Incorporadoras – Aposta na média e alta renda gera margem bruta melhor

18 05 2012

(Valor Econômico) – 17/05/12

Na contramão da impressão deixada pela maior parte do setor, o mercado avaliou como positivos os resultados trimestrais da Cyrela Brazil Realty, Even, EZTec e Helbor. Essas incorporadoras tiveram melhora dos respectivos indicadores de margem bruta, com exceção de Even, que apresentou estabilidade ante o primeiro trimestre de 2011.

As quatro têm foco nos segmentos de média e alta renda. Essa é, justamente, a parcela da população que mais se beneficia da queda de juros, como destaca um analista setorial. A continuidade da demanda por imóveis é apontada como fator positivo para o setor, o que contribuiu para as vendas do primeiro trimestre. “As corretoras de imóveis, como Lopes e Brasil Brokers, estão com resultado positivo, o que mostra que há demanda”, afirmam os analistas Jason Mollin e Gabriel Cotellessa, do Goldman Sachs, em relatório.

A perspectiva do mercado é que os preços de imóveis, em geral, acompanhem a inflação. Mais otimista, a Cyrela informou que sua expectativa conservadora é de alta média de preços de, pelo menos, 8% nos preços dos imóveis em 2012 e que seu crescimento projetado, de 10% a 15%, tem como base a alta de valores das unidades. No primeiro trimestre, a Cyrela apresentou melhora no lucro líquido e na receita líquida.

A Even gerou caixa operacional, no trimestre, pela primeira vez. Foi a incorporadora que mais lançou empreendimentos de janeiro a março em relação ao previsto para o ano, segundo o analista do setor imobiliário da Banif Corretora, Flávio Conde, que ressalta também o aumento de receita da incorporadora. Os lançamentos da Even somaram R$ 516 milhões, ante a projeção para 2012 de R$ 2,5 bilhões. As vendas subiram 42%.

EZTec e Helbor continuam chamando a atenção pelas margens elevadas, que foram de 50,4% e 33,3%, respectivamente, no trimestre. Desde a abertura de capital, essas incorporadoras preferiram focar sua atenção onde a vista alcança. Essas empresas também optaram por não se diversificar para alcançar a baixa renda, no momento em que a maior parte do setor incluiu ou ampliou a participação do segmento no portfólio.

Para o analista José Cataldo, da Ágora Corretora, a Helbor passou ilesa aos problemas do setor, apresentando resultados consistentes no trimestre. “Continuamos confiantes no modelo da empresa, principalmente devido ao comprometimento dos controladores com rentabilidade, e não apenas crescimento”, afirma em relatório.





Análise de viabilidade

8 09 2011

(Construção Mercado) – ago/11

Em pequenas empresas, que tendem a sofrer mais com os efeitos do encalhe de unidades, estudo de viabilidade deve considerar dados confiáveis e relacionar velocidade de vendas com fluxo de caixa da obra

Independente do porte da empresa, o estudo de viabilidade é um instrumento indispensável para a tomada de decisão de investimento e fundamental para o sucesso do negócio imobiliário. Mas em pequenas e médias construtoras, a confiabilidade dessa ferramenta é ainda mais crítica, sobretudo considerando-se que problemas como baixa velocidade de vendas e grande estoque remanescente podem causar um buraco perigoso nas receitas e colocar em risco a capacidade de crescimento e sobrevivência da empresa.

“Uma vez adquirido um terreno ou imóvel para o empreendimento, não dá para parar o processo de desenvolvimento. Nessa fase, o negócio imobiliário consome muitos recursos até que seja lançado e passe a gerar receita. Por isso é tão importante conhecer e estudar detalhadamente todos os custos e riscos até este momento”, destaca o engenheiro Marcos Roberto Tamaki, diretor da Unidade de Negócios Imobiliários do CTE (Centro de Tecnologia de Edificações).

O consultor ressalta que a combinação de empreendimento malvendido, alto custo de construção e margem de lucro muito enxuta pode ter um efeito nefasto na saúde financeira de empresas de menor porte, uma vez que elas não têm acesso a instrumentos de crédito e captação de recursos a custos mais baixos, como ocorre com as grandes companhias de capital aberto. Isso acaba deteriorando a capacidade de investimento em novos negócios, principalmente a criação de um banco de terrenos para a construção de empreendimentos futuros. “A empresa pode se tornar financeiramente insustentável, reduzindo sua capacidade de gerar caixa e levando, até mesmo, a iniciar um processo falimentar”, alerta.

“Não podemos errar de forma alguma, por isso, estudamos o mercado 24 horas por dia e buscamos aprender com a observação dos erros dos outros”, revela o sócio-diretor da Leduca Engenharia, Paulo Marques. Responsável pelas análises de viabilidade da construtora fundada em 2008 e que atua no Rio de Janeiro, Marques revela que primeiro contrata um estudo de massa para, a partir daí, avaliar o negócio em potencial e buscar os terrenos situados nas áreas com maior liquidez. Segundo ele, até agora o método tem funcionado muito bem. “Lançamos dois empreendimentos este ano e já não temos nenhuma unidade para vender”, comemora.

Prática semelhante é realizada pela RKM Engenharia, de Belo Horizonte. Ricardo Alfeu, CEO da construtora mineira, conta que além de um estudo criterioso do mercado, por meio de pesquisas financeiras e econômicas, utiliza o conhecimento que a construtora detém sobre o consumidor local. “Somos uma empresa regional, por isso usamos a nossa visão dos hábitos e costumes dos moradores para entender e analisar as oportunidades”, comenta o executivo.

