Caderneta de poupança tem vida curta no financiamento da habitação

23 01 2012

(Gazeta do Povo) – 21/01/12

Com o crescimento veloz da concessão de empréstimos para a compra de imóveis, fonte da poupança vai secar e mercado terá de buscar opções

Em 2011, a captação líquida das cadernetas ficou em R$ 14,2 bilhões. Enquanto isso, as emissões de novos financiamentos imobiliários chegaram perto de R$ 80 bilhões no ano passado – os números definitivos ainda não foram divulgados. A diferença entre os dois números deixa claro que há um descompasso entre os empréstimos do Sistema Financeiro da Habitação (SFH) e sua principal fonte de recursos – uma situação que coloca em risco a oferta de imóveis para a classe média brasileira. Com base em dados como esse, observadores estimam em dois anos a vida útil da caderneta como origem de recursos para empréstimo nesse segmento. “O saldo dos financiamentos cresce, em mé­­dia, 40% ao ano. A poupança cresce 10% ao ano. Em algum momento, lá por 2013, as linhas vão se cruzar”, diz Fernando Baumeier, superintendente de negócios imobiliários do banco Santander.

Analisando dados em uma perspectiva mais longa, o descompasso fica ainda mais claro. Nos últimos dez anos, o saldo das cadernetas subiu 238%, contra um aumento de 4.110% na concessão de financiamento para a habitação. Pela regra atual, os bancos precisam aplicar em habitação 65% do saldo das cadernetas de poupança.

O governo federal ainda pode dar algum fôlego adicional à poupança, caso aceite diminuir ou mesmo extinguir a retenção compulsória dos depósitos em caderneta. Atualmente, os bancos precisam manter intocados 20% dos recursos dos poupadores. Isso equivale a perto de R$ 65 bilhões, volume equivalente aos contratos assinados de janeiro a outubro do ano passado. Essa, entretanto, é uma possibilidade que o Banco Central hesitaria em aceitar. “Isso teria consequências em termos de política monetária”, explica o economista Fabio Araújo, sócio da consultoria Brain Bureau de Inteligência Corporativa. “Aumentaria a quantidade de dinheiro em circulação, o que resultaria em inflação”, diz. Ficam fora dessa conta os financiamentos para famílias com renda inferior a três salários mínimos, cujos financiamentos estão baseados no Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS).

Alternativas
Fontes alternativas de recursos, formatadas e regulamentadas há quase 15 anos, estão ganhando espaço e despontam como o caminho para consolidar o crescimento do mercado. A solução mais provável é a que já vem se desenhando: uma maior participação dos bancos e do mercado de capitais no financiamento imobiliário. Isso já vem ocorrendo, por meio de três tipos diferentes de instrumentos: os Cer­tificados de Recebíveis Imo­biliários (CRIs), as Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e os Fundos de Investimento Imo­biliário (FIIs). A regulamentação desses instrumentos já é relativamente antiga – ocorreu em 1997, com a lei que criou o Sis­tema Financeiro Imobiliário –, mas seu crescimento tem sido gradual, dependendo do apetite dos investidores que irão absorver os papéis.

Baumeier, do Santander, defende ainda a criação de um novo papel, baseado na experiência europeia de financiamento à habitação. Lá, a maior fonte de recursos vem dos covered bonds, títulos de longo prazo que contam com a garantia do banco emissor e dos imóveis financiados. Esses títulos, já conhecidos como “letras financeiras imobiliárias” e apelidadas de “CDB da habitação”, não são previstos hoje pela lei brasileira, mas fazem parte de estudos das instituições e do Banco Central.

Construtoras não veem esgotamento em breve
A tese do esgotamento da poupança não é bem aceita por um grupo importante, a indústria da construção. Segundo a tese vigente no setor, a regulamentação atual permite que os bancos cumpram a regra dos 65% mediante o uso de outros mecanismos. “O banco pode cumprir a exigibilidade de aplicar os 65% em habitação mantendo em carteira papéis lastreados em aluguel de lojas em shopping center, por exemplo”, diz José Carlos Martins, vice-presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção. “Esse e outros mecanismos tiveram sua utilidade no passado, alguns tiveram até o nosso apoio. Mas precisam ser revisados, e o que não servir para o momento atual deve ser extinto”, observa.

