Caderneta de poupança tem vida curta no financiamento da habitação

23 01 2012

(Gazeta do Povo) – 21/01/12

Com o crescimento veloz da concessão de empréstimos para a compra de imóveis, fonte da poupança vai secar e mercado terá de buscar opções

Em 2011, a captação líquida das cadernetas ficou em R$ 14,2 bilhões. Enquanto isso, as emissões de novos financiamentos imobiliários chegaram perto de R$ 80 bilhões no ano passado – os números definitivos ainda não foram divulgados. A diferença entre os dois números deixa claro que há um descompasso entre os empréstimos do Sistema Financeiro da Habitação (SFH) e sua principal fonte de recursos – uma situação que coloca em risco a oferta de imóveis para a classe média brasileira. Com base em dados como esse, observadores estimam em dois anos a vida útil da caderneta como origem de recursos para empréstimo nesse segmento. “O saldo dos financiamentos cresce, em mé­­dia, 40% ao ano. A poupança cresce 10% ao ano. Em algum momento, lá por 2013, as linhas vão se cruzar”, diz Fernando Baumeier, superintendente de negócios imobiliários do banco Santander.

Analisando dados em uma perspectiva mais longa, o descompasso fica ainda mais claro. Nos últimos dez anos, o saldo das cadernetas subiu 238%, contra um aumento de 4.110% na concessão de financiamento para a habitação. Pela regra atual, os bancos precisam aplicar em habitação 65% do saldo das cadernetas de poupança.

O governo federal ainda pode dar algum fôlego adicional à poupança, caso aceite diminuir ou mesmo extinguir a retenção compulsória dos depósitos em caderneta. Atualmente, os bancos precisam manter intocados 20% dos recursos dos poupadores. Isso equivale a perto de R$ 65 bilhões, volume equivalente aos contratos assinados de janeiro a outubro do ano passado. Essa, entretanto, é uma possibilidade que o Banco Central hesitaria em aceitar. “Isso teria consequências em termos de política monetária”, explica o economista Fabio Araújo, sócio da consultoria Brain Bureau de Inteligência Corporativa. “Aumentaria a quantidade de dinheiro em circulação, o que resultaria em inflação”, diz. Ficam fora dessa conta os financiamentos para famílias com renda inferior a três salários mínimos, cujos financiamentos estão baseados no Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS).

Alternativas
Fontes alternativas de recursos, formatadas e regulamentadas há quase 15 anos, estão ganhando espaço e despontam como o caminho para consolidar o crescimento do mercado. A solução mais provável é a que já vem se desenhando: uma maior participação dos bancos e do mercado de capitais no financiamento imobiliário. Isso já vem ocorrendo, por meio de três tipos diferentes de instrumentos: os Cer­tificados de Recebíveis Imo­biliários (CRIs), as Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e os Fundos de Investimento Imo­biliário (FIIs). A regulamentação desses instrumentos já é relativamente antiga – ocorreu em 1997, com a lei que criou o Sis­tema Financeiro Imobiliário –, mas seu crescimento tem sido gradual, dependendo do apetite dos investidores que irão absorver os papéis.

Baumeier, do Santander, defende ainda a criação de um novo papel, baseado na experiência europeia de financiamento à habitação. Lá, a maior fonte de recursos vem dos covered bonds, títulos de longo prazo que contam com a garantia do banco emissor e dos imóveis financiados. Esses títulos, já conhecidos como “letras financeiras imobiliárias” e apelidadas de “CDB da habitação”, não são previstos hoje pela lei brasileira, mas fazem parte de estudos das instituições e do Banco Central.

Construtoras não veem esgotamento em breve
A tese do esgotamento da poupança não é bem aceita por um grupo importante, a indústria da construção. Segundo a tese vigente no setor, a regulamentação atual permite que os bancos cumpram a regra dos 65% mediante o uso de outros mecanismos. “O banco pode cumprir a exigibilidade de aplicar os 65% em habitação mantendo em carteira papéis lastreados em aluguel de lojas em shopping center, por exemplo”, diz José Carlos Martins, vice-presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção. “Esse e outros mecanismos tiveram sua utilidade no passado, alguns tiveram até o nosso apoio. Mas precisam ser revisados, e o que não servir para o momento atual deve ser extinto”, observa.