Achatando o risco
As incertezas inerentes ao mercado imobiliário complicam a vida dos empresários no momento de decidir se, como e quanto investir em um novo empreendimento. Não à toa, muitas vezes essa resolução se dá de forma intuitiva, tomando como base apenas a experiência e a sensibilidade do empreendedor em relação ao mercado. Mas não precisa, nem deve, ser assim.

De acordo com Marcos Tamaki, as premissas a serem adotadas nos estudos de viabilidade definem o perfil de risco do negócio imobiliário e, principalmente, de cada investidor. Além da definição do produto e do preço de venda, há muitos fatores que devem ser considerados nessa análise e que juntos, são capazes de reduzir as incertezas.

Entre eles destacam-se aqueles relacionados à posse do imóvel ou terreno sobre o qual será desenvolvido o negócio imobiliário; fatores ligados ao licenciamento ou à aprovação de projeto; a disponibilidade de linhas de crédito e, finalmente, o custo de construção.

Nesse último item, seja por se basearem em dados imprecisos, seja por displicência, muitas empresas calculam mal. Atualmente, uma das maiores dificuldades é dimensionar o custo da mão de obra, especialmente nas grandes cidades, onde esse recurso está muito escasso.

Para chegar a um custo de construção mais próximo da realidade, o ideal, de acordo com Marcos Tamaki, é apoiar-se em um orçamento paramétrico, cujos números provenham de dados de obras já entregues, em andamento ou de produtos padronizados cuja construção é industrializada.

Outros erros que podem levar a análises imprecisas ocorrem durante as definições de produto, preço e velocidade de venda. Nesse ponto, para não colocar em risco o negócio como um todo, é importante que pequenos e médios empreendedores busquem firmar parcerias com boas empresas de vendas que contem com especialistas em definição de produto, além de um grande banco de dados de demanda e preço de venda.

Da mesma forma, é importante que os empresários se lembrem que, no momento do estudo de viabilidade, não há garantia alguma de que os empréstimos para custear os projetos, a obra e, por vezes, a infraestrutura, serão disponibilizados na quantidade e no momento necessários. “Portanto é prudente criar um cenário sem estes recursos para visualizar a máxima exposição de caixa ou o investimento requerido pelo negócio imobiliário”, recomenda Tamaki.

Mas, entre todas as falhas a que as pequenas e médias empresas estão sujeitas na hora de elaborar estudos de viabilidade, a mais comum é não fazer o acompanhamento dinâmico dos estudos de viabilidade do empreendimento. “O estudo de viabilidade não pode ser estático. Todos os parâmetros de receitas e despesas devem ser monitorados periodicamente para checar se o fluxo de caixa do negócio está alinhado com o fluxo planejado no estudo de viabilidade que subsidiou a decisão de investimento”, alerta o consultor do CTE. Isso vale, por exemplo, para as vendas, preços, condições de pagamento, carteira de recebíveis, inadimplência, gastos com marketing, incorporação, terreno, corretagem de venda, custo de construção e liberações de empréstimos à produção e seus juros.

Pontos de análise

- Não deixe de incluir na análise de viabilidade o processo de licenciamento ou aprovação de projeto, bem como os aspectos jurídicos relacionados à posse do imóvel ou terreno

- Dedique especial atenção à definição do produto e do preço de venda. Esses são os principais fatores de sucesso do empreendimento, relacionados diretamente com a demanda. No preço, também, são definidas as condições de pagamento

- Não esqueça de considerar no custo do empreendimento as verbas destinadas às campanhas publicitárias, estandes de vendas ou modelos decorados, que demandam recursos em um período que o empreendimento não foi lançado, ou seja, quando ainda não gera receita para o negócio

- Há diversas linhas de crédito atualmente. Compare as opções existentes

- Estabeleça boas parcerias com empresas especializadas em vendas, que detenham um grande banco de dados de demanda e preço de venda

- Monitore constantemente os parâmetros de receitas e despesas para checar se o fluxo de caixa do negócio e o fluxo projetado no estudo de viabilidade estão de acordo





BNDES aprova financiamento para oito parques eólicos no Rio Grande do Sul

28 07 2011

(Gazeta do Povo) – 28/07/11

O empréstimo para as obras atinge R$ 445,7 milhões e corresponde a investimentos totais de R$ 725,2 milhões

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciou nesta quinta-feira (28) a aprovação de financiamento para oito parques eólicos que serão construídos nos municípios de Palmares do Sul e Osório, no Rio Grande do Sul, totalizando uma capacidade instalada de 150 megawatts (MW) de energia.

O empréstimo para as obras atinge R$ 445,7 milhões e corresponde a investimentos totais de R$ 725,2 milhões. Os empreendimentos serão construídos por três Sociedades de Propósito Específico (SPE), controladas pela empresa Enerfin do Brasil. Eles deverão gerar 2,3 mil empregos diretos e indiretos e entrarão em operação comercial até 2013, informou o banco.

Segundo o BNDES, todas as usinas já têm contratos de comercialização de energia por 20 anos no Ambiente de Contratação Regulado (ACR).

De acordo com o BNDES, o apoio à construção dos parques eólicos contribuirá para diversificar a matriz energética no país, reduzindo a emissão de gases causadores de efeito estufa.

Desde 2005, já foram aprovados pelo BNDES financiamentos no montante de R$ 4,5 bilhões para o setor de geração de energia eólica, somando uma capacidade instalada de 1.520 MW.

Em carteira, o banco possui hoje novos projetos para o setor, envolvendo empréstimos de R$ 4,2 bilhões.





MRV emitirá R$ 500 milhões em debêntures

10 06 2011

(Valor Econômico) – 02/06/11

O conselho de administração da construtora MRV aprovou hoje a realização da 5ª emissão de debêntures simples da companhia.