Martins concorda que o funding (ou seja, a captação de recursos) via poupança vai acabar um dia, mas é cético em relação às previsões mais alarmistas. “Não vai ser no prazo curto que se anuncia hoje em dia”, comenta. Mas quanto tempo os recursos da poupança vão durar? “Sinceramente, eu não sei. Essa é uma informação que só os bancos podem ter”, afirma.

Alternativa inclui “reciclagem” de dívida
Os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) despontam como o caminho mais promissor para o financiamento da habitação. Eles são uma forma de securitização – ou seja, de “empacotar” valores que serão recebidos no longo prazo por uma empresa, transformando-os em títulos negociados no mercado. Funciona assim: uma incorporadora ou banco vende para uma instituição especializada as contas que seus clientes pagarão nos próximos anos. Essa instituição securitizadora reúne conjuntos que podem variar de 50 a 5 mil contratos e emite papéis, cujos rendimentos são garantidos pelas mensalidades a serem pagas. Esses papéis – tecnicamente, títulos de renda fixa – são vendidos a investidores.

Desde 1999, emissões de CRIs já levantaram R$ 33 bi­­lhões em recursos. “A securitização está pronta e é adequada para complementar as fontes de recursos para habitação no Brasil”, diz Fernando Cruz, diretor de Relações com Inves­tidores da Brasil Securities, empresa que lidera as emissões no país, com R$ 9,3 bilhões em CRIs.





Economista enumera fatores que eliminam hipótese de bolha imobiliária no Brasil

10 06 2011

(PINIweb) – 03/06/11

O crescimento da renda das famílias, a rigorosidade na regulação do mercado financeiro e a alta taxa de juros seriam indicadores de que o mercado não corre risco

O economista José Roberto Mendonça de Barros, sócio da consultoria MB Associados, descartou a possibilidade de haver uma bolha no mercado imobiliário brasileiro. “Nossos preços aumentaram porque a demanda foi liberada”, afirmou ele durante sua apresentação no seminário “Ampliando o funding para o mercado imobiliário”, promovido pela Abecip (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança) em 2 de junho. Para Mendonça Barros, o crescimento da renda do brasileiro justifica a forte demanda, mas há uma série de fatores macroeconômicos que ajudam a eliminar o risco de um eventual crescimento artificial dos preços.

De acordo com estudo desenvolvido em 2010 pela MB Associados, a pedido da Abecip, “a economia brasileira hoje segue em trajetória sustentável, sem riscos macroeconômicos de curto prazo relevantes. (…) a perspectiva é de continuidade de crescimento da economia para os próximos anos, com taxa média de expansão do PIB entre 4,5% e 5% até 2015″. O estudo aponta que não há sinais de mudança política ou econômica que implique em maior liberalização financeira ou conduza a taxas de juros excessivamente baixas.

A forte regulação do sistema financeiro do país seria uma razão para confiar na solidez do cenário econômico. “Há uma grande quantidade de informações que o setor bancário precisa repassar para o BC [Banco Central], o que garante que situações de risco sistêmico não se formem com facilidade”. Além disso, o grau de alavancagem dos financiamentos imobiliários ainda é baixo, comparado a outros países, e o mercado secundário ainda é incipiente. O estudo cita o caso dos CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários), cujo estoque não passa de 12% total de crédito imobiliário, enquanto nos Estados Unidos a securitização correspondia à quase totalidade do financiamento.

O estudo ressalta ainda as altas taxas de juros do Brasil. As bolhas de preços de ativos, em geral, aparecem em situações onde a liberalização financeira leva a taxas reais de juros negativas ou muito baixas. Nesse sentido, “a Selic ainda é cara para o tomador e deveríamos ter vários anos seguidos de custo do dinheiro baixo para fornecer espaço para o crescimento de outros preços de ativos”, afirma o texto do estudo.

Por fim, a oferta de imóveis normalmente demora para alcançar a demanda, já que se trata de bens que levam tempo para serem construídos. Num momento em que a demanda brasileira por imóveis é maior que a oferta é natural que os preços sejam pressionados.

Veja a íntegra do estudo aqui.





Mercado se articula em busca de fontes alternativas de recursos

27 05 2011

(Buildings News – 26/05/11)

Em um cenário relativamente confortável, com economia aquecida, ganhos reais e em fase de forte expansão, o mercado brasileiro de crédito imobiliário está se articulando para atrair novas fontes de recursos para a produção e aquisição de imóveis.

