Caderneta de poupança tem vida curta no financiamento da habitação

23 01 2012

(Gazeta do Povo) – 21/01/12

Com o crescimento veloz da concessão de empréstimos para a compra de imóveis, fonte da poupança vai secar e mercado terá de buscar opções

Em 2011, a captação líquida das cadernetas ficou em R$ 14,2 bilhões. Enquanto isso, as emissões de novos financiamentos imobiliários chegaram perto de R$ 80 bilhões no ano passado – os números definitivos ainda não foram divulgados. A diferença entre os dois números deixa claro que há um descompasso entre os empréstimos do Sistema Financeiro da Habitação (SFH) e sua principal fonte de recursos – uma situação que coloca em risco a oferta de imóveis para a classe média brasileira. Com base em dados como esse, observadores estimam em dois anos a vida útil da caderneta como origem de recursos para empréstimo nesse segmento. “O saldo dos financiamentos cresce, em mé­­dia, 40% ao ano. A poupança cresce 10% ao ano. Em algum momento, lá por 2013, as linhas vão se cruzar”, diz Fernando Baumeier, superintendente de negócios imobiliários do banco Santander.

Analisando dados em uma perspectiva mais longa, o descompasso fica ainda mais claro. Nos últimos dez anos, o saldo das cadernetas subiu 238%, contra um aumento de 4.110% na concessão de financiamento para a habitação. Pela regra atual, os bancos precisam aplicar em habitação 65% do saldo das cadernetas de poupança.

O governo federal ainda pode dar algum fôlego adicional à poupança, caso aceite diminuir ou mesmo extinguir a retenção compulsória dos depósitos em caderneta. Atualmente, os bancos precisam manter intocados 20% dos recursos dos poupadores. Isso equivale a perto de R$ 65 bilhões, volume equivalente aos contratos assinados de janeiro a outubro do ano passado. Essa, entretanto, é uma possibilidade que o Banco Central hesitaria em aceitar. “Isso teria consequências em termos de política monetária”, explica o economista Fabio Araújo, sócio da consultoria Brain Bureau de Inteligência Corporativa. “Aumentaria a quantidade de dinheiro em circulação, o que resultaria em inflação”, diz. Ficam fora dessa conta os financiamentos para famílias com renda inferior a três salários mínimos, cujos financiamentos estão baseados no Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS).

Alternativas
Fontes alternativas de recursos, formatadas e regulamentadas há quase 15 anos, estão ganhando espaço e despontam como o caminho para consolidar o crescimento do mercado. A solução mais provável é a que já vem se desenhando: uma maior participação dos bancos e do mercado de capitais no financiamento imobiliário. Isso já vem ocorrendo, por meio de três tipos diferentes de instrumentos: os Cer­tificados de Recebíveis Imo­biliários (CRIs), as Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e os Fundos de Investimento Imo­biliário (FIIs). A regulamentação desses instrumentos já é relativamente antiga – ocorreu em 1997, com a lei que criou o Sis­tema Financeiro Imobiliário –, mas seu crescimento tem sido gradual, dependendo do apetite dos investidores que irão absorver os papéis.

Baumeier, do Santander, defende ainda a criação de um novo papel, baseado na experiência europeia de financiamento à habitação. Lá, a maior fonte de recursos vem dos covered bonds, títulos de longo prazo que contam com a garantia do banco emissor e dos imóveis financiados. Esses títulos, já conhecidos como “letras financeiras imobiliárias” e apelidadas de “CDB da habitação”, não são previstos hoje pela lei brasileira, mas fazem parte de estudos das instituições e do Banco Central.

Construtoras não veem esgotamento em breve
A tese do esgotamento da poupança não é bem aceita por um grupo importante, a indústria da construção. Segundo a tese vigente no setor, a regulamentação atual permite que os bancos cumpram a regra dos 65% mediante o uso de outros mecanismos. “O banco pode cumprir a exigibilidade de aplicar os 65% em habitação mantendo em carteira papéis lastreados em aluguel de lojas em shopping center, por exemplo”, diz José Carlos Martins, vice-presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção. “Esse e outros mecanismos tiveram sua utilidade no passado, alguns tiveram até o nosso apoio. Mas precisam ser revisados, e o que não servir para o momento atual deve ser extinto”, observa.