Serão emitidos R$ 500 milhões, em série única, com valor nominal de R$ 1 mil e prazo de vencimento de 5 anos.

Os papéis pagarão juros equivalente a 100% da taxa média do DI acrescida de uma taxa que será definida após coleta de intenções de investimento (bookbuilding), limitada a 1,5% ao ano.

A construtora usará os recursos para alongamento do perfil da dívida e recomposição de caixa.





Mercado se articula em busca de fontes alternativas de recursos

27 05 2011

(Buildings News – 26/05/11)

Em um cenário relativamente confortável, com economia aquecida, ganhos reais e em fase de forte expansão, o mercado brasileiro de crédito imobiliário está se articulando para atrair novas fontes de recursos para a produção e aquisição de imóveis.

Uma das alternativas de funding de longo prazo, em discussão com autoridades monetárias, é o lançamento de covered bonds, um mecanismo de captação de recursos para investimentos no setor imobiliário, com larga experiência na Europa.

“O covered bond talvez seja a alternativa para atrair os fundos de pensão para o financiamento imobiliário e se juntar aos mecanismos já existentes, como a poupança, o FGTS e a securitização, com vistas a manter o ritmo atual de crescimento acelerado no financiamento imobiliário”, diz Felipe Pontual, diretor executivo da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip).

Não se espera um rápido esgotamento das fontes atuais de recursos, principalmente do sistema brasileiro de poupança. É apenas uma precaução, avalia a Abecip. Afinal, só em março último, pela primeira vez no ano, a poupança registrou depósitos maiores que as retiradas, com captação líquida positiva de R$ 416 milhões. O total de depósitos de poupança nos agentes de crédito imobiliário, em março, atingiu a marca de R$ 304,7 bilhões, o que representou um aumento de 17% em relação ao mesmo mês de 2010.

É um arsenal de recursos ainda longe de drenagem total, especialmente quando se olha o que foi efetivamente realizado para a construção imobiliária. Em março, as operações de financiamento imobiliário com recursos das cadernetas de poupança atingiram R$ 6,21 bilhões, a melhor marca na história do sistema, com aumento de 51% em relação ao mesmo mês do ano passado.

Entre abril de 2010 e março de 2011, o Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimos (SBPE) aplicou um total de R$ 62,2 bilhões (63% a mais que no período anterior). Foi suficiente para financiar a construção de 451 mil unidades, ou seja, 39% mais do que nos 12 meses anteriores.

“Isso demonstra que o bom desempenho do crédito imobiliário está se mantendo em 2011″, comenta Pontual. “Mas ainda há muito para crescer. Vamos precisar de recursos complementares aos da poupança para manter esse ritmo acelerado de crescimento do financiamento imobiliário, que foi de 65% em 2010 e deverá atingir 51% este ano”, adianta ele.

Segundo o Sindicato da Habitação do Estado de São Paulo (Secovi-SP), as discussões sobre novos mecanismos de financiamento imobiliário estão apenas começando em razão de projeções menos otimistas. A indústria não teme prejuízos futuros para a construção imobiliária, “mas há quem acredite que esses recursos vão se esgotar a partir de 2013. Esse tempo está muito longe, porém estamos nos antecipando ao debate, para caso de necessidade”, comenta Celso Petrucci, economista-chefe do Secovi.

Na esfera governamental, o debate também é incipiente. O Ministério da Fazenda confirma a intenção do governo de aprofundar a questão da securitização como alternativa de financiamento de longo prazo para empréstimos imobiliários. “O governo tem interesse em apoiar esse movimento e avalia que vários instrumentos que colocou no mercado para incentivo à securitização funcionaram bem, embora tenham demorado em tomar corpo”, comenta Pablo Fonseca, secretário-adjunto de política econômica do ministério.

Fonseca adianta que o governo iniciou discussões com o Banco Mundial para desenvolver estudos sobre o covered bond, em estudo pelo mercado financeiro do Brasil. “As conversas avançaram bastante, mas não há nada certo. O covered bond é apenas uma possibilidade”, indica.

A indústria de investimento imobiliário, contudo, não está parada e já está atraindo novas fontes de recursos, informa Petrucci, do Secovi. “É impressionante o crescimento do número de fundos de investimentos colocados no mercado brasileiro nos últimos tempos”, assinala o economista. De fato: o patrimônio da indústria de financiamentos imobiliários passou de R$ 4 bilhões em 2008 para R$ 8 bilhões no final de 2010. “Em apenas dois anos, a indústria cresceu mais do que em todo o período de 1994 a 2008″, afirma Cláudio Maes, gerente de acompanhamento de fundos estruturados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Em janeiro, a CVM registrou um total de 101 fundos imobiliários, o que, na avaliação da entidade, demonstra o poder de atração dessa alternativa de captação de recursos. Os financiamentos imobiliários foram regulados pela Lei 8668, de 1993, e regulados pela CVM em 1994. Mas esse mecanismo não tinha potencial atrativo porque o conceito era de que o investimento só poderia ser feito em tijolo, ou seja, em empreendimentos imobiliários, propriamente ditos – prédios, galpões e outros ativos físicos.

Mesmo com tratamento fiscal mais favorecido, essa política de investimento nunca decolou, de acordo com o executivo. Depois que a CVM reviu esse entendimento e ampliou a abrangência do investimento, a indústria cresceu e agora aceita outras linhas de investimentos, como também os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs). “Hoje, os fundos de investimentos estão inseridos no contexto de expansão do crédito imobiliário e poderão crescer mais ainda com medidas macroeconômicas do governo e com o esforço do governo de alavancar essa indústria”, diz Maes.