Uma das alternativas de funding de longo prazo, em discussão com autoridades monetárias, é o lançamento de covered bonds, um mecanismo de captação de recursos para investimentos no setor imobiliário, com larga experiência na Europa.

“O covered bond talvez seja a alternativa para atrair os fundos de pensão para o financiamento imobiliário e se juntar aos mecanismos já existentes, como a poupança, o FGTS e a securitização, com vistas a manter o ritmo atual de crescimento acelerado no financiamento imobiliário”, diz Felipe Pontual, diretor executivo da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip).

Não se espera um rápido esgotamento das fontes atuais de recursos, principalmente do sistema brasileiro de poupança. É apenas uma precaução, avalia a Abecip. Afinal, só em março último, pela primeira vez no ano, a poupança registrou depósitos maiores que as retiradas, com captação líquida positiva de R$ 416 milhões. O total de depósitos de poupança nos agentes de crédito imobiliário, em março, atingiu a marca de R$ 304,7 bilhões, o que representou um aumento de 17% em relação ao mesmo mês de 2010.

É um arsenal de recursos ainda longe de drenagem total, especialmente quando se olha o que foi efetivamente realizado para a construção imobiliária. Em março, as operações de financiamento imobiliário com recursos das cadernetas de poupança atingiram R$ 6,21 bilhões, a melhor marca na história do sistema, com aumento de 51% em relação ao mesmo mês do ano passado.

Entre abril de 2010 e março de 2011, o Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimos (SBPE) aplicou um total de R$ 62,2 bilhões (63% a mais que no período anterior). Foi suficiente para financiar a construção de 451 mil unidades, ou seja, 39% mais do que nos 12 meses anteriores.

“Isso demonstra que o bom desempenho do crédito imobiliário está se mantendo em 2011″, comenta Pontual. “Mas ainda há muito para crescer. Vamos precisar de recursos complementares aos da poupança para manter esse ritmo acelerado de crescimento do financiamento imobiliário, que foi de 65% em 2010 e deverá atingir 51% este ano”, adianta ele.

Segundo o Sindicato da Habitação do Estado de São Paulo (Secovi-SP), as discussões sobre novos mecanismos de financiamento imobiliário estão apenas começando em razão de projeções menos otimistas. A indústria não teme prejuízos futuros para a construção imobiliária, “mas há quem acredite que esses recursos vão se esgotar a partir de 2013. Esse tempo está muito longe, porém estamos nos antecipando ao debate, para caso de necessidade”, comenta Celso Petrucci, economista-chefe do Secovi.

Na esfera governamental, o debate também é incipiente. O Ministério da Fazenda confirma a intenção do governo de aprofundar a questão da securitização como alternativa de financiamento de longo prazo para empréstimos imobiliários. “O governo tem interesse em apoiar esse movimento e avalia que vários instrumentos que colocou no mercado para incentivo à securitização funcionaram bem, embora tenham demorado em tomar corpo”, comenta Pablo Fonseca, secretário-adjunto de política econômica do ministério.

Fonseca adianta que o governo iniciou discussões com o Banco Mundial para desenvolver estudos sobre o covered bond, em estudo pelo mercado financeiro do Brasil. “As conversas avançaram bastante, mas não há nada certo. O covered bond é apenas uma possibilidade”, indica.

A indústria de investimento imobiliário, contudo, não está parada e já está atraindo novas fontes de recursos, informa Petrucci, do Secovi. “É impressionante o crescimento do número de fundos de investimentos colocados no mercado brasileiro nos últimos tempos”, assinala o economista. De fato: o patrimônio da indústria de financiamentos imobiliários passou de R$ 4 bilhões em 2008 para R$ 8 bilhões no final de 2010. “Em apenas dois anos, a indústria cresceu mais do que em todo o período de 1994 a 2008″, afirma Cláudio Maes, gerente de acompanhamento de fundos estruturados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Em janeiro, a CVM registrou um total de 101 fundos imobiliários, o que, na avaliação da entidade, demonstra o poder de atração dessa alternativa de captação de recursos. Os financiamentos imobiliários foram regulados pela Lei 8668, de 1993, e regulados pela CVM em 1994. Mas esse mecanismo não tinha potencial atrativo porque o conceito era de que o investimento só poderia ser feito em tijolo, ou seja, em empreendimentos imobiliários, propriamente ditos – prédios, galpões e outros ativos físicos.

