Caderneta de poupança tem vida curta no financiamento da habitação

23 01 2012

(Gazeta do Povo) – 21/01/12

Com o crescimento veloz da concessão de empréstimos para a compra de imóveis, fonte da poupança vai secar e mercado terá de buscar opções

Em 2011, a captação líquida das cadernetas ficou em R$ 14,2 bilhões. Enquanto isso, as emissões de novos financiamentos imobiliários chegaram perto de R$ 80 bilhões no ano passado – os números definitivos ainda não foram divulgados. A diferença entre os dois números deixa claro que há um descompasso entre os empréstimos do Sistema Financeiro da Habitação (SFH) e sua principal fonte de recursos – uma situação que coloca em risco a oferta de imóveis para a classe média brasileira. Com base em dados como esse, observadores estimam em dois anos a vida útil da caderneta como origem de recursos para empréstimo nesse segmento. “O saldo dos financiamentos cresce, em mé­­dia, 40% ao ano. A poupança cresce 10% ao ano. Em algum momento, lá por 2013, as linhas vão se cruzar”, diz Fernando Baumeier, superintendente de negócios imobiliários do banco Santander.

Analisando dados em uma perspectiva mais longa, o descompasso fica ainda mais claro. Nos últimos dez anos, o saldo das cadernetas subiu 238%, contra um aumento de 4.110% na concessão de financiamento para a habitação. Pela regra atual, os bancos precisam aplicar em habitação 65% do saldo das cadernetas de poupança.

O governo federal ainda pode dar algum fôlego adicional à poupança, caso aceite diminuir ou mesmo extinguir a retenção compulsória dos depósitos em caderneta. Atualmente, os bancos precisam manter intocados 20% dos recursos dos poupadores. Isso equivale a perto de R$ 65 bilhões, volume equivalente aos contratos assinados de janeiro a outubro do ano passado. Essa, entretanto, é uma possibilidade que o Banco Central hesitaria em aceitar. “Isso teria consequências em termos de política monetária”, explica o economista Fabio Araújo, sócio da consultoria Brain Bureau de Inteligência Corporativa. “Aumentaria a quantidade de dinheiro em circulação, o que resultaria em inflação”, diz. Ficam fora dessa conta os financiamentos para famílias com renda inferior a três salários mínimos, cujos financiamentos estão baseados no Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS).

Alternativas
Fontes alternativas de recursos, formatadas e regulamentadas há quase 15 anos, estão ganhando espaço e despontam como o caminho para consolidar o crescimento do mercado. A solução mais provável é a que já vem se desenhando: uma maior participação dos bancos e do mercado de capitais no financiamento imobiliário. Isso já vem ocorrendo, por meio de três tipos diferentes de instrumentos: os Cer­tificados de Recebíveis Imo­biliários (CRIs), as Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e os Fundos de Investimento Imo­biliário (FIIs). A regulamentação desses instrumentos já é relativamente antiga – ocorreu em 1997, com a lei que criou o Sis­tema Financeiro Imobiliário –, mas seu crescimento tem sido gradual, dependendo do apetite dos investidores que irão absorver os papéis.

Baumeier, do Santander, defende ainda a criação de um novo papel, baseado na experiência europeia de financiamento à habitação. Lá, a maior fonte de recursos vem dos covered bonds, títulos de longo prazo que contam com a garantia do banco emissor e dos imóveis financiados. Esses títulos, já conhecidos como “letras financeiras imobiliárias” e apelidadas de “CDB da habitação”, não são previstos hoje pela lei brasileira, mas fazem parte de estudos das instituições e do Banco Central.

Construtoras não veem esgotamento em breve
A tese do esgotamento da poupança não é bem aceita por um grupo importante, a indústria da construção. Segundo a tese vigente no setor, a regulamentação atual permite que os bancos cumpram a regra dos 65% mediante o uso de outros mecanismos. “O banco pode cumprir a exigibilidade de aplicar os 65% em habitação mantendo em carteira papéis lastreados em aluguel de lojas em shopping center, por exemplo”, diz José Carlos Martins, vice-presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção. “Esse e outros mecanismos tiveram sua utilidade no passado, alguns tiveram até o nosso apoio. Mas precisam ser revisados, e o que não servir para o momento atual deve ser extinto”, observa.

Martins concorda que o funding (ou seja, a captação de recursos) via poupança vai acabar um dia, mas é cético em relação às previsões mais alarmistas. “Não vai ser no prazo curto que se anuncia hoje em dia”, comenta. Mas quanto tempo os recursos da poupança vão durar? “Sinceramente, eu não sei. Essa é uma informação que só os bancos podem ter”, afirma.

Alternativa inclui “reciclagem” de dívida
Os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) despontam como o caminho mais promissor para o financiamento da habitação. Eles são uma forma de securitização – ou seja, de “empacotar” valores que serão recebidos no longo prazo por uma empresa, transformando-os em títulos negociados no mercado. Funciona assim: uma incorporadora ou banco vende para uma instituição especializada as contas que seus clientes pagarão nos próximos anos. Essa instituição securitizadora reúne conjuntos que podem variar de 50 a 5 mil contratos e emite papéis, cujos rendimentos são garantidos pelas mensalidades a serem pagas. Esses papéis – tecnicamente, títulos de renda fixa – são vendidos a investidores.

Desde 1999, emissões de CRIs já levantaram R$ 33 bi­­lhões em recursos. “A securitização está pronta e é adequada para complementar as fontes de recursos para habitação no Brasil”, diz Fernando Cruz, diretor de Relações com Inves­tidores da Brasil Securities, empresa que lidera as emissões no país, com R$ 9,3 bilhões em CRIs.