Martins concorda que o funding (ou seja, a captação de recursos) via poupança vai acabar um dia, mas é cético em relação às previsões mais alarmistas. “Não vai ser no prazo curto que se anuncia hoje em dia”, comenta. Mas quanto tempo os recursos da poupança vão durar? “Sinceramente, eu não sei. Essa é uma informação que só os bancos podem ter”, afirma.

Alternativa inclui “reciclagem” de dívida
Os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) despontam como o caminho mais promissor para o financiamento da habitação. Eles são uma forma de securitização – ou seja, de “empacotar” valores que serão recebidos no longo prazo por uma empresa, transformando-os em títulos negociados no mercado. Funciona assim: uma incorporadora ou banco vende para uma instituição especializada as contas que seus clientes pagarão nos próximos anos. Essa instituição securitizadora reúne conjuntos que podem variar de 50 a 5 mil contratos e emite papéis, cujos rendimentos são garantidos pelas mensalidades a serem pagas. Esses papéis – tecnicamente, títulos de renda fixa – são vendidos a investidores.

Desde 1999, emissões de CRIs já levantaram R$ 33 bi­­lhões em recursos. “A securitização está pronta e é adequada para complementar as fontes de recursos para habitação no Brasil”, diz Fernando Cruz, diretor de Relações com Inves­tidores da Brasil Securities, empresa que lidera as emissões no país, com R$ 9,3 bilhões em CRIs.





Operação de venda de carteira de crédito entre bancos terá que ser registrada pelo BC

28 07 2011

(Gazeta do Povo) – 28/07/11

Esse tipo de operação, denominada cessão de crédito, ocorre quando um banco repassa um financiamento tomado por pessoa física ou empresa para outra instituição financeira

O Conselho Monetário Nacional (CMN) estabeleceu que operações de venda de carteira de crédito feitas a partir do dia 22 de agosto têm que, obrigatoriamente, ser registradas em sistema autorizado pelo Banco Central (BC). Esse tipo de operação, denominada cessão de crédito, ocorre quando um banco repassa um financiamento tomado por pessoa física ou empresa para outra instituição financeira.

De acordo com o chefe do Departamento de Normas do BC, Sérgio Odilon dos Anjos, “esse tipo de operação ocorre com frequência entre bancos”. A obrigatoriedade do registro da operação de venda de carteira de crédito, segundo Odilon, “favorece a rigidez do sistema financeiro, dadas as características do mercado de cessão, além de [dar] conforto e transparência” à transação.

Inicialmente, a medida abrange apenas a venda de carteira de crédito de empréstimos consignados, ou seja, em que o desconto da dívida é feito em folha de pagamento, e a de financiamento de automóveis. Segundo Odilon, os dois tipos de operação respondem pelo maior volume de cessão de crédito entre os bancos. O objetivo final é que todas as operações de crédito e arrendamento mercantil sejam registradas no sistema, o que só ainda não ocorrerá porque é preciso “tempo e formatação de tecnologia de sistema operacional para ter todas as informações disponíveis na central”.

O chefe de Normas do BC não especificou o motivo que justificou a medida, mas a decisão remete aos problemas verificados no Banco Panamericano, em novembro do ano passado. A instituição bancária, que era de propriedade do empresário Silvio Santos, teve que receber aporte financeiro do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) após serem constatadas inconsistências contábeis nos balanços, devido à incompatibilidade verificada nas carteiras de crédito vendidas.





Acuado por inflação e dívidas, brasileiro “assalta o porquinho”

1 07 2011

(Gazeta do povo) – 21/06/11

As retiradas de dinheiro da poupança superaram os depósitos em mais de R$ 3 bilhões nos últimos dois meses. Parte das aplicações pode estar rumando para títulos de renda fixa

Há dois meses os brasileiros vêm retirando mais dinheiro da poupança do que aplicando, segundo dados do Banco Central (BC). Uma combinação de fatores pode explicar o movimento de retirada: a alta da inflação, o endividamento das famílias e o aumento da Selic, a taxa básica de juros. Especialistas afirmam que é difícil poupar quando se está endividado e os preços, subindo. A melhor poupança que os brasileiros teriam a fazer neste momento seria mesmo pagar suas dívidas.

As retiradas de dinheiro das cadernetas de poupança superaram os depósitos em R$ 1,301 bilhão, em maio, segundo dados do BC. Em abril, o resultado havia sido ainda mais negativo, com “saída líquida” de R$ 1,762 bilhão.