Contabilidade do setor dificulta análise

20 05 2011

(Valor Econômico) – 18/05/11

Analisar o balanço de empresas de incorporação imobiliária não é uma tarefa trivial. Todas as companhias usam regime de competência para registrar receitas, custos e despesas. Mas no caso das construtoras, a distância entre o resultado contábil e o fluxo de caixa é ainda maior.

Se o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês) não é recomendado como medida de geração operacional de caixa para nenhuma companhia, muito menos para as incorporadoras imobiliárias.

Seguindo a interpretação dos reguladores brasileiros para o IFRS, a receita das incorporadoras é reconhecida conforme o percentual de execução das obras, enquanto o mais comum é que a companhia receba em caixa cerca de 35% do valor do imóvel até a entrega das chaves.

É com base nessa receita, majoritariamente sem efeito de caixa, que se calcula o Ebitda.

Para solucionar esse problema, que não é exclusivo do setor imobiliário, a opção mais segura é usar a demonstração de fluxo de caixa, que tenta explicar em detalhes a variação do caixa em determinado período. A ideia é saber, por exemplo, se uma empresa engordou a conta bancária porque está melhor operacionalmente ou se o motivo é a venda de um ativo fixo ou um empréstimo bancário.

Essa demonstração é dividida em três partes principais, além da variação cambial.

Na primeira, aparece o caixa gerado nas operações da empresa com sua atividade fim. Na segunda, está o caixa gerado ou gasto com investimentos, o que inclui aquisição ou venda de ativos fixos e participações societárias. Na terceira parte entra o caixa que tem como origem as atividades de financiamento, que incluem emissões de ações ou de dívida, empréstimos bancários e pagamento de dividendos.

Na maioria das empresas, ao se olhar o fluxo de caixa operacional é possível saber se a companhia de fato está gerando dinheiro na sua atividade.

No caso das dez incorporadoras imobiliárias que integram o índice do setor na bolsa, a conta do caixa operacional ficou negativa em R$ 4,97 bilhões em 2008, em R$ 4,50 bilhões em 2009 e em R$ 4,17 bilhões no ano passado.

Trata-se do único da bolsa brasileira que apresenta sistematicamente resultados negativos nessa conta.

“É normal numa fase de crescimento, de aumento de lançamento e de projetos, as empresas deste setor terem fluxo de caixa negativo. Faz parte do ciclo de construção, que leva uns 30 meses”, afirma Fernanda Rezende, analista da Fitch Ratings.

De acordo com ela, a conta deve permanecer negativa em 2011 para a maioria das empresas, podendo ser positiva para uma ou duas companhias. “Depois que elas estabilizarem [o ritmo de crescimento], dali uns dois ou três anos deve ter resultado diferente”, afirma ela.

Ainda de acordo com Fernanda, as companhias brasileira do setor encerraram o ano passado, de forma geral, com uma posição mais forte de caixa em relação a 2009. “Elas estão com uma postura mais conservadora depois da crise e por isso mantém um colchão de liquidez”, afirma.

Mas no caso das construtoras, o caixa operacional não conta 100% da história. “Isso pode significar uma visão míope sobre o fluxo de caixa”, explica Octávio Zampirollo, sócio de auditoria da Grant Thornton.

Segundo ele, quando as incorporadoras vendem recebíveis para bancos ou investidores por meio de securitização, mas mantém responsabilidade em caso de inadimplência, o saldo de contas a receber não é baixado. Na prática, isso significa que o dinheiro da venda da carteira entra no caixa da incorporadora, mas aparece como caixa gerado por atividade de financiamento. Se a venda fosse definitiva, o que de acordo com Zampirollo é menos comum no mercado, o dinheiro entra como caixa operacional.

Pelos dados oficiais disponíveis, o buraco das geração operacional de caixa só é coberto por conta das captações via emissão de ações e empréstimos e financiamentos tomados com bancos ou no mercado de capitais.

Mas o espaço para novos financiamentos já não é tão grande depois de a dívida líquida ter subido 178% desde 2008, para R$ 13,7 bilhões, e com a relação entre a dívida e patrimônio saltando de 39% para 49%.





Imóveis: Após captação de R$ 20 bilhões na bolsa, chega a fatura.

20 05 2011

(Valor Econômico) – 18/05/11

Investidores estão de olho no caixa das construtoras

Entre 2006 e 2007, o setor imobiliário soava quase como música ao ouvido dos investidores. Bastava um banco de terrenos farto e uma promessa de vendas robusta para que as empresas conseguissem abrir capital. Foi num clima de febre, otimismo exagerado e desconhecimento de um setor ainda imaturo que 22 companhias levantaram R$ 11 bilhões, numa primeira rodada. Os anos se passaram, cinco delas tiveram que ser absorvidas para sobreviver e as maiores – com promessa de crescimento acelerado – voltaram ao mercado mais uma ou duas vezes. Ao todo, o setor de construção civil já levantou R$ 20 bilhões na bolsa. Quatro anos depois, os investidores chegaram à fase pesada de cobranças. Querem – finalmente – ver o seu dinheiro de volta, o que ainda não aconteceu.

Apesar do lucro apontado nos balanços, as incorporadoras ainda não geram caixa. Ou seja, os gastos com construção e novos projetos superam os valores recebidos dos apartamentos vendidos no passado. O ganho é contábil e não representa dinheiro novo na operação – os recursos só vem, de fato, quando as obras são entregues e os clientes que financiam a compra do imóvel são repassados ao banco. O ciclo longo, de pelo menos três anos, e o crescimento acelerado do setor contribuem para essa diferença entre lucro contábil e entrada de caixa.