Mesmo com tratamento fiscal mais favorecido, essa política de investimento nunca decolou, de acordo com o executivo. Depois que a CVM reviu esse entendimento e ampliou a abrangência do investimento, a indústria cresceu e agora aceita outras linhas de investimentos, como também os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs). “Hoje, os fundos de investimentos estão inseridos no contexto de expansão do crédito imobiliário e poderão crescer mais ainda com medidas macroeconômicas do governo e com o esforço do governo de alavancar essa indústria”, diz Maes.





Fundos imobiliários, nova era

10 02 2010

(Valor Econômico) – 10/02/2010

Injeção de recursos de fundos de pensão e carteiras mais diversificadas, com mais de um imóvel ou com títulos do setor, vão impulsionar mercado em 2010.

O mercado de fundos imobiliários pode dobrar de tamanho em 2010. A grande expectativa gira em torno do dinheiro das fundações que deve ir para o setor – no mercado, estima-se entre R$ 3 bilhões e 4 bilhões os recursos disponíveis para a aplicação somente neste ano. Os 84 fundos imobiliários em operação hoje reúnem patrimônio líquido de R$ 5,2 bilhões. “As fundações serão os grandes fomentadores dessa indústria”, afirma uma fonte do setor.

Bom para o investidor pessoa física, que passará a contar com um senhor reforço para o desenvolvimento do mercado, que já mostra sinais de amadurecimento. Basta ver o movimento cada vez maior de lançamentos de fundos com mais de um ativo – de imóveis a títulos imobiliários -, gestão ativa e participação crescente de bancos de varejo na distribuição e estruturação. Citibank, Bradesco, Santander e Caixa voltaram a dar as caras.

Os números do mercado de fundos imobiliários.

Neste ano, a primeira oferta registrada na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) vai nessa linha. Trata-se do fundo Max Retail, que definiu como foco a exploração de empreendimentos comerciais destinados à exploração do segmento varejista, mas não descarta a chance de investir em papéis como certificados de recebíveis imobiliários (CRIs), letras hipotecárias (LHs) e de crédito imobiliário (LCIs).

O setor de fundos imobiliários está mudando de cara, afirma o advogado Carlos Eduardo Ferrari, do escritório Lobo & de Rizzo. O ingresso de dinheiro novo de fundos de pensão vai criar um mercado com um tamanho mais atraente, aponta. “Uma indústria como a de hoje, de R$ 5 bilhões, é muito pequena para oferecer liquidez e crescer.” Apesar da demanda crescente de investidores, há escassez de ofertas, diz. Mas, com o comprometimento do investimento por parte de fundos de pensão, haverá estímulo para a estruturação de carteira maiores, de pelo menos R$ 100 milhões, porque parte já estará garantida para os institucionais. “O fundo de pensão vai acabar dando respaldo para o crescimento das ofertas.”

Quem ganha com isso é o mercado todo, inclusive a pessoa física, já que o problema da falta de liquidez poderá ser minimizado. Os fundos imobiliários são fechados. Para o investidor sair da aplicação, só vendendo as cotas no mercado secundário, para outro investidor. E, das 84 carteiras, apenas 31 estão listadas em bolsa. “A entrada de fundos de pensão cria uma porta de saída para a pessoa física”, diz Ferrari. Ele destaca ainda o ganho de qualidade com a participação crescente das fundações. Segundo ele, os grandes fundos de pensão têm um processo de análise de investimento muito criterioso, além de cobrarem mais responsabilidade do gestor e administrador.

Fora isso, o potencial de investimento em fundos imobiliários para os próximos anos é enorme. A flexibilização pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) das regras de aplicação das fundações, com a Resolução 3792 de setembro do ano passado, abriu espaço para a aplicação de até 10% do patrimônio para essas carteiras. Foi criada uma rubrica específica para esse tipo de investimento.