A retirada maior nesse período pode ser explicado pelo forte consumo da classe média. “As contas de fim de ano podem estar aparecendo agora e, como as famílias estão endividadas, elas podem estar recorrendo à poupança para ajudar a quitar as dívidas”, analisa Solange de Lima Barbosa, professora de Ciências Econômicas da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).

Além disso, especialistas explicam que, com a inflação em alta, fica mais difícil para os consumidores conseguirem poupar. “Há a possibilidade de alguns brasileiros estarem sacando da poupança para complementar o orçamento familiar: o preço no supermercado subiu e os salários não acompanharam esta alta”, salienta José Pio Martins, economista e reitor da Universidade Positivo (UP). “A poupança, mesmo rendendo 6% ao ano mais a TR [Taxa de Referência], é muito apreciada pelos brasileiros porque não há imposto sobre ela. Com inflação acima de 6%, porém, a poupança não é atrativa. Ela vale a pena quando a inflação está baixa”, afirma.

Rumo ao juro
Uma saída para fazer o dinheiro render o mesmo que em períodos de inflação em alta são os títulos indexados à taxa Selic, que está em 12,25% ao ano. “Com o aumento constante da taxa básica de juros, a renda fixa tem tido uma melhora. Por isso, parte dos saques da poupança pode estar indo para aplicações com rentabilidade maior. Inflação e Selic altas são um desestímulo para a poupança”, ressalta o diretor econômico da Associação Nacional de Executivos de Finanças (Anefac), Roberto Vertamatti.

Vantagens
Apesar de estar menos atraente por causa da inflação alta, em alguns casos a poupança ainda é mais vantajosa que outros investimentos. O economista da Anefac explica que aplicações de no máximo R$ 300 mensais ainda podem ser feitas na poupança. “Se for mais do que isso, fica complicado para ter rentabilidade. A poupança é vantajosa para o pequeno poupador por não cobrar tributos, além de oferecer garantias. Caso algo aconteça com o banco, o governo garante o dinheiro. Essas razões qualificam a poupança como boa aplicação”, avalia Vertamatti.

A professora da PUCPR acredita que nos próximos meses haja a possibilidade de as aplicações voltarem a ser maiores que as retiradas. “As pessoas podem sair da experiência do endividamento com uma lição: controlar o consumo no segundo semestre e voltar a fazer poupança aos poucos. O brasileiro está em um momento de compras simbólicas, por estar tanto tempo privado de alguns itens que agora pode comprar. Aos poucos, porém, os consumidores estão ouvindo a orientação de tentar diminuir as dívidas e poupar”, afirma Solange.

Da caderneta para o mercado imobiliário
Além dos que estão raspando a poupança para pagar dívidas, enfrentar a inflação ou aplicar na renda fixa, há também quem esteja usando o dinheiro da caderneta para investir no mercado imobiliário. É o caso do designer gráfico Juliano Domingues, que desde os 14 anos costuma guardar alguma quantia na poupança. Depois de tanto tempo aplicando o dinheiro, Domingues encontrou a hora certa de gastar. “Minha poupança ajudou a pagar meu estudo quando entrei na faculdade. Depois de formado e trabalhando, voltei a guardar dinheiro”, conta.

Entretanto, o designer começou a perceber que a sua aplicação não se valorizava com a mesma velocidade do mercado imobiliário. “Ofereceram para mim o apartamento em que eu morava por R$ 80 mil e, três anos depois, a proposta foi de R$ 140 mil. Foi aí que percebi que a única vantagem que tinha com a poupança era deixar o dinheiro guardado. A lucratividade não aumentava como em outras opções de investimento.”

Por essa razão, Domingues entrou com o dinheiro da poupança na entrada de uma sala comercial em um prédio na planta e financiou o restante do valor. “Deixei de ser conservador. Meu imóvel fica pronto só em 2013, mas já está à venda e posso vender caso algum comprador aceite o valor que quero. Do contrário, vou alugar a sala e usar o dinheiro para pagar o financiamento. Repassei a poupança para o mercado imobiliário e já estou satisfeito”, analisa o designer.