Martins concorda que o funding (ou seja, a captação de recursos) via poupança vai acabar um dia, mas é cético em relação às previsões mais alarmistas. “Não vai ser no prazo curto que se anuncia hoje em dia”, comenta. Mas quanto tempo os recursos da poupança vão durar? “Sinceramente, eu não sei. Essa é uma informação que só os bancos podem ter”, afirma.

Alternativa inclui “reciclagem” de dívida
Os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) despontam como o caminho mais promissor para o financiamento da habitação. Eles são uma forma de securitização – ou seja, de “empacotar” valores que serão recebidos no longo prazo por uma empresa, transformando-os em títulos negociados no mercado. Funciona assim: uma incorporadora ou banco vende para uma instituição especializada as contas que seus clientes pagarão nos próximos anos. Essa instituição securitizadora reúne conjuntos que podem variar de 50 a 5 mil contratos e emite papéis, cujos rendimentos são garantidos pelas mensalidades a serem pagas. Esses papéis – tecnicamente, títulos de renda fixa – são vendidos a investidores.

Desde 1999, emissões de CRIs já levantaram R$ 33 bi­­lhões em recursos. “A securitização está pronta e é adequada para complementar as fontes de recursos para habitação no Brasil”, diz Fernando Cruz, diretor de Relações com Inves­tidores da Brasil Securities, empresa que lidera as emissões no país, com R$ 9,3 bilhões em CRIs.





Cresce o interesse por cotas de fundos imobiliários

29 05 2009

(Agência Estado) – 05/09

Com Selic em queda, aplicação é alternativa à renda fixa, combinando retorno atraente e previsibilidade nos ganhos

A queda na taxa Selic promete colocar de pernas para o ar o modo como os brasileiros lidam com as suas reservas de longo prazo. Rendimentos apetitosos em relação à inflação, a que tantos investidores se acostumaram ao longo de anos, são uma facilidade prestes a desaparecer no horizonte da Selic de um dígito. Ao mesmo tempo, muitos investidores, especialmente os pequenos que amargaram fortes perdas na Bolsa em 2008, ainda demonstram receio em elevar sua fatia de risco em renda variável. Nesse contexto, os Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs) são uma opção que reúne características híbridas para os mais cautelosos, hoje insatisfeitos com os ganhos da renda fixa, mas ainda indispostos a se expor de peito aberto à Bolsa.

“No fundo imobiliário, os dividendos recebidos pelo cotista correspondem à receita de aluguéis do empreendimento ao qual está vinculado que, naturalmente, varia ao longo do tempo”, explica o diretor de FIIs da Rio Bravo Investimentos, Martim Fass, que mantém em seu portfólio fundos como o do Pátio Higienópolis, lançado há nove anos, quando o shopping de mesmo nome estava em fase final de construção em São Paulo.

clip_image001_0002Assim como a caderneta de poupança, os fundos imobiliários – também percebidos como instrumento de preservação, não de expansão do patrimônio – têm a vantagem da isenção de Imposto de Renda para a pessoa física, desde que possuam pelo menos 50 cotistas, sejam negociados na Bolsa e que o investidor tenha, no máximo, 10% das cotas. Hoje, existem 27 fundos com cotas negociadas na Bolsa, dos quais 18 apresentam liquidez, segundo Fass.

Além da possibilidade de isenção de Imposto de Renda, a queda da taxa Selic reforça o poder de atração desses fundos junto a investidores focados na previsibilidade de rendimentos, afirma Rodrigo Machado, diretor da Brazilian Mortgages, empresa especializada na administração e estruturação de FIIs. Os contratos de aluguel costumam ser reajustados pelo IGP-M e a distribuição entre os investidores é proporcional ao número de cotas. Os rendimentos costumam ser pagos mensalmente – a regulamentação estabelece o semestre como prazo máximo para depósito.

Segundo Machado, atualmente os fundos que oferecem as melhores rentabilidades têm mais investidores dispostos a comprar cotas de seus empreendimentos do que oferta desses papéis no mercado secundário. No fundo Pátio Higienópolis, por exemplo, apenas 3% das cotas mudaram de mãos nos últimos 12 meses – nos fundos com mais negociações, esse porcentual pode chegar a 20%. O resultado é que, nos fundos mais competitivos, o prêmio pago pela aquisição das cotas ficou mais caro quando o papel é transferido de um investidor para outro.