Economista enumera fatores que eliminam hipótese de bolha imobiliária no Brasil

10 06 2011

(PINIweb) – 03/06/11

O crescimento da renda das famílias, a rigorosidade na regulação do mercado financeiro e a alta taxa de juros seriam indicadores de que o mercado não corre risco

O economista José Roberto Mendonça de Barros, sócio da consultoria MB Associados, descartou a possibilidade de haver uma bolha no mercado imobiliário brasileiro. “Nossos preços aumentaram porque a demanda foi liberada”, afirmou ele durante sua apresentação no seminário “Ampliando o funding para o mercado imobiliário”, promovido pela Abecip (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança) em 2 de junho. Para Mendonça Barros, o crescimento da renda do brasileiro justifica a forte demanda, mas há uma série de fatores macroeconômicos que ajudam a eliminar o risco de um eventual crescimento artificial dos preços.

De acordo com estudo desenvolvido em 2010 pela MB Associados, a pedido da Abecip, “a economia brasileira hoje segue em trajetória sustentável, sem riscos macroeconômicos de curto prazo relevantes. (…) a perspectiva é de continuidade de crescimento da economia para os próximos anos, com taxa média de expansão do PIB entre 4,5% e 5% até 2015″. O estudo aponta que não há sinais de mudança política ou econômica que implique em maior liberalização financeira ou conduza a taxas de juros excessivamente baixas.

A forte regulação do sistema financeiro do país seria uma razão para confiar na solidez do cenário econômico. “Há uma grande quantidade de informações que o setor bancário precisa repassar para o BC [Banco Central], o que garante que situações de risco sistêmico não se formem com facilidade”. Além disso, o grau de alavancagem dos financiamentos imobiliários ainda é baixo, comparado a outros países, e o mercado secundário ainda é incipiente. O estudo cita o caso dos CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários), cujo estoque não passa de 12% total de crédito imobiliário, enquanto nos Estados Unidos a securitização correspondia à quase totalidade do financiamento.

O estudo ressalta ainda as altas taxas de juros do Brasil. As bolhas de preços de ativos, em geral, aparecem em situações onde a liberalização financeira leva a taxas reais de juros negativas ou muito baixas. Nesse sentido, “a Selic ainda é cara para o tomador e deveríamos ter vários anos seguidos de custo do dinheiro baixo para fornecer espaço para o crescimento de outros preços de ativos”, afirma o texto do estudo.

Por fim, a oferta de imóveis normalmente demora para alcançar a demanda, já que se trata de bens que levam tempo para serem construídos. Num momento em que a demanda brasileira por imóveis é maior que a oferta é natural que os preços sejam pressionados.

Veja a íntegra do estudo aqui.





Mercado se articula em busca de fontes alternativas de recursos

27 05 2011

(Buildings News – 26/05/11)

Em um cenário relativamente confortável, com economia aquecida, ganhos reais e em fase de forte expansão, o mercado brasileiro de crédito imobiliário está se articulando para atrair novas fontes de recursos para a produção e aquisição de imóveis.

Uma das alternativas de funding de longo prazo, em discussão com autoridades monetárias, é o lançamento de covered bonds, um mecanismo de captação de recursos para investimentos no setor imobiliário, com larga experiência na Europa.

“O covered bond talvez seja a alternativa para atrair os fundos de pensão para o financiamento imobiliário e se juntar aos mecanismos já existentes, como a poupança, o FGTS e a securitização, com vistas a manter o ritmo atual de crescimento acelerado no financiamento imobiliário”, diz Felipe Pontual, diretor executivo da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip).

Não se espera um rápido esgotamento das fontes atuais de recursos, principalmente do sistema brasileiro de poupança. É apenas uma precaução, avalia a Abecip. Afinal, só em março último, pela primeira vez no ano, a poupança registrou depósitos maiores que as retiradas, com captação líquida positiva de R$ 416 milhões. O total de depósitos de poupança nos agentes de crédito imobiliário, em março, atingiu a marca de R$ 304,7 bilhões, o que representou um aumento de 17% em relação ao mesmo mês de 2010.

É um arsenal de recursos ainda longe de drenagem total, especialmente quando se olha o que foi efetivamente realizado para a construção imobiliária. Em março, as operações de financiamento imobiliário com recursos das cadernetas de poupança atingiram R$ 6,21 bilhões, a melhor marca na história do sistema, com aumento de 51% em relação ao mesmo mês do ano passado.

Entre abril de 2010 e março de 2011, o Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimos (SBPE) aplicou um total de R$ 62,2 bilhões (63% a mais que no período anterior). Foi suficiente para financiar a construção de 451 mil unidades, ou seja, 39% mais do que nos 12 meses anteriores.

“Isso demonstra que o bom desempenho do crédito imobiliário está se mantendo em 2011″, comenta Pontual. “Mas ainda há muito para crescer. Vamos precisar de recursos complementares aos da poupança para manter esse ritmo acelerado de crescimento do financiamento imobiliário, que foi de 65% em 2010 e deverá atingir 51% este ano”, adianta ele.

Segundo o Sindicato da Habitação do Estado de São Paulo (Secovi-SP), as discussões sobre novos mecanismos de financiamento imobiliário estão apenas começando em razão de projeções menos otimistas. A indústria não teme prejuízos futuros para a construção imobiliária, “mas há quem acredite que esses recursos vão se esgotar a partir de 2013. Esse tempo está muito longe, porém estamos nos antecipando ao debate, para caso de necessidade”, comenta Celso Petrucci, economista-chefe do Secovi.

Na esfera governamental, o debate também é incipiente. O Ministério da Fazenda confirma a intenção do governo de aprofundar a questão da securitização como alternativa de financiamento de longo prazo para empréstimos imobiliários. “O governo tem interesse em apoiar esse movimento e avalia que vários instrumentos que colocou no mercado para incentivo à securitização funcionaram bem, embora tenham demorado em tomar corpo”, comenta Pablo Fonseca, secretário-adjunto de política econômica do ministério.

Fonseca adianta que o governo iniciou discussões com o Banco Mundial para desenvolver estudos sobre o covered bond, em estudo pelo mercado financeiro do Brasil. “As conversas avançaram bastante, mas não há nada certo. O covered bond é apenas uma possibilidade”, indica.