Habitação ganha impulso com pacote de estímulo a financiamento de longo prazo

17 12 2010

(Folha Online) – 17/12/10

O financiamento habitacional pode ganhar novo impulso com o pacote de incentivo ao crédito de longo prazo. Uma das medidas permitirá aos bancos fazer mais empréstimos utilizando os recursos da poupança.

Atualmente, as instituições financeiras são obrigados a direcionar 65% dos depósitos da caderneta de poupança para financiar a casa própria. Quando não conseguem atingir esse patamar, a parte que falta é recolhida como depósito compulsório no Banco Central.

Se o banco “vende” parte desses empréstimos para reciclar os recursos, corre o risco de ser obrigado a recolher mais dinheiro ao BC.

A novidade é que as instituições terão agora 36 meses para “diluir” o impacto de créditos vendidos antes de ficarem desenquadradas.

“É um estímulo para o banco que não fazia isso [vender parte dos empréstimos] entrar nesse mercado e criar uma alternativa estratégica de captação [de dinheiro]“, afirma Fernando Brasileiro, presidente da Cibrasec, maior securitizadora do país.

Para Dyogo de Oliveira, secretário-adjunto de Política Econômica do Ministério da Fazenda, a medida fortalece esse mercado, mas ainda há dois grandes entraves.

O primeiro é o desinteresse dos bancos em se desfazer de empréstimos rentáveis. O outro é convencer os aplicadores a optar por esse título, mesmo tendo papéis de longo prazo com retorno maior no mercado.

[clique na imagem para ampliar]

Impacto no crédito imobiliário

Os empréstimos vendidos só podem ser considerados por três anos nas contas para efeito de enquadramento nas regras e, ainda assim, com redução de 1/36 a cada mês.

Segundo Oliveira, o período e a gradação para a diluição foram definidos para elevar o tamanho dos lotes.

Na avaliação de João Crestana, presidente do Secovi-SP (sindicato da habitação), o pacote é muito oportuno ao estimular os bancos a buscar alternativas de recursos para financiar a habitação, além de FGTS e poupança.

Líder em financiamento habitacional no país, a Caixa Econômica Federal havia anunciado que faria ainda neste ano a primeira operação de venda de empréstimos para testar o apetite do mercado de capitais por esses papéis. Essa emissão inicial era estimada em R$ 500 milhões, de acordo com Jorge Hereda, vice-presidente de Governo do banco federal.

Procurados, Caixa e Abecip (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança) não se pronunciaram ontem.

Os números comprovam a expansão acelerada dos empréstimos com recursos da poupança. Entre janeiro e outubro, os financiamentos somaram R$ 44,9 bilhões, 69% a mais do que no mesmo período de 2009 e mais do que o dobro do valor contabilizado em todo o ano de 2007.





Temendo bolha, BC joga água fria na economia

4 12 2010

(Gazeta do Povo) – 04/12/10

Banco Central aumenta quantia que os bancos devem manter depositada na instituição, tirando dinheiro de circulação e freando oferta de empréstimos

Demorou um pouco, mas o Banco Central finalmente reconheceu o risco de uma bolha de crédito no Brasil. Por isso, medidas anunciadas ontem pela instituição devem colocar um freio em financiamentos a perder de vista, como os que vinham sendo oferecidos especialmente para a venda de automóveis. Para diminuir a liquidez da economia brasileira, a intervenção reduzirá o dinheiro disponível para empréstimo no mercado, onerando os consumidores.

O adicional de compulsório sobre depósitos à vista e a prazo, quantia que os bancos são obrigados a manter no BC, será elevado de 8% para 12%. O compulsório efetivo sobre transações a prazo – que os bancos devem manter em carteira, mas sem liberdade para emprestar – aumentará de 15% para 20%. O BC estima que as medidas retirem R$ 61 bilhões de circulação.
Veículos

Financiamento sem entrada custará mais a bancos
O consumidor terá, a partir de agora, mais dificuldade para comprar veículos sem entrada. Pelas normas anunciadas pelo Banco Central, haverá restrições de recursos para financiamentos com prazo superior a 24 meses. Pela nova regra, para não cair na restrição, os bancos deverão exigir uma entrada de pelo menos 20% nos financiamentos entre 24 e 36 meses para carros novos ou usados.

Nos parcelamentos entre 36 e 48 meses, a entrada sobe para 30%. Entre 48 e 60 meses, para 40%. Todas as vendas de veículos com prazo superior a 60 meses terão restrição, independentemente da entrada.