No fundo Almirante Barroso, vinculado a um edifício comercial alugado para a Caixa Econômica Federal no Rio de Janeiro, a cota foi lançada em 2003 por R$ 1 mil e rentabilidade de 1,51% ao mês. Hoje, a mais recente oferta de compra foi registrada por R$ 1.998,00, com rentabilidade mensal de 0,76%. “Mesmo com o aumento do prêmio, é difícil encontrar quem queira vender”, diz Machado. Vale lembrar que, na venda da cota, existe tributação de IR equivalente a 20% do ganho de capital, independentemente da participação que o cotista tenha no fundo.

Investidor satisfeito
“Continuo comprando cotas dos cinco fundos em que tenho participação. É um excelente negócio, não apenas pelos rendimentos que proporciona, mas também para ampliar o capital investido”, diz o investidor Rubens Malta Campos, que vem conseguindo rentabilidades de 1,4% a 1,6% ao mês, isentas de IR, e em um de seus fundos viu o valor da cota triplicar desde a emissão inicial. “O fundamental é escolher bem e comprar sempre que possível”, ensina.

É importante lembrar também que a taxa interna de retorno (um cálculo que ajuda a identificar o custo de oportunidade do investimento) varia conforme o momento de ingresso no fundo. Assim, convivem, lado a lado, participantes mais antigos, que encontraram taxas mais elevadas pelo valor investido por cota, e investidores mais recentes, que podem ter desembolsado mais em troca de um rendimento unitário menor – de qualquer forma, é preciso ter em mente o valor real investido, não o nominal, o que envolve o efeito da inflação.

Rentabilidade de FIIs

Rentabilidade de FIIs

No fundo Europar, que reúne seis imóveis de logística no Rio e em São Paulo, a cota foi lançada há cinco anos por R$ 100. Hoje, é negociada a R$ 174, com rentabilidade de 0,78% ao mês, líquida de IR. “Se considerar o CDI hoje a 0,84% ao mês, e colocar a alíquota mínima de 15%, o rendimento líquido fica em 0,71%. E essa diferença tende a aumentar à medida que a Selic for cortada”, diz Josilda de Oliveira, gestora do Europar, o fundo imobiliário administrado pelo Banco Banif.

No momento, a instituição estuda uma nova emissão do fundo, de R$ 50 milhões a R$ 100 milhões, que ainda precisa ser submetida à assembleia de cotistas e autorizada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). “Estamos analisando novos ativos”, diz Josilda.

Fundos de incorporação
Os fundos variam não apenas conforme a natureza dos ativos – galpões, hospitais, hotéis, torres de escritório ou shoppings – mas também ao estágio de desenvolvimento do negócio. No caso dos fundos de incorporação, relacionados à construção de empreendimentos, a taxa de juros oferecida ao investidor na emissão inicial costuma oferecer um prêmio mais atraente, em razão de as incertezas serem bem superiores aos dos chamados fundos de renda, no qual o empreendimento pronto já produz receitas.

“O lançamento de fundos de incorporação costuma se destinar a investidores qualificados, que têm mais informação e compreendem melhor os riscos envolvidos, não desprezíveis, como a possibilidade de atraso nas obras ou mesmo de o projeto não obter todas as licenças ambientais”, diz Fass, da Rio Bravo.

Nos fundos de renda, por outro lado, os riscos são os de inadimplência ou de uma taxa de vacância que afete a rentabilidade do imóvel ao longo do tempo. Nessas hipóteses, fundos associados a shoppings oferecem risco potencialmente menor, pela pulverização das fontes pagadoras, se comparados, por exemplo, a um prédio comercial que esteja alugado apenas a uma empresa – embora, neste caso, os contratos costumem ser de longo prazo, o que também mitiga o risco de vacância.

O administrador é obrigado a distribuir, no mínimo, 95% do fluxo de caixa do empreendimento – o restante é usado para compor fundos de reserva, cobertura de despesas de manutenção e remuneração do administrador. No caso de shoppings, por exemplo, os contratos de aluguel costumam estabelecer um determinado valor mensal, acrescido de um percentual do desempenho das vendas em datas especiais, como Dia das Mães e Natal – neste último caso, a diferença é tão significativa que chega a representar um aluguel a mais.








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