A indústria de investimento imobiliário, contudo, não está parada e já está atraindo novas fontes de recursos, informa Petrucci, do Secovi. “É impressionante o crescimento do número de fundos de investimentos colocados no mercado brasileiro nos últimos tempos”, assinala o economista. De fato: o patrimônio da indústria de financiamentos imobiliários passou de R$ 4 bilhões em 2008 para R$ 8 bilhões no final de 2010. “Em apenas dois anos, a indústria cresceu mais do que em todo o período de 1994 a 2008″, afirma Cláudio Maes, gerente de acompanhamento de fundos estruturados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Em janeiro, a CVM registrou um total de 101 fundos imobiliários, o que, na avaliação da entidade, demonstra o poder de atração dessa alternativa de captação de recursos. Os financiamentos imobiliários foram regulados pela Lei 8668, de 1993, e regulados pela CVM em 1994. Mas esse mecanismo não tinha potencial atrativo porque o conceito era de que o investimento só poderia ser feito em tijolo, ou seja, em empreendimentos imobiliários, propriamente ditos – prédios, galpões e outros ativos físicos.

Mesmo com tratamento fiscal mais favorecido, essa política de investimento nunca decolou, de acordo com o executivo. Depois que a CVM reviu esse entendimento e ampliou a abrangência do investimento, a indústria cresceu e agora aceita outras linhas de investimentos, como também os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs). “Hoje, os fundos de investimentos estão inseridos no contexto de expansão do crédito imobiliário e poderão crescer mais ainda com medidas macroeconômicas do governo e com o esforço do governo de alavancar essa indústria”, diz Maes.





Apetite imobiliário

16 06 2010

(Valor Econômico) – 16/06/10

Estoque de LCI, LH e CRI quase dobra, para R$ 35 bilhões, mas ainda não atende demanda dos investidores.

Mesmo com o crescimento forte do mercado de títulos de renda fixa com base imobiliária nos últimos anos, a oferta ainda está longe de saciar o apetite do investidor. Entre as principais restrições está a falta de ativos. No último ano, na Cetip – principal ambiente de negociação desses papéis -, o saldo de Letras de Crédito Imobiliário (LCIs), Letras Hipotecárias (LHs) e Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) praticamente dobrou, chegando a R$ 33 bilhões em maio. Na bolsa, que tem parcela pequena dos ativos registrados, havia mais R$ 1,7 bilhão em CRIs no mês passado.

Somados esses valores, o estoque total dos ativos já beira os R$ 35 bilhões. Mas poderia ser bem maior considerando a demanda dos clientes de alta renda, afirma a diretora de investimento do HSBC Private Bank, Andrea Moufarrege. Entre as principais vantagens dos títulos estão a isenção de imposto de renda para a pessoa física e taxas mais atrativas que as da renda fixa tradicional.

A procura por esses papéis vem se acelerando desde o ano passado, diz o vice-presidente do Grupo BFRE, Fábio Nogueira. Segundo ele, o grande impulso veio da redução dos juros, que diminui a remuneração dos títulos públicos e levou o investidor a buscar alternativas. Contudo, falta lastro para as emissões de LCI e, no caso dos CRIs, as ofertas estão mais restritas, diz Andrea, do HSBC.

A LCI é emitida por bancos, à semelhança de um Certificado de Depósito Bancário (CDB), só que com a garantia de créditos imobiliários. Segundo a executiva, os bancos tendem a liberar LCI somente se há folga na carteira. Como a legislação obriga as instituições a aplicar 65% do que é captado via poupança em financiamento habitacional, é preciso que a carteira de crédito imobiliário seja maior que o volume necessário para cumprir essa exigibilidade.

“As operações de financiamento imobiliário não crescem na mesma velocidade que a demanda do cliente private”, ressalta. Não por baixa procura por empréstimos, mas porque o banco tende a ser mais criterioso na concessão do crédito. Além disso, toda vez que a captação da poupança aumenta, ela puxa o volume a ser direcionado ao crédito habitacional.

O HSBC renovou neste ano todas as LCIs emitidas e colocou dois lotes novos, de cerca de R$ 100 milhões. “Vendemos tudo em 20 dias”, diz Andrea. Os papéis vão apenas para o cliente private, com aplicação mínima de R$ 300 mil.

Por conta do benefício fiscal, Andrea diz que é possível encontrar LCIs de um ano com retornos na faixa de 89% a 90% do CDI, já líquidos para o investidor. Isso equivale a um CDB que paga 105,8% do CDI, imaginando uma alíquota de IR de 15% após dois anos. Para o banco, a emissão da LCI acaba sendo mais barata pois, com a isenção, pode oferecer uma taxa bruta mais baixa do que num CDB, por exemplo. É como se o investidor dividisse o ganho com o banco. “Mas a demanda forte deveria reduzir essas taxas”, diz Andrea.

Já as LHs são títulos semelhantes às LCIs, mas os créditos imobiliários usados como lastro são garantidos só por hipotecas. A LCI é emitida a partir de uma carteira garantida essencialmente por alienação fiduciária do imóvel, além daquela dada pelo próprio banco emissor. A Caixa Econômica Federal é a principal emissora de LH. Mas o estoque desse ativo hoje é marginal, de R$ 1,8 bilhão. E tende a desaparecer, já que não há nenhuma vantagem em relação à LCI, afirma o diretor comercial e de produtos da Cetip, Jorge Sant’Anna.

O grosso desses títulos está nas mãos de pessoas físicas, clientes dos cinco maiores bancos de varejo, responsáveis por 94% das ofertas. A Brazilian Mortgages, companhia hipotecária do Grupo BFRE, tem estoque superior a R$ 355 milhões em LCIs, dos quais 83% são pessoas físicas, informa Nogueira.

Já o CRI – título emitido com lastro em recebíveis imobiliários, numa operação conhecida como securitização – tende a ficar parado nas carteiras dos bancos, como alternativa para cumprir a exigibilidade da poupança. Do estoque total de CRIs, diz Sant’Anna, 63% estão nos bancos. Outro entrave para o aumento das emissões é que essa regra acaba limitando a cessão das carteiras de crédito pelos bancos, diminuindo o lastro potencial para a securitização.