Para restringir essas operações, o BC vai exigir que os bancos façam uma reserva de capital 50% maior para garantir esses empréstimos. Hoje, para cada R$ 100 emprestados, o banco precisa ter uma reserva de R$ 11. Nos financiamentos que o BC classificou como de “prazos muito longos ou garantias insuficientes”, o valor da reserva sobe para R$ 16,50. Isso significa que, se o banco fizer essas operações, terá menos recursos para emprestar.

Regra similar foi adotada para os empréstimos consignados acima de 36 meses e para o crédito pessoal ou aquisição de bens acima de 24 meses. Em todos os casos, os bancos poderão oferecer as operações se elevarem a reserva, mas isso encarece e desestimula o financiamento. A medida vale somente para novos empréstimos, concedidos a partir da próxima segunda-feira.

Como o BC quer restringir apenas o crédito ao consumo, não haverá restrição de prazo para crédito imobiliário, rural ou aquisição de veículos de carga com capacidade de transporte acima de duas toneladas, como caminhões. O crédito a pessoas jurídicas também não foi afetado.

A ação da autoridade monetária tem efeito direto no consumo e procura evitar os efeitos colaterais de uma economia muito aquecida. Com menos dinheiro à disposição dos bancos, as taxas de juros pagas pelas empresas e pessoas físicas devem ficar maiores. O encarecimento do crédito, por sua vez, reduz a demanda por financiamentos e empréstimos. Uma simulação feita pelo economista-chefe do Bradesco, Octavios de Barros, prevê que a medida do BC deve elevar os juros em um ponto porcentual.

Outra preocupação do Banco Central é conter a pressão inflacionária, que vem crescendo nos últimos meses. A inflação deve fechar o ano num patamar próximo ao máximo da meta estabelecida pelo governo. O centro da meta é um aumento geral nos preços de 4,5%, com oscilação de dois pontos porcentuais para cima ou para baixo, e a previsão do mercado é de que o índice feche 2010 em 5,72%.

“As medidas demonstram que já há uma preocupação do Banco Central com o retorno da inflação. Com a alta nos juros, os consumidores vão gastar menos, o que vai reduzir a demanda. Isso tem impacto direto no PIB [Produto Interno Bruto, soma de todas as riquezas produzidas no país]. A inflação ocorre por uma aceleração muito forte da economia, e essas medidas buscam frear um pouco esse crescimento”, afirma o economista Cláudio Considera, professor de Macroeconomia da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Selic
O instrumento utilizado pelo BC é uma alternativa a um aumento da taxa Selic, mas com a vantagem de não aumentar a atratividade do país para o capital estrangeiro. A alta na taxa básica de juros significa maior retorno para os investidores, que vêm encontrando nas economias emergentes, inclusive o Brasil, uma opção vantajosa a aplicações de dinheiro nos países ricos. Esse fluxo de dólares em direção ao país valoriza a taxa de câmbio e acaba gerando críticas dos exportadores, que alegam perda de competitividade de seus produtos no mercado externo.

Para analistas, a medida anunciada ontem praticamente elimina a possibilidade de uma alta na taxa Selic, hoje em 10,75% ao ano, na semana que vem, quando o Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne para discutir o assunto. “Estas medidas ampliam as alternativas de caminhos para a condução da política monetária e poderão permitir que a Selic se mantenha no patamar atual, tanto na semana que vem como nos próximos meses, e que venha até a ser reduzida nos próximos anos”, diz o presidente da Associação Nacio­nal dos Executivos de Finanças, Administração e Conta­bilidade (Anefac), Andrew Frank Storfer.

O presidente do BC, Henrique Meirelles, afirmou que o aumento do compulsório é apenas um recuo nas políticas de incentivo criadas pelo governo durante a crise financeira mundial. Em 2008, no auge da crise, o BC reduziu essas mesmas alíquotas que aumentou ontem, liberando cerca de R$ 100 bilhões para os bancos. Uma primeira retirada nesses incentivos já havia sido feita em março e abril deste ano, quando a autoridade monetária “recuperou” cerca de R$ 70 bilhões. Somadas as últimas duas medidas, o recolhimento compulsório fica R$ 10 bilhões acima do nível pré-crise, o que de­­monstra que de fato há uma preocupação do BC com o surgimento de uma bolha de crédito.