Variação da dívida e do caixa

Levantamento feito pelo Valor mostra que PDG, Gafisa, Cyrela, MRV, Rossi, Brookfield, Even, Eztec, Viver e JHSF, as dez incorporadoras imobiliárias que compunham o índice do setor na bolsa (Imob) até abril, tiveram lucro somado de R$ 8,5 bilhões desde o início de 2008 até março deste ano. No mesmo período, a “queima de caixa” dessas companhias – medida pela variação da dívida líquida – foi de R$ 14,4 bilhões. Sem contar a captação via emissão de ações no período, a perda de caixa seria ainda maior, de R$ 20 bilhões.

Ainda que a maioria dos investidores entenda a complexidade do setor de construção – que até cinco anos atrás não existia como alternativa de investimento – a ansiedade é notável. O assunto geração de caixa apareceu com frequência inédita nas teleconferências de resultados e também nos relatórios referentes ao primeiro trimestre. “Os investidores têm cada vez menos paciência para esperar”, afirma um analista do setor.

Diante das cobranças, quem conseguiu reduzir o consumo de caixa tratou de destacar nas apresentações de resultados, caso da MRV e Rossi. “Quem não gerar caixa positivo este ano terá sérios problemas”, disse Rubens Menin ao Valor na ocasião da divulgação de resultados. “Essa é a grande questão do setor, investidores do mundo inteiro só falam nisso.” No primeiro trimestre, a empresa teve um dos menores consumos de caixa entre as grandes: R$ 68 milhões. A Rossi teve um consumo de caixa de R$ 94 milhões nos primeiros três meses do ano, depois de uma média de R$ 200 a R$ 230 milhões ao longo dos trimestres de 2010.

A expectativa de alguns analistas era de que a queima de caixa deixasse de ocorrer sistematicamente no fim do ano passado, mas agora a previsão é de que isso vire realidade no segundo semestre ou ainda em 2012. Empresas como PDG, Cyrela, Rossi e MRV prometem que a queima de caixa vai acabar a partir da metade deste ano ou no início do ano que vem.

A variação das ações do setor neste ano pode ser, ao menos, um indício da atenção dos investidores ao assunto. JHSF e Eztec são as que apresentam melhor retorno, de 31% e 22%, respectivamente. Não por acaso, ambas não fizeram novas rodadas de emissão de ações e são as que operam com menor alavancagem. A Eztec, aliás, tem caixa e aplicações financeiras maiores do que a dívida bruta. A companhia começou a ter fluxo de caixa positivo no quarto trimestre de 2009. “Nossa margem é o que garante o fluxo de caixa positivo”, diz Emilio Fugazza, diretor financeiro. No primeiro trimestre do ano, a companhia teve margem líquida de 44% para uma média setorial de 14%. As duas empresas são relativamente pequenas, com vendas anuais próximas de R$ 1 bilhão.

Na opinião do analista do Goldman Sachs, Leonardo Zambolin, a questão do caixa é inversamente proporcional ao nível de crescimento. A grande dúvida das empresas nesse momento é justamente se continuam crescendo e, de certa forma, sacrificam a lucratividade ou se aceleram menos e ajustam a operação. O analista ressalta que o México – país que está mais adiantado que o Brasil no setor de construção e foi tido como referência na fase das aberturas de capital -, onde o sistema de repasse funciona bem e o ciclo é mais curto, o caixa ainda não voltou. Na sua opinião, isso acaba desanimando alguns investidores estrangeiros, embora a capacidade de geração de caixa das companhias brasileiras seja reconhecidamente maior.

A conta do crescimento exagerado começou a chegar no fim do ano passado. A luz amarela acendeu quando começaram a surgir os primeiros sinais de problemas na capacidade de execução e atraso na entrega das obras. Mas os problemas tornaram-se reais, de fato, quando duas grandes companhias, Cyrela e MRV, tropeçaram no quarto trimestre por conta de estouros de orçamento das obras, e reduziram suas margens. “Enquanto o setor crescia muito, as dificuldades operacionais eram menos evidentes”, diz um analista. “Até agora, as empresas têm sustentado seu crescimento com dinheiro dos investidores e dívida”, diz uma fonte do setor.

O atraso na entrega das obras – problema que muitas empresas jogam na conta da falta de mão de obra – afeta diretamente a geração positiva de caixa. Segundo levantamento do Banco Fator, a previsão de entregas para este ano era de R$ 16,9 bilhões de valor geral de vendas (VGV) em 2010 e as companhias entregaram R$ 13,7 bilhões. A segunda questão está no repasse dos clientes para os bancos. Depois que o apartamento está pronto, o repasse pode levar de três a seis meses para acontecer – há casos de até nove meses – o que retarda ainda mais a chegada do dinheiro.

De acordo com as empresas e analistas, os bancos (especialmente os privados) estão com dificuldade para absorver uma avalanche de clientes. No caso da baixa renda, muitas vezes o problema acontece por erro da análise de crédito pela construtora – o caso emblemático é a Tenda, comprada pela Gafisa em 2008.

“O consumo de caixa está crescendo fortemente e não tem outro jeito, o importante é controlar custos, ter disciplina pra gastar e conseguir o repasse dos clientes de forma rápida”, diz Menin, da MRV. “Esse dinheiro vai voltar”, completa.

A securitização de recebíveis – contratos de financiamento de imóveis – é uma alternativa para “engordar” o caixa das companhias. Apenas neste ano, PDG, Cyrela, Brookfield, MRV e Rossi já financiaram a construção de mais de R$ 1 bilhão em apartamentos com a venda de certificados de recebíveis imobiliários.