Das emissões, Andrea, do HSBC, diz que a maior parte tem sido feita pelo regime de esforços restritos de distribuição, o que limita o rol de potenciais investidores. “Muitas vezes as operações são boas, mas, como só podem ser vendidas para até 20 clientes, saem com lotes mínimos altos”, explica. São ofertas que só fazem sentido para investidores de porte grande, que não correrão o risco da concentração.

Quando as ofertas chegam no private, há demanda. Segundo Sant’Anna, da Cetip, apesar do prazo longo, que chega a dez anos, as taxas são atrativas. “Além da isenção fiscal para a pessoa física, o CRI é indexado à inflação e remunerado a uma taxa de juros, o que o torna imbatível na comparação com outros produtos de renda fixa”, diz o diretor-executivo da RB Capital, Marcelo Michaluá.

Ele conta que tem muito investidor private querendo papel com vencimento até maior do que dez anos, em busca de uma renda programada para financiar despesas fixas. Alguns CRIs têm amortização mensal, lembra Michaluá, assim como baixo risco de crédito, como os das empresas Petrobras, Ambev, entre outras.

Outra vantagem do título, segundo o diretor da RB, é a garantia, em imóveis com alienação fiduciária ou lastro em recebíveis de aluguel pago por inquilinos corporativos, de primeira linha. Esse é o caso da oferta da RB Capital encerrada em meados de maio, com lastro em contratos de aluguel cedidos pela General Shopping e garantida por empreendimentos do grupo.

Com remuneração de 9,03% ao ano, mais correção pelo IPCA, os CRIs atraíram 107 pessoas físicas de um total de 115 subscritores. A operação inovou ao ser a primeira a sair com aplicação mínima abaixo dos R$ 300 mil. O tíquete foi de R$ 100 mil. No ano passado, a RB Capital vendeu diretamente a pessoas físicas cerca de 52% do total de R$ 1,1 bilhão em CRIs emitidos, informa Michaluá. Neste ano, o percentual está nessa mesma casa e o volume contratado já está em R$ 1,2 bilhão.

Levantamento da Uqbar com cerca de 60% das operações realizadas no ano passado mostra que cresceu a participação da pessoa física nas emissões de CRIs, chegando a 25%. Nos últimos dois anos, a fatia da pessoa física vinha abaixo de 10%. No estudo publicado recentemente, a empresa destacou que essa tendência deve se intensificar, mas de forma indireta, por meio de fundos imobiliários.

Sant’Anna, da Cetip, diz que os fundos de CRIs ampliam o rol de potenciais investidores, mas não resolvem o problema da falta de liquidez do papel. “Todo título de longo prazo precisa ter mercado secundário.” Ele conta o caso de um conhecido que comprou um CRI de risco Petrobras, remunerado a 9,6% mais IGP-M. Neste ano, o retorno será superior a 15%, líquidos. Mas a grande preocupação desse investidor é que ele tem 80 anos e pode querer resgatá-lo antes do vencimento.





Construtoras avançam na securitização

5 05 2009

(Gazeta Mercantil) – 29/04/09

O retorno gradual do volume de emissões de Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs), com reajustamento das taxas cobradas pelas securitizadoras e oferecidas aos investidores, pode estimular empresas que atuam na construção e incorporação de imóveis a atuar diretamente em securitização. A atuação “casada” não é novidade, mas estava sendo incrementada com o boom imobiliário brasileiro e, especialmente, o aumento de empresas focadas em projetos “built to suit” (construção sob encomenda para locação) e “sale and leaseback” (venda seguida de locação pelo então proprietário).

A construtora WTorre é uma das mais tradicionais nesse modelo, mas já é acompanhada por companhias de investimento que atuam em incorporação, como Pátria e Prosperitas, e mais recentemente a Bracor, com sua BRC Securitizadora, e PDG Realty, que estruturou a PDG Companhia Securitizadora. Até a incorporadora Cyrela Brazil Realty se originou da união dessas duas pontas – a Cyrela construtora e a Brazil Realty Companhia Securitizadora de Crédito Imobiliário. A subsidiária ainda existe, segundo a companhia, mas permanece inoperante.

Com um volume bilionário de recebíveis negociados, a carteira da Cyrela é cortejada por todos os grandes securitizadores independentes. Mas, segundo um executivo dessas empresas, a postura do fundador e controlador da incorporadora, Elie Horn, é que, se a securitizadora lucra com o negócio, por que a empresa mesmo não fica com esse lucro? Por enquanto, a companhia mantém a carteira em casa, utilizando o rendimento dos recebíveis para quitar os serviços de dívida, equilibrando o resultado financeiro. Mas o pensamento de Horn é exatamente a tônica que estimulou outros pares no mercado a operar na securitização.

Uma securitizadora independente compra uma carteira de recebíveis que rende IGP-M mais 12% e vende o CRI com rendimento do índice mais 10%, por exemplo, tendo a diferença de dois pontos percentuais como receita. Esse rendimento dos CRIs se mantém atrativo para compra porque é isento de Imposto de Renda para pessoa física, ao mesmo tempo em que é acima da média de índice mais 6% da meta atuarial de fundos de pensão – dois importantes compradores dos certificados. A idéia do braço próprio para fazer o serviço é capitalizar a incorporadora mas ao mesmo tempo ficar com essa fatia de rentabilidade no “empacotamento” dos créditos.

“Não sei se é uma tendência, mas é uma alternativa. Tem outras formas de fazer, que é a venda de carteira para as securitizadoras que já existem, que são muitas”, diz Carlos Augusto Lopes, da consultoria especializada Uqbar.

Fatores

Para ser vantajoso ter operação própria, segundo incorporadores, o momento econômico e o balanço financeiro da companhia são determinantes. Em certas situações, a empresa precisa repassar a carteira imediatamente para ter recursos à vista – que teria que desembolsar, na securitizadora própria, e aguardar a distribuição dos títulos. “Troco a carteira de recebíveis de clientes que já tenho histórico de comportamento e perfil de risco baixo por dinheiro se estes recursos me renderem mais em outra aplicação ou se tiver endividamento corporativo em que seja mais interessante vender recebíveis porque o rendimento (juros e correção do contrato de venda do imóvel parcelado) deles não está cobrindo o juros do meu endividamento financeiro”, explica um incorporador de posição conservadora.