Isso equivaleria a quase R$ 50 bilhões – o patrimônio da fundações está perto de R$ 500 bilhões, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp). Como não há mercado para absorver todo esse dinheiro, qualquer 1% já será significativo. Hoje, os fundos de pensão não têm nem 1% do patrimônio aplicado em fundos imobiliários, segundo uma fonte do mercado.

Esse interesse de investidores institucionais coincide com um mercado de fundos imobiliários em evolução. Não de tamanho, mas de estrutura e até de cultura dos participantes. “Hoje, o fundo imobiliário pode comprar tudo desde que o ativo seja imóvel ou tenha base imobiliária”, afirma a advogada Marina Procknor, do escritório Mattos Filho, Veiga Filho, Marrey Jr. e Quiroga.

A flexibilização veio no fim de 2008, com a publicação pela CVM da primeira revisão de regras do setor desde a origem, em 1994, e do ajuste no ano passado na legislação que estendeu a isenção de imposto de renda para pessoas físicas também para fundos que compram cotas de outras carteiras ou títulos isentos como o CRI e as letras. “Essa é uma mudança de conceito que vai impulsionar o mercado”, diz Marina.

O fundo imobiliário ficou com mais cara de mercado de capitais, afirma o diretor-executivo da RB Capital, Marcelo Michaluá. “Isso permitirá que mais pessoas acessem esse tipo de fundo, que tem o apelo da isenção para esse público, em ofertas pulverizadas.”

Culturalmente, o fundo imobiliário sempre foi de um imóvel só. Além de a antiga regra orientar o mercado para esse formato, o investidor precisava conhecer o empreendimento, entrar no imóvel, para se sentir confortável. Isso também já começa a mudar, destaca Marina. Além disso, a indústria criou um histórico que permite avançar para fundos diversificados e com gestão ativa.

O mercado, inclusive, coleciona experiências bem-sucedidas. Entre os destaques, estão fundos como o CSHG Brasil Shopping, que tem participação em cinco shoppings, o genérico CSHG Real Estate, com 62 imóveis comerciais na carteira, predominantemente lajes corporativas. No fim do ano passado, a Rio Bravo conseguiu a aprovação da maioria dos cotistas do Financial Center para alterar o regulamento do fundo, que só permitia investir no Edifício JK Financial Center, em São Paulo. O argumento apresentado para os cerca de 400 cotistas foi o de aproveitar as oportunidades no setor de lajes corporativas e escritórios nas regiões comerciais e, assim, diluir os riscos de vacância e até inadimplência de inquilinos.

Outro exemplo de sucesso foi a colocação da oferta, em dezembro, do fundo RB Capital Renda I. A demanda, que superou em 2,8 vezes a oferta de R$ 132 milhões em cotas, atraiu 1.172 pessoas físicas e um investidor institucional. A carteira já nasceu com um portfólio formado por sete imóveis, todos com contratos de locação de longo prazo fechados com grandes empresas, como AmBev, C&A, Magazine Luiza, entre outras. A oferta nova, liderada pelo Ourinvest, vai usar os recursos da primeira emissão, de R$ 70,15 milhões, para a compra de oito imóveis espalhados pelo país, já locados para a Lojas Americanas, Carrefour e Bom Preço.

Para Ferrari, fundos de um imóvel só serão cada vez mais raros. O mercado, acredita ele, caminha para carteiras setoriais. Os fundos de CRIs também terão papel relevante para o crescimento do setor, diz o advogado. E até podem liderar a evolução. Segundo fontes do mercado, há projetos de bancos e gestores como a RB Capital para lançar carteiras de R$ 200 milhões a R$ 300 milhões de patrimônio. Quanto maior a escala, melhor tende a ser a liquidez.

O ambiente atual é propício para fundos imobiliários. Para a pessoa física, o grande atrativo é a possibilidade de capturar o ganho da atividade imobiliária, que anda pujante no país, com a possibilidade de isenção de imposto sobre rendimento. Também segundo Ferrari, as pessoas têm procurado esse tipo de fundo por ele ter se mostrado resistente a crises. “Com a volatilidade, o fundo imobiliário é uma opção intermediária entre a renda fixa tradicional e a renda variável, com ótimo retorno.”