Habitação ganha impulso com pacote de estímulo a financiamento de longo prazo

17 12 2010

(Folha Online) – 17/12/10

O financiamento habitacional pode ganhar novo impulso com o pacote de incentivo ao crédito de longo prazo. Uma das medidas permitirá aos bancos fazer mais empréstimos utilizando os recursos da poupança.

Atualmente, as instituições financeiras são obrigados a direcionar 65% dos depósitos da caderneta de poupança para financiar a casa própria. Quando não conseguem atingir esse patamar, a parte que falta é recolhida como depósito compulsório no Banco Central.

Se o banco “vende” parte desses empréstimos para reciclar os recursos, corre o risco de ser obrigado a recolher mais dinheiro ao BC.

A novidade é que as instituições terão agora 36 meses para “diluir” o impacto de créditos vendidos antes de ficarem desenquadradas.

“É um estímulo para o banco que não fazia isso [vender parte dos empréstimos] entrar nesse mercado e criar uma alternativa estratégica de captação [de dinheiro]“, afirma Fernando Brasileiro, presidente da Cibrasec, maior securitizadora do país.

Para Dyogo de Oliveira, secretário-adjunto de Política Econômica do Ministério da Fazenda, a medida fortalece esse mercado, mas ainda há dois grandes entraves.

O primeiro é o desinteresse dos bancos em se desfazer de empréstimos rentáveis. O outro é convencer os aplicadores a optar por esse título, mesmo tendo papéis de longo prazo com retorno maior no mercado.

[clique na imagem para ampliar]

Impacto no crédito imobiliário

Os empréstimos vendidos só podem ser considerados por três anos nas contas para efeito de enquadramento nas regras e, ainda assim, com redução de 1/36 a cada mês.

Segundo Oliveira, o período e a gradação para a diluição foram definidos para elevar o tamanho dos lotes.

Na avaliação de João Crestana, presidente do Secovi-SP (sindicato da habitação), o pacote é muito oportuno ao estimular os bancos a buscar alternativas de recursos para financiar a habitação, além de FGTS e poupança.

Líder em financiamento habitacional no país, a Caixa Econômica Federal havia anunciado que faria ainda neste ano a primeira operação de venda de empréstimos para testar o apetite do mercado de capitais por esses papéis. Essa emissão inicial era estimada em R$ 500 milhões, de acordo com Jorge Hereda, vice-presidente de Governo do banco federal.

Procurados, Caixa e Abecip (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança) não se pronunciaram ontem.

Os números comprovam a expansão acelerada dos empréstimos com recursos da poupança. Entre janeiro e outubro, os financiamentos somaram R$ 44,9 bilhões, 69% a mais do que no mesmo período de 2009 e mais do que o dobro do valor contabilizado em todo o ano de 2007.





Governo anuncia reforma em crédito de longo prazo

16 12 2010

(Valor Econômico) – 16/12/10

Medidas de incentivo tributário são tentativa de tornar viável, nos próximos quatro anos, financiamento de R$ 350 bilhões em investimentos em infraestrutura com recursos oriundos do sistema financeiro privado

O governo anunciou ontem um conjunto de medidas de estímulo ao crédito de longo prazo para viabilizar, nos próximos quatro anos, o financiamento de até R$ 350 bilhões em investimentos com recursos oriundos do setor privado, segundo estimativa do presidente do BNDES, Luciano Coutinho.

Nessa conta, o governo considerou que entre 2011 e 2014 o investimento terá que subir de dos atuais 19% do PIB para 23% do PIB. “Esses investimentos serão financiados por meio de mecanismos privados e não pela expansão do BNDES. Dos investimentos adicionais de até R$ 650 bilhões, cerca de R$ 300 bilhões deverão vir do lucro das empresas e os restantes R$ 350 bilhões terão que viabilizados pelo mercado de capitais”, explicou.

Coutinho vinculou o sucesso das medidas divulgadas ontem à expectativa de redução da taxa Selic e ao projeto de política macroeconômica do governo que assumirá em janeiro. “À medida que a expectativa for de redução dos juros, o mercado terá que procurar uma alternativa [de aplicação] aos papéis públicos.”

O secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, um dos formuladores do pacote, avaliou que os efeitos das medidas começarão a ser sentidos no primeiro semestre de 2011.

O pacote é dividido em dois grupos de medidas. Em uma vertente, há incentivos tributários para a emissão primária e negociação de títulos de longo prazo, que serão ser desonerados do Imposto de Renda e da CSLL. E, em outra, há um conjunto de medidas coordenadas pelo BNDES, que assume a posição de agente indutor das emissões e das negociações dos papéis no mercado secundário.

Para viabilizar os projetos de infraestrutura, o governo baixou para zero a alíquota do Imposto de Renda, que variava de 15% a 22%, para o investidor pessoa física que adquirir debêntures vinculadas a projetos de infraestrutura e para os investidores estrangeiros. No segmento das pessoas jurídicas, o recolhimento do IR e da CSLL nas aquisições desses papéis passará de 34% para 15%.

O benefício só será concedido para as debêntures com características pré-definidas. Elas têm que ser emitidas por sociedades de propósito específico, com “duration” de 4 anos (prazo médio de vencimento do título conforme o pagamento dos juros e do principal), que equivale a quase 6 anos de prazo total de vencimento. Os projetos de infraestrutura também terão que ser submetidos e aprovados pelo governo, por meio dos ministérios setoriais. Não há cláusula de recompra nos dois primeiros anos do papel e o indexador só poderá ser índice de preços ou uma taxa fixa.