Embalar os créditos para emissões de CRI só faz sentido para empresas que saibam negociá-los no mercado, que tenham clientes praticamente garantidos – caso das securitizadoras independentes. A empresa deve considerar ainda que o valor unitário de fazer uma CRI é alto para a securitizadora. Este incorporador diz que a unidade custa em média R$ 2 mil – ou seja, se tiver um crédito de R$ 100 mil referente ao apartamento vendido, vender o CRI custará 2% disso, além de emissões de boletos, gerenciamento mensal e taxas de fiscalização.

Para as securitizadoras independentes e para alguns grandes investidores institucionais, o modelo casado não parece adequado. “De alguma forma, reflete um conflito de interesse”, considera Marcelo Michaluá, diretor-executivo da RB Capital.

Ele ressalta que o princípio da securitização é de “pass-through”, ou seja, fazer a passagem do fluxo de caixa por uma companhia independente – supervisionada pelo agente fiduciário e prestadora de contas para a CVM e para o investidor. “Com patrimônio de afetação, as operações podem estar sob a mesma securitizadora, mas os riscos não se comunicam. São várias séries de CRIs emitidas pelo mesmo CNPJ, mas com segregação de risco garantida na base de capital e crédito pelo regime fiduciário”, diz Michaluá. “Ao verticalizar essa operação, essa independência pode ser comprometida. A securitizadora zela pelos investidores, e não pela companhia que fez os lastros.”

Por si só, o fato de a emissão ser feita por uma empresa ligada à geradora do lastro não implica em maior risco, ao menos na avaliação de rating feita por uma agência de classificação de risco. “A existência de uma securitizadora vinculada à construtora ou incorporadora é um passo natural, tal como um banco montar um FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios)”, considera Jean-Pierre Cote Gil, analista de operações estruturadas da Standard & Poor’s. “O cotista está investindo em um fundo que leva o nome do banco, que o banco faz a administração e emite boletos. Mas, como na securitização imobiliária, o risco do FIDC é o lastro que está sendo dado.”

Cote Gil considera que haver ou não conflito de interesse depende da percepção do investidor. “Para a incorporadora, muitas vezes o nome é uma ferramenta de vendas, que pode ser usada nos imóveis e nos certificados. Mas a decisão do investidor não vai ser tomada só pelo originador, e sim pela supervisão do agente fiduciário, do relatório de rating, da auditoria realizada e, principalmente, pelo lastro da operação.”

Definição estratégica

Os acionistas majoritários da Rossi Residencial detinham participação na Brazilian Securities, mas como pessoas físicas, e não pela empresa. Cássio Audi, diretor financeiro e de relações com investidores da Rossi Residencial, não vê sentido numa participação direta da companhia numa securitizadora . “Não avaliamos ter uma securitizadora própria e não faz parte do negócio. Afinal, se securitizar é para tirar do balanço, não faz sentido securitizar e ser sócio lá na frente”, avalia. Segundo Audi, a Rossi hoje faz repasse de toda a sua carteira de recebíveis.

Já a Prosperitas Investimentos, criada em 2003, gere fundos de crédito privado e private equity, que investem no mercado imobiliário. Além dos fundos, a companhia gere três securitizadoras de recebíveis imobiliários – Altere, Aetatis e Aster. Para Felipe Gaiad, executivo da empresa, são negócios que se complementam. “Nossas securitizadoras atendem apenas às demandas dos nossos próprios investimentos. Não fazemos emissões para terceiros, ou seja, nosso principal negócio não é a securitização, que para nós é apenas mais uma possibilidade estratégica dos investimentos”, afirma Gaiad.

Na avaliação de Vicente Nogueira, diretor presidente da Habitasec, securitizadora independente criada no ano passado, a viabilidade é para algumas empresas de grande porte, minoria no mercado brasileiro. “O volume de incorporadoras com securitizadora no mesmo grupo ainda não é expressivo. É claro que se passar a ser, vai ficar mais difícil comprar boas carteiras”, avalia o executivo. “Mas depende da taxa que a empresa colocar, como administra custos, quanto entende no negócio. Para as grandes incorporadoras pode ser viável, mas temos um mercado de construção muito pulverizado entre empresas pequenas.”





Golpe no crédito

23 11 2008

(Pini Web, Construção) – 23/11/08

Crise financeira força empresas de capital aberto a rever metas de lançamento, compra de terrenos e capilarização dos negócios. Saiba quais são os impactos para o crédito à produção e como se preparar para uma possível desaceleração do mercado.

Agravado em meados de setembro, a partir da falência do banco de investimentos americano Lehman Brothers, o colapso no mercado financeiro segue espalhando tensão pelo mundo. A cada dia, novos lances ouriçam investidores, governos, empresas e população em geral. Conseqüências da crise são discutidas à estafa, medidas para debelá-la são providenciadas em âmbitos variados – contudo, por ora, não existem respostas comuns nem êxito de contenção. Segura, apenas, é a gravidade histórica da turbulência, já comparada ao crash de 1929.

No Brasil, o fenômeno move para um depósito de resguardo toda a euforia que notavelmente marcava a construção civil nos últimos tempos. Políticas antes corriqueiras de grandes companhias do setor perderam força, como a agressividade no lançamento de projetos, na compra de terrenos, no incremento a todo custo de VGV (Valor Geral de Venda) e na expansão para regiões inexploradas.

A diminuição no ritmo está conectada ao abalo instantâneo que a crise promove na dinâmica do crédito, justamente uma das bases que viabilizaram a retomada dos negócios imobiliários no País. Ressalve-se que parcela substancial dos recursos injetados nos caixas das incorporadoras, desde 2005, pelas ofertas de ações na bolsa de valores, foi alocada no engordamento dos bancos de terrenos das empresas. Contava-se com o financiamento bancário, então copioso, para a execução dos empreendimentos. Diante do novo cenário, não há alternativa senão revisar planejamentos e estratégias.

