Janeiro, e a área compreendida entre as cidades de Queluz, Lavrinhas, Cruzeiro e Cachoeira Paulista, em São Paulo.

Na Serra das Araras, o problema foi ultrapassar as montanhas, que tem picos elevados e inclinações laterais íngremes. “Para desenvolver uma linha de alta velocidade, a geometria de inclinação teve que ser restringida a 2,5% e o alinhamento desenvolvido para minimizar o comprimento da escavação de um túnel”, diz o estudo.

Serra das Araras

Em vermelho, traçado proposto pelo software

Já em Barra Mansa os engenheiros tiveram que desviar o traçado do centro da cidade, que é densamente povoada, para o norte do Rio Paraíba do Sul, próximo a Volta Redonda. “O processo de Quantm permitiu a solução a mais barata para o alinhamento, passando pelas montanhas e evitando as áreas povoadas.”

Na Represa do Funil, por sua vez, o problema foram as opções limitadas de espaço para criação da linha, pois a região tem uma grande bacia hidrográfica. A solução encontrada foi desviar, ao máximo, o traçado da água e, nos locais onde isso não era possível, criar pontes e trilhos elevados.

Na região de Queluz, Lavrinhas, Cruzeiro e Cachoeira Paulista, por fim, os engenheiros precisaram ajustar o comprimento e a profundidade mínima dos cortes, por causa do risco potencial de deslizamento de terras. “Quantm foi usado para criar o melhor contrapeso entre as opções, com cortes profundos, e túneis que fornecem proteção para deslizamento de terras, minimizando o risco”, diz o estudo.








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