Aperto
Objetivo das medidas anunciadas ontem é frear o aumento do crédito ao consumo, um dos principais responsáveis pelo ritmo de crescimento da economia e da inflação

Compulsório - O BC obriga os bancos a depositar em uma conta (no próprio BC) parte dos recursos captados dos seus clientes nos depósitos à vista, a prazo ou poupança. O chamado “depósito compulsório’’ é um instrumentos do BC para controlar a quantidade de dinheiro que circula. Quando aumenta o compulsório, o BC “tira” dos bancos dinheiro que seria usado para emprestar aos clientes.

É o que o BC anunciou ontem: bancos terão de deixar depositados no BC R$ 61 bilhões a mais.

Garantia de prazos – O BC obriga os bancos a reservar um porcentual do seu patrimônio como garantia de empréstimo. Agora, ele irá pedir um porcentual maior para empréstimos mais longos (superiores a 24 meses no crédito ao consumo e 36 meses no crédito consignado). Como resultado, além de reduzir o dinheiro disponível para empréstimos, o BC encarece os financiamentos mais longos, estimulando prazos menores.

Operações que serão desestimuladas – No financiamento de veículos (crédito direto e leasing) de 24 a 36 meses, o BC recomenda que o banco exija entrada acima de 20%; se o empréstimo for de 36 a 48 meses, a entrada mínima recomendada é de 30%; de 48 a 60 meses, a entrada não pode ficar abaixo de 40%. Se o financiamento for de 60 meses ou mais, independentemente da entrada, o banco terá de fazer uma reserva maior para cobrir eventual calote. Também será desestimulado o consignado acima de 36 meses e o empréstimo direto ou para aquisição de bens acima de 24 meses. Ficam de fora o crédito rural, habitacional, aquisição de caminhões e ônibus e empréstimos com recursos de fundos ou programas do governo. O crédito para empresas também não será atingido.

Próximos passos – O BC já indicou que deve aumentar a taxa básica de juros a partir de dezembro ou janeiro, e membros da nova equipe econômica prometeram cortes de gastos em 2011 para ajudar a desaquecer a economia.

O que ainda pode ser feito – Aumento de impostos (especialmente IOF) e novas elevações dos compulsórios.

Quem tomou a decisão – A diretoria do Banco Central, o que inclui o atual diretor e futuro presidente da instituição, Alexandre Tombini; e o Conselho Monetário Nacional, presidido pelo ministro Guido Mantega, que continuará no comando da Fazenda.

Veículos

Financiamento sem entrada custará mais a bancos

O consumidor terá, a partir de agora, mais dificuldade para comprar veículos sem entrada. Pelas normas anunciadas pelo Banco Central, haverá restrições de recursos para financiamentos com prazo superior a 24 meses. Pela nova regra, para não cair na restrição, os bancos deverão exigir uma entrada de pelo menos 20% nos financiamentos entre 24 e 36 meses para carros novos ou usados.

Nos parcelamentos entre 36 e 48 meses, a entrada sobe para 30%. Entre 48 e 60 meses, para 40%. Todas as vendas de veículos com prazo superior a 60 meses terão restrição, independentemente da entrada.

Para restringir essas operações, o BC vai exigir que os bancos façam uma reserva de capital 50% maior para garantir esses empréstimos. Hoje, para cada R$ 100 emprestados, o banco precisa ter uma reserva de R$ 11. Nos financiamentos que o BC classificou como de “prazos muito longos ou garantias insuficientes”, o valor da reserva sobe para R$ 16,50. Isso significa que, se o banco fizer essas operações, terá menos recursos para emprestar.

Regra similar foi adotada para os empréstimos consignados acima de 36 meses e para o crédito pessoal ou aquisição de bens acima de 24 meses. Em todos os casos, os bancos poderão oferecer as operações se elevarem a reserva, mas isso encarece e desestimula o financiamento. A medida vale somente para novos empréstimos, concedidos a partir da próxima segunda-feira.

Como o BC quer restringir apenas o crédito ao consumo, não haverá restrição de prazo para crédito imobiliário, rural ou aquisição de veículos de carga com capacidade de transporte acima de duas toneladas, como caminhões. O crédito a pessoas jurídicas também não foi afetado.








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