Um leque maior de opções em investimento imobiliário

28 11 2009

(Valor Econômico) – 11/11/09

Quando se fala em investimentos imobiliários, os investidores mais tradicionais ou desavisados resumem seu rol de possibilidades a duas situações. A primeira, comprar um apartamento ou imóvel comercial para alugá-lo. A segunda, adquirir um imóvel na planta e vendê-lo quando a construção estiver adiantada ou pronta, buscando-se, nesse caso, a valorização do bem. Porém, a cada dia, novas modalidades de investimento no setor imobiliário se consolidam e passam longe da burocracia e pouca liquidez da compra e venda de imóveis – que pode colocar o investidor em uma posição ruim em caso de necessidade urgente de recursos, obrigando-o a vender o imóvel por preços abaixo do mercado para gerar caixa. As variações disponíveis começam pelos fundos imobiliários, que são fechados e funcionam de forma semelhante às ações das empresas de capital aberto negociadas em bolsa. Quando o investidor quer adquirir cotas ou vender parte ou todo o investimento, basta negociar na BM&FBovespa. Hoje, mais de 20 desses fundos são negociados na bolsa com boa liquidez e distribuição mensal de expressivos dividendos.

A razão da distribuição de dividendos constante se deve ao fato de que a maioria dos fundos são também proprietários de imóveis geradores de renda frequente, como shopping centers, edifícios comerciais, hospitais, centros de distribuição e logística, entre outros. Características que devem ser observadas pelo investidor são a isenção de imposto de renda para pessoas físicas e a possibilidade de investir em grandes empreendimentos, com fiscalização da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e administração obrigatória por instituição financeira.

Outra modalidade são os certificados de recebíveis imobiliários (CRIs), títulos de renda fixa de longo prazo emitidos por companhias securitizadoras, com lastro em créditos imobiliários, que pagam juros ao investidor. Os lastros mais comuns de um CRI são os créditos de contratos de compra e venda com alienação fiduciária do Sistema de Financiamento Imobiliário (SFI), de contratos de locação (“built-to-suit”) ou os créditos gerados por escrituras de direito real de superfície.

Esses certificados são de longo prazo com rentabilidade acima das demais alternativas de renda fixa, isenção de IR para pessoas físicas e alternativa aos investimentos imobiliários tradicionais citados no início, reduzindo os custos administrativos de vacância e reformas.

Antes, as emissões de CRIs destinavam-se apenas a investidores qualificados, com aplicação mínima de R$ 300 mil. Porém, há cerca de um ano, a CVM modernizou as regras dos fundos imobiliários permitindo que eles invistam em outros ativos de lastro imobiliário, como os CRIs. A nova regra proporcionou o acesso de investidores de todo o porte a esses títulos por meio dos fundos. Novos fundos imobiliários que serão lastreados em CRIs estão em fase de lançamento ou de aprovação na CVM e muitos deverão vir por aí.

Por fim, chegamos aos Cepac, que são os certificados de potencial adicional de construção, instrumentos de financiamento de obras-públicas. Por meio deles, construtoras podem comprar o direito outorgado pelo poder municipal de construir além dos limites normais em áreas que receberão ampliação da infraestrutura urbana. Um leilão recente realizado pela Prefeitura Municipal de São Paulo envolveu nove corretoras representando dezenas de empresas do setor, resultando em mais de R$ 250 milhões para o município.

Os Cepac, mesmo sendo procurados majoritariamente por empresas de incorporação e construção, podem ser adquiridos pelo investidor. O Cepac constitui uma parceria de sucesso entre a prefeitura e a iniciativa privada, promovendo a viabilização financeira de intervenções que exigem enormes investimentos. Prova disso são as operações urbanas consorciadas Água Espraiada e Faria Lima, que estão sendo executadas sem depender de recursos do orçamento do município e apresentam disponibilidade de caixa para novos investimentos. Este formato vem sendo analisado por outras grandes cidades e deve ser adotado para viabilizar os projetos previstos para a Copa do Mundo e a Olimpíadas.

Esse tipo de certificado acaba por influenciar as outras modalidades de investimento imobiliário – por exemplo, a incorporadora de um shopping pode comprar os direitos para aumentar sua área – e também mostra como o mercado de investimentos imobiliários cresce, se diversifica e se consolida no Brasil.

Cabe às instituições financeiras, construtoras, incorporadoras, imobiliárias e demais instituições interessadas no desenvolvimento desse mercado o trabalho de educar e conquistar mais investidores.








Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 133 other followers