Cálculos do avaliação do Ministério da Fazenda indicam que com a desoneração as emissões de debêntures para projetos de infraestrutura poderão atingir cerca de R$ 15 bilhões no ano que vem e até R$ 70 bilhões em quatro anos. A renúncia fiscal é estimada em R$ 40 milhões ao ano.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, explicou que as desonerações visam estimular a emissão de debêntures a grandes projetos como a hidrelétrica de Belo Monte e o Trem de Alta Velocidade. “O Brasil sempre teve carência de investimentos de longo prazo, no passado isso não fazia muita diferença, porque havia o BNDES para suprir projetos com prazos entre cinco e oito anos. Porém, o ciclo de desenvolvimento se ampliou e agora temos grandes projetos com prazos que saltaram para 20 a 30 anos”, comentou.

Outra medida abrange os títulos privados de longo prazo emitidos por empresas não financeiras e adquiridos por investidores estrangeiros. Nesse caso, a alíquota do IR cai de 15% para zero.

Assim, o governo dá o mesmo tratamento tributário ao investidor estrangeiro tanto em títulos públicos quanto em papéis privados. A renúncia estimada nessa medida é de R$ 60 milhões.

Os bancos foram autorizados a usar até 3 pontos percentuais do recolhimento compulsório sobre depósitos a prazo para compor um “Fundo de Liquidez para Títulos Privados”. Esse fundo será criado para dar liquidez a esses papéis no mercado secundário e o percentual de aporte em compulsório equivalerá a R$ 2,2 bilhões, mais R$ 200 milhões que o BNDES poderá colocar também nesse fundo.

“Esse fundo irá comprar e vender debêntures”, explicou Luciano Coutinho. Ele informou que o fundo será usado para financiar entre 5%, 10% e 15% a emissão primária de debêntures e demais títulos de longo prazo.

O governo eliminou a cobrança do IOF de até 30 dias sobre a compra e venda de títulos privados também para dar liquidez ao mercado.

Para assegurar novas formas de financiamento do BNDES que não o Tesouro Nacional, o Conselho Monetário Nacional (CMN) autorizará hoje o banco a emitir letras financeiras (LF). A autorização não será ilimitada. Hoje o CMN definirá um limite de emissão proporcional ao patrimônio de referência do BNDES, estimado em R$ 40 bilhões.

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) vai regulamentar a oferta pública das Letras Financeiras, até agora só emitidas por oferta restrita. De acordo com o Ministério da Fazenda, desde o início deste ano foram emitidos R$ 20 bilhões nesses títulos.

Uma medida direcionada à redução da inadimplência vai facilitar a recuperação de créditos bancários. Inicialmente ela será aplicada nas renegociações de dividas rurais, sobretudo em máquinas e implementos, e nos empréstimos a pessoas físicas com saldo devedor de até R$ 30 mil. Para isso, o Ministério da Fazenda permitirá que as instituições financeiras façam o diferimento do IRPJ e da CSLL nessas renegociações.

Também foi acertada a desoneração do IOF sobre operações de câmbio. O tributo passa de 6% para 2% na entrada de recursos para aplicações em fundos de investimento em participações (FIPs) e fundos mútuos de investimento em empresas emergentes (FMIEE), ambos operações de “private equity”.

Para dar impulso à securitização de crédito imobiliário, o governo autorizou os agentes financeiros a contabilizar esses créditos no enquadramento do direcionamento de 65% dos depósitos de poupança. Esse crédito poderá ser contabilizado em até 36 meses.

Os atos legais para a implementação dessas medidas ainda serão divulgados. As ligadas a desoneração da alíquota do imposto de renda e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) dependem de medida provisória do governo. A redução do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) será feita por decreto. As alterações ligadas ao setor imobiliário e à emissão de letras financeiras serão tratadas em voto do Banco Central na reunião de hoje do Conselho Monetário Nacional (CMN). Sobre a criação do novo fundo de liquidez, o BC deve emitir uma circular tratando do tema.





Apetite imobiliário

16 06 2010

(Valor Econômico) – 16/06/10

Estoque de LCI, LH e CRI quase dobra, para R$ 35 bilhões, mas ainda não atende demanda dos investidores.

Mesmo com o crescimento forte do mercado de títulos de renda fixa com base imobiliária nos últimos anos, a oferta ainda está longe de saciar o apetite do investidor. Entre as principais restrições está a falta de ativos. No último ano, na Cetip – principal ambiente de negociação desses papéis -, o saldo de Letras de Crédito Imobiliário (LCIs), Letras Hipotecárias (LHs) e Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) praticamente dobrou, chegando a R$ 33 bilhões em maio. Na bolsa, que tem parcela pequena dos ativos registrados, havia mais R$ 1,7 bilhão em CRIs no mês passado.

Somados esses valores, o estoque total dos ativos já beira os R$ 35 bilhões. Mas poderia ser bem maior considerando a demanda dos clientes de alta renda, afirma a diretora de investimento do HSBC Private Bank, Andrea Moufarrege. Entre as principais vantagens dos títulos estão a isenção de imposto de renda para a pessoa física e taxas mais atrativas que as da renda fixa tradicional.

A procura por esses papéis vem se acelerando desde o ano passado, diz o vice-presidente do Grupo BFRE, Fábio Nogueira. Segundo ele, o grande impulso veio da redução dos juros, que diminui a remuneração dos títulos públicos e levou o investidor a buscar alternativas. Contudo, falta lastro para as emissões de LCI e, no caso dos CRIs, as ofertas estão mais restritas, diz Andrea, do HSBC.

A LCI é emitida por bancos, à semelhança de um Certificado de Depósito Bancário (CDB), só que com a garantia de créditos imobiliários. Segundo a executiva, os bancos tendem a liberar LCI somente se há folga na carteira. Como a legislação obriga as instituições a aplicar 65% do que é captado via poupança em financiamento habitacional, é preciso que a carteira de crédito imobiliário seja maior que o volume necessário para cumprir essa exigibilidade.