Um levantamento do NRE-Poli (Núcleo de Real Estate da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo) dimensiona essa conjuntura. O estudo indica que seriam necessários até R$ 19 bilhões para conclusão de obras em terrenos adquiridos, até 2007, pelas mais de 20 companhias listadas na Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo). O detalhe é que, naquela ocasião, o montante captado na bolsa por esse grupo não passava de R$ 13 bilhões.

“Quando as empresas fizeram IPO (oferta pública de ações, em inglês), era outro cenário, com crédito abundante. Esperavam crescer duas vezes o PIB (Produto Interno Bruto), no mínimo. Agora, se crescerem uma vez, está bom”, diz o analista Eduardo Silveira, da corretora Fator. “Antes, o setor era visto como um setor de crescimento. Na atual condição mais restritiva, o que importa é fechar o ciclo. Não apenas possuir terreno, lançar e vender, mas construir, entregar e receber o dinheiro.”

Os bilhões conseguidos via IPO, em paralelo à disponibilidade de crédito, constituíram uma alavanca que trouxe índices recordes de desenvolvimento a toda a cadeia produtiva da construção. Uma vez que míngüe um dos elementos, a sustentação do crescimento pode ficar comprometida.

Existe ainda um aspecto adicional que alimenta preocupações. Se há margem para profissionais e estudiosos divergirem acerca das seqüelas que o período pós-crise deixará especificamente no mercado imobiliário, as opiniões compactuam quando se referem à influência na macroeconomia brasileira: haverá retração. O próprio Governo Federal assinalou isso, ao rever a estimativa de crescimento do PIB de 2009 para 3,8% a 4%, contra uma projeção anterior de 4,5% – economistas cogitam entre 2,6% e 3,5%.

Situação do crédito
Os bancos evitam falar abertamente em elevações de taxas, tampouco suspensão de empréstimos. O HSBC, por exemplo, um dos mais atuantes no mercado, com portfólio de R$ 1,2 bilhão em ativos de financiamento à produção previstos até o término de 2008, diz que mantém sua postura inalterada, e que é cedo para medir reflexos da crise. “Essas operações de crédito ocorrem de maneira muito espaçada. Talvez eu possa ter uma sensibilidade de como ficou a situação daqui a dois ou três meses”, declara o diretor de crédito imobiliário do banco, Roberto Sampaio.

“Evidentemente existe um cuidado maior na análise de risco, e eventualmente um aumento do spread bancário [taxa adicional de risco] de maneira geral”, reconhece. E enfatiza que a empresa não segue uma tabela de taxas, e que cada projeto tem uma avaliação customizada nesse sentido.

Entre construtoras e incorporadoras, as verificações de encarecimento dos empréstimos são generalizadas. No Rio de Janeiro, o Grupo Zayd (construtora, incorporadora e imobiliária) tentou descontar uma carteira de recebíveis performados no início de outubro, para reforçar o caixa, e encontrou taxas a CDI (Certificado de Depósito Interbancário) + 0,9% ao mês – valor que, 60 dias antes, estava em CDI + 0,3%. “Recuamos, está caro, vamos aguardar um pouco mais”, afirma o presidente do Grupo Zayd, Carlos Henrique Tozini. “No plano empresarial, de financiamento à produção, sabemos até de alguns bancos que não estão fazendo operações com ninguém”, acrescenta.

Em São Paulo, o diretor da DP Engenharia, Alberto Du Plessis, viu o financiamento à produção de uma empresa parceira subir de 8% para 9%. “Percebe-se uma maior exigência de juros por parte dos bancos”, comenta. Já o presidente da Tarjab, José Tarifa, diz ter conferido casos de taxas que incharam mais de 60%. “Em bancos menores, tínhamos disponíveis linhas de crédito inativas, abaixo de R$ 1 milhão, que os bancos aproveitaram para cortar”, relata.

Empréstimos destinados ao fortalecimento das reservas também são atingidos. “Com essa crise de liquidez, as instituições financeiras, nos Estados Unidos e no Brasil, estão tentando desalavancar. Ocorre até uma crise de confiança”, observa Eduardo Silveira, da Fator. “Na prática, linhas para capital de giro já vinham mais caras e escassas um ou dois meses antes da crise. Agora, está praticamente impossível acessar o mercado de dívida corporativa. Quando se consegue, o custo que era de CDI + 1% ou 1,5% sai a CDI + 3% ou 3,5%”, descreve.

O aumento de taxas bloqueia também outras modalidades de recursos para as empresas, como a emissão de dívida. “Operações de debêntures estão fechadas. Mesmo que a companhia pagasse CDI + 5%, não existe mercado”, desacredita Silveira.

Securitização
Evento similar acontece, nesse momento, com a securitização imobiliária, que consiste na transformação dos recebíveis imobiliários em títulos que podem ser comprados por investidores em bolsa. Essa ferramenta de geração de recursos era apontada como uma das principais saídas de crédito quando as captações da caderneta de poupança repassadas ao mercado imobiliário atingirem crescimento vegetativo. Agora, a situação é outra. “Não resta dúvida de que, no médio e longo prazo, num cenário normal, é uma opção excelente, tem muito espaço para crescer. Mas agora é difícil, a conjuntura está muito adversa”, opina a economista Amaryllis Romano, da Tendências Consultoria, e salienta que foi justamente a prática da securitização que originou a crise do subprime americano.

Segundo Silveira, da Fator, as empresas – ao menos as de capital aberto – encontram-se com estoques limitados de recebíveis para securitização. “O grande boom de lançamentos imobiliários aconteceu em 2007, ciclo que será concluído em 2009, quando as empresas farão um volume de entregas e terão os recebíveis performados para repasse”, explica.

“Securitização é uma alternativa, mas no atual cenário, de mercado mais escasso, de bancos com menos apetite para crédito imobiliário, talvez fique muito caro descontar”, resume o analista, mencionando que, até a explosão da crise, os bancos projetavam 30% a mais de originação de carteiras imobiliárias em 2008, índice que deve ser bem menor – entre 10% e 15%.