“As operações de financiamento imobiliário não crescem na mesma velocidade que a demanda do cliente private”, ressalta. Não por baixa procura por empréstimos, mas porque o banco tende a ser mais criterioso na concessão do crédito. Além disso, toda vez que a captação da poupança aumenta, ela puxa o volume a ser direcionado ao crédito habitacional.

O HSBC renovou neste ano todas as LCIs emitidas e colocou dois lotes novos, de cerca de R$ 100 milhões. “Vendemos tudo em 20 dias”, diz Andrea. Os papéis vão apenas para o cliente private, com aplicação mínima de R$ 300 mil.

Por conta do benefício fiscal, Andrea diz que é possível encontrar LCIs de um ano com retornos na faixa de 89% a 90% do CDI, já líquidos para o investidor. Isso equivale a um CDB que paga 105,8% do CDI, imaginando uma alíquota de IR de 15% após dois anos. Para o banco, a emissão da LCI acaba sendo mais barata pois, com a isenção, pode oferecer uma taxa bruta mais baixa do que num CDB, por exemplo. É como se o investidor dividisse o ganho com o banco. “Mas a demanda forte deveria reduzir essas taxas”, diz Andrea.

Já as LHs são títulos semelhantes às LCIs, mas os créditos imobiliários usados como lastro são garantidos só por hipotecas. A LCI é emitida a partir de uma carteira garantida essencialmente por alienação fiduciária do imóvel, além daquela dada pelo próprio banco emissor. A Caixa Econômica Federal é a principal emissora de LH. Mas o estoque desse ativo hoje é marginal, de R$ 1,8 bilhão. E tende a desaparecer, já que não há nenhuma vantagem em relação à LCI, afirma o diretor comercial e de produtos da Cetip, Jorge Sant’Anna.

O grosso desses títulos está nas mãos de pessoas físicas, clientes dos cinco maiores bancos de varejo, responsáveis por 94% das ofertas. A Brazilian Mortgages, companhia hipotecária do Grupo BFRE, tem estoque superior a R$ 355 milhões em LCIs, dos quais 83% são pessoas físicas, informa Nogueira.

Já o CRI – título emitido com lastro em recebíveis imobiliários, numa operação conhecida como securitização – tende a ficar parado nas carteiras dos bancos, como alternativa para cumprir a exigibilidade da poupança. Do estoque total de CRIs, diz Sant’Anna, 63% estão nos bancos. Outro entrave para o aumento das emissões é que essa regra acaba limitando a cessão das carteiras de crédito pelos bancos, diminuindo o lastro potencial para a securitização.

Das emissões, Andrea, do HSBC, diz que a maior parte tem sido feita pelo regime de esforços restritos de distribuição, o que limita o rol de potenciais investidores. “Muitas vezes as operações são boas, mas, como só podem ser vendidas para até 20 clientes, saem com lotes mínimos altos”, explica. São ofertas que só fazem sentido para investidores de porte grande, que não correrão o risco da concentração.

Quando as ofertas chegam no private, há demanda. Segundo Sant’Anna, da Cetip, apesar do prazo longo, que chega a dez anos, as taxas são atrativas. “Além da isenção fiscal para a pessoa física, o CRI é indexado à inflação e remunerado a uma taxa de juros, o que o torna imbatível na comparação com outros produtos de renda fixa”, diz o diretor-executivo da RB Capital, Marcelo Michaluá.

Ele conta que tem muito investidor private querendo papel com vencimento até maior do que dez anos, em busca de uma renda programada para financiar despesas fixas. Alguns CRIs têm amortização mensal, lembra Michaluá, assim como baixo risco de crédito, como os das empresas Petrobras, Ambev, entre outras.

Outra vantagem do título, segundo o diretor da RB, é a garantia, em imóveis com alienação fiduciária ou lastro em recebíveis de aluguel pago por inquilinos corporativos, de primeira linha. Esse é o caso da oferta da RB Capital encerrada em meados de maio, com lastro em contratos de aluguel cedidos pela General Shopping e garantida por empreendimentos do grupo.

Com remuneração de 9,03% ao ano, mais correção pelo IPCA, os CRIs atraíram 107 pessoas físicas de um total de 115 subscritores. A operação inovou ao ser a primeira a sair com aplicação mínima abaixo dos R$ 300 mil. O tíquete foi de R$ 100 mil. No ano passado, a RB Capital vendeu diretamente a pessoas físicas cerca de 52% do total de R$ 1,1 bilhão em CRIs emitidos, informa Michaluá. Neste ano, o percentual está nessa mesma casa e o volume contratado já está em R$ 1,2 bilhão.

Levantamento da Uqbar com cerca de 60% das operações realizadas no ano passado mostra que cresceu a participação da pessoa física nas emissões de CRIs, chegando a 25%. Nos últimos dois anos, a fatia da pessoa física vinha abaixo de 10%. No estudo publicado recentemente, a empresa destacou que essa tendência deve se intensificar, mas de forma indireta, por meio de fundos imobiliários.

Sant’Anna, da Cetip, diz que os fundos de CRIs ampliam o rol de potenciais investidores, mas não resolvem o problema da falta de liquidez do papel. “Todo título de longo prazo precisa ter mercado secundário.” Ele conta o caso de um conhecido que comprou um CRI de risco Petrobras, remunerado a 9,6% mais IGP-M. Neste ano, o retorno será superior a 15%, líquidos. Mas a grande preocupação desse investidor é que ele tem 80 anos e pode querer resgatá-lo antes do vencimento.








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