Alberto Du Plessis, que já realizou operações de securitização pela DP Engenharia, diz que tem notícias de operações executadas à base de IGP-M (Índice Geral de Preços do Mercado) + 16% – sendo que o mercado vinha operando, até recentemente, na faixa de IGP-M + 8% a 10%.

Fernando Pinilha Cruz, diretor da securitizadora Brazilian Securities, justifica que o incremento no deságio das carteiras ocorre porque, na outra ponta da securitização, os compradores de CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários) passaram a exigir maiores rentabilidades dos papéis. “É um processo lógico, porque todas as taxas de juros do mercado subiram”, ressalta.

Apesar dessa depreciação inflacionada (o percentual varia de negócio para negócio, de acordo com as dimensões e riscos da carteira), muitas construtoras e incorporadoras, sequiosas por reforço de caixa, vêm submetendo seus recebíveis às securitizadoras – considerando-se que as portas dos bancos, ao menos temporariamente, estão fechadas. Cruz informa que a Brazilian Securities deve encerrar 2008 com R$ 1,5 bilhão de CRIs emitidos -50% acima das estimativas pré-crise. Somadas as operações de todo o mercado, o volume de CRIs lançado até setembro já é de R$ 3,5 bilhões – em 2007, esse número restringiu-se a R$ 1,5 bilhão.

Rigidez na análise
Não parece razoável que o recuo dos bancos na concessão de financiamentos vá se prolongar em excesso. Como defende Du Plessis, da DP Engenharia (também vice-presidente de tecnologia e relações de mercado do Secovi-SP – Sindicato da Habitação), “os bancos hoje estão suspendendo as operações não por falta de recursos; é muito mais para ver como ficará essa crise global”.

Para o empresário e dirigente setorial, não haverá retorno aos patamares anteriores à crise, em virtude de reflexos no crescimento e na macroeconomia do País. Todavia, na sua ponderação, “os bancos vão cair na normalidade de um novo cenário de crescimento econômico”.

A convicção de volta à ativa das instituições financeiras está baseada na obrigatoriedade de aplicação de 65% dos recursos captados via cadernetas de poupança em financiamentos habitacionais (sejam à produção, sejam financiamentos ao mutuário). Esse índice, que está próximo de ser atingido, tende a render uma sobrevida de empréstimos ao setor. Isso porque épocas de crise costumam gerar insegurança nos investidores, estimulando, assim, o funding do SBPE (Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo), principal locomotiva do crédito.

Já é possível antever alguns aspectos que nortearão a atividade dos bancos daqui para frente. Empréstimos às empresas, embora restabelecidos, deverão ser disponibilizados em volumes inferiores aos atuais. Além disso, o rigor na seleção dos projetos deverá apertar. “Temos que trabalhar com a hipótese de que talvez os bancos não financiem empreendimentos que (segundo parâmetros pré-crise) eram garantidos”, alerta Alberto Du Plessis.

De maneira imediata, tendem a ganhar prioridade nas agendas bancárias dois tipos de financiamento: para obras em andamento e ligados a projetos já aprovados, que no estopim da turbulência global passavam pela burocracia precedente à liberação – trâmite cujo tempo médio habitual, de 30 a 60 dias, tem tudo para crescer.

Apesar da crise, a FGV Projetos estima que o crescimento do PIB da construção em 2009 chegue a 5%

Apesar da crise, a FGV Projetos estima que o crescimento do PIB da construção em 2009 chegue a 5%

A incerteza do mercado quanto ao crédito para empreendimentos já lançados (e, dessa forma, prometidos aos acionistas) impeliu algumas empresas listadas na Bovespa a divulgar seus montantes assegurados, reservados a projetos específicos. “Uma coisa é você anunciar que tem uma linha, como se fosse um limite de crédito, e outra coisa são as linhas efetivamente desembolsadas, ligadas a projetos”, esclarece Eduardo Silveira, da corretora Fator.

Em comunicado, a Rodobens garantiu que 90% dos projetos lançados pela companhia contam com crédito aprovado. A Rossi, em outro exemplo, especificou que possui limite de R$ 3 bilhões em linhas de crédito, dos quais R$ 1,3 bilhão já assinado e alocado em empreendimentos.

Ajustes ao novo cenário
Os resultados positivos acumulados por construtoras e incorporadoras nos últimos anos mantêm distantes, nesse panorama de dificuldades, especulações relacionadas a quebras de empresas. O que fatalmente vai acontecer, porém, é uma redução dos ganhos das organizações, provocado tanto pelo encarecimento dos negócios (juros nas alturas) como pela retração das atividades.

Entre as de capital aberto, a revisão para baixo dos planos de lançamentos foi orquestrada. Incorporadoras como a CR2 cortaram ao meio a meta de empreendimentos tanto para este ano como para 2009. A Agra, que pretendia lançar R$ 2,1 bilhões agora em 2008, ficará limitada em R$ 1,4 bilhão. Para o ano que vem, os R$ 2,5 bilhões ambicionados inicialmente pela Even foram revistos para R$ 1,8 bilhão – e a onda de encolhimento se propaga ainda por companhias como Rossi, Eztec, Trisul, Abyara e Inpar.

“Do ano de 2009 para 2008, muitas empresas que estimavam crescer entre 20% e 30% estão colocando crescimento zero, justamente por conta das incertezas e dessa escassez de crédito”, avalia Silveira, da Fator.

A redução do número de lançamentos (o chamado guidance) possibilita que as corporações estanquem a compra de terrenos. Tome-se novamente o exemplo da Rossi: seus R$ 11 bilhões em landbank (banco de terrenos) suportavam, antes da crise, pouco mais de três anos de lançamentos. Depois da revisão de metas para baixo, esse mesmo landbank já sustenta mais de quatro anos de novas construções.

A diminuição do guidance como providência para enfrentar a crise vale igualmente a empresas de capital fechado e menor porte. No Grupo Zayd, do Rio, os R$ 150 milhões de VGV programados para 2009 se transformaram em R$ 120 milhões – menos um empreendimento nas contas. “Acredito que as empresas menores estão preparadas. Vão ter que reduzir de tamanho; conforme for, reduzir suas estruturas. Nós nos adequamos ao mercado muito rápido”, acredita o presidente Carlos Tozini.

Para José Tarifa, da paulistana Tarjab, a crise é agravada pelo elevado custo da construção – inviável de se repassar ao comprador, uma vez que, segundo ele, o preço final das unidades já está alavancado 10% acima da inflação anual. Esse conjunto de fatores (custos dos materiais e juros do financiamento mais caros) vão simplesmente anular a taxa de retorno de 80% a 90% das construtoras que operam em faixas de renda menores, na visão de Tarifa. “Para minha empresa, a taxa que ficava em torno de 20% vai cair para 15%”, calcula.

Na análise de Alberto Du Plessis, da DP Engenharia, na medida em que o volume de obras é reduzido, a taxa de retorno dos negócios que restam precisa ser aumentada. “As taxas, que vinham chegando a patamares de 13% a 15%, ficam agora em níveis mais exigentes, entre 20% e 25%”, afirma. “Só se faz negócio (depois da crise) com pouco investimento inicial no terreno, de preferência permuta, e envolvendo empreendimentos com condições muito boas de preço de área e melhores taxas internas de retorno.”

Ensejo para fortalecimento
As interpretações mais otimistas sobre os efeitos da crise no setor situam a turbulência como uma oportunidade de amadurecimento do mercado imobiliário. “Talvez tenha havido um excesso de crescimento. Agora as empresas estão colocando números mais realistas”, diz o analista Eduardo Silveira.

Roberto Sampaio, da área de crédito imobiliário do HSBC, segue o mesmo raciocínio. “Desde as aberturas de capital, o mercado acabou ficando extremamente hiperdimensionado. É possível que o novo cenário coloque os pés no chão, seja um elemento de fortalecimento do mercado”, espera.

Du Plessis, da DP Engenharia, lembra que imóvel é considerado uma moeda forte e, em momentos de incerteza, é visto como investimento seguro. José Tarifa, da Tarjab, conta que investidores de sua rede de contatos, bastante capitalizados, estão preocupados em diversificar aplicações e devem, assim, elevar suas compras de imóveis. “O brasileiro acredita mais em investimentos fixos do que em papéis”, garante.

“O setor não tem quase nenhuma contaminação com o subprime americano. Se o sistema financeiro não estivesse sofrendo tanto (o que afeta o crédito), não haveria problema”, examina Silveira, da Fator.

Amaryllis Romano, da Tendências Consultoria, concorda: “Não é um problema do setor, nem do Brasil. É do mundo”. Para ela, a entrada de mais recursos à construção via mercado de capitais, embora demore a ocorrer outra vez, não é alternativa descartada. A economista afirma que processos de fusões e aquisições (motivados pelo desempenho aquém das expectativas de algumas incorporadoras na bolsa) já eram esperados, entre outras razões, como estratégia das maiores companhias em penetrarem nas praças fora das metrópoles.

“Até pode ter havido má gestão em uma ou outra empresa. Mas, de maneira geral, o problema não é das companhias”, diz Amaryllis. “É diferente, por exemplo, quando várias empresas do mesmo ramo abrem capital e esse setor se mostra inadequado, o mercado não consegue acompanhar. Não foi o caso da construção civil”, atesta.

Ainda que os recursos bilionários dos IPOs e os altos volumes de crédito imobiliário, pilares do desenvolvimento do mercado, estejam afetados pela crise, os empresários podem contar agora com as benesses de outras três ferramentas: patrimônio de afetação, alienação fiduciária e regra do incontroverso. Conquistas recentes, igualmente influentes no aquecimento dos negócios, serviram para solidificar os fundamentos do setor – item importantíssimo em uma conjuntura de dificuldades como a que se abate sobre o mundo e resvala na construção civil nacional.

As apostas para o futuro

Cenário otimista
Maioria das empresas mantém, cumpre guidance de 2008 e consegue incremento nos lançamentos em 2009
>> Com a busca por segurança, captações da caderneta de poupança sobem e garantem expansão de recursos do SBPE (Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo)
>> Empresas de capital aberto ajustam relação dívida/capital e maximizam retorno sobre o capital investido


Cenário intermediário
>> Parte das empresas cumpre o guidance planejado de 2008, parte entrega pouco abaixo do previsto
>> Em 2009, mesma margem de lançamentos de 2008, sem crescimento
>> Ciclo de aumento da taxa básica de juros é interrompido
>> Venda de recebíveis e emissão de debêntures voltam a ser alternativas de capitalização, a taxas razoáveis


Cenário pessimista
>> Recursos do SFH (Sistema Financeiro da Habitação) atingem rapidamente crescimento apenas vegetativo e se tornam insuficientes
>> Financiamentos limitam-se a 60%, ao mutuário e à produção
>> Cai demanda por imóveis, aumentam estoques das empresas
>> Cresce a inadimplência
>> Cessam novos empreendimentos, empresas concluem obras já previstas, absorvem recursos e só depois voltam a lançar
>> Tendência de demissões de profissionais contratados a valores muito altos se espalha





Relações entre o Financiamento Imobiliário e a Produção do Espaço na Cidade de São Paulo: Casos de Segregação e Fragmentação Espaciais

23 03 2008
Adriano Botelho (aluno de Doutorado – Departamento de Geografia – USP)
E-mail: abot@usp.br
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Resumo

A análise das relações entre o setor imobiliário e o mercado financeiro pode contribuir para a compreensão de intensificação da fragmentação do espaço urbano e para o entendimento da complexificação do processo de segregação sócio-espacial. Dessa forma, são discutidos três casos de empreendimentos imobiliários na cidade de São Paulo – Fundos de Investimentos Imobiliários [FII’s] e Certificados de Recebíveis Imobiliários [CRI’s]; cooperativas  (autofinanciamento); e provisão estatal de moradia através de Companhias Habitacionais -, sendo que cada um deles possui distintas fontes de financiamento e relações com o setor financeiro. O estudo de cada caso, estacando-se a sua localização no urbano e as características do mercado a que se destina, revela importantes elementos do processo de hierarquização, fragmentação e segregação no espaço da metrópole paulistana.








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