Acuado por inflação e dívidas, brasileiro “assalta o porquinho”


(Gazeta do povo) – 21/06/11

As retiradas de dinheiro da poupança superaram os depósitos em mais de R$ 3 bilhões nos últimos dois meses. Parte das aplicações pode estar rumando para títulos de renda fixa

Há dois meses os brasileiros vêm retirando mais dinheiro da poupança do que aplicando, segundo dados do Banco Central (BC). Uma combinação de fatores pode explicar o movimento de retirada: a alta da inflação, o endividamento das famílias e o aumento da Selic, a taxa básica de juros. Especialistas afirmam que é difícil poupar quando se está endividado e os preços, subindo. A melhor poupança que os brasileiros teriam a fazer neste momento seria mesmo pagar suas dívidas.

As retiradas de dinheiro das cadernetas de poupança superaram os depósitos em R$ 1,301 bilhão, em maio, segundo dados do BC. Em abril, o resultado havia sido ainda mais negativo, com “saída líquida” de R$ 1,762 bilhão.

A retirada maior nesse período pode ser explicado pelo forte consumo da classe média. “As contas de fim de ano podem estar aparecendo agora e, como as famílias estão endividadas, elas podem estar recorrendo à poupança para ajudar a quitar as dívidas”, analisa Solange de Lima Barbosa, professora de Ciências Econômicas da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).

Além disso, especialistas explicam que, com a inflação em alta, fica mais difícil para os consumidores conseguirem poupar. “Há a possibilidade de alguns brasileiros estarem sacando da poupança para complementar o orçamento familiar: o preço no supermercado subiu e os salários não acompanharam esta alta”, salienta José Pio Martins, economista e reitor da Universidade Positivo (UP). “A poupança, mesmo rendendo 6% ao ano mais a TR [Taxa de Referência], é muito apreciada pelos brasileiros porque não há imposto sobre ela. Com inflação acima de 6%, porém, a poupança não é atrativa. Ela vale a pena quando a inflação está baixa”, afirma.

Rumo ao juro
Uma saída para fazer o dinheiro render o mesmo que em períodos de inflação em alta são os títulos indexados à taxa Selic, que está em 12,25% ao ano. “Com o aumento constante da taxa básica de juros, a renda fixa tem tido uma melhora. Por isso, parte dos saques da poupança pode estar indo para aplicações com rentabilidade maior. Inflação e Selic altas são um desestímulo para a poupança”, ressalta o diretor econômico da Associação Nacional de Executivos de Finanças (Anefac), Roberto Vertamatti.

Vantagens
Apesar de estar menos atraente por causa da inflação alta, em alguns casos a poupança ainda é mais vantajosa que outros investimentos. O economista da Anefac explica que aplicações de no máximo R$ 300 mensais ainda podem ser feitas na poupança. “Se for mais do que isso, fica complicado para ter rentabilidade. A poupança é vantajosa para o pequeno poupador por não cobrar tributos, além de oferecer garantias. Caso algo aconteça com o banco, o governo garante o dinheiro. Essas razões qualificam a poupança como boa aplicação”, avalia Vertamatti.

A professora da PUCPR acredita que nos próximos meses haja a possibilidade de as aplicações voltarem a ser maiores que as retiradas. “As pessoas podem sair da experiência do endividamento com uma lição: controlar o consumo no segundo semestre e voltar a fazer poupança aos poucos. O brasileiro está em um momento de compras simbólicas, por estar tanto tempo privado de alguns itens que agora pode comprar. Aos poucos, porém, os consumidores estão ouvindo a orientação de tentar diminuir as dívidas e poupar”, afirma Solange.

Da caderneta para o mercado imobiliário
Além dos que estão raspando a poupança para pagar dívidas, enfrentar a inflação ou aplicar na renda fixa, há também quem esteja usando o dinheiro da caderneta para investir no mercado imobiliário. É o caso do designer gráfico Juliano Domingues, que desde os 14 anos costuma guardar alguma quantia na poupança. Depois de tanto tempo aplicando o dinheiro, Domingues encontrou a hora certa de gastar. “Minha poupança ajudou a pagar meu estudo quando entrei na faculdade. Depois de formado e trabalhando, voltei a guardar dinheiro”, conta.

Entretanto, o designer começou a perceber que a sua aplicação não se valorizava com a mesma velocidade do mercado imobiliário. “Ofereceram para mim o apartamento em que eu morava por R$ 80 mil e, três anos depois, a proposta foi de R$ 140 mil. Foi aí que percebi que a única vantagem que tinha com a poupança era deixar o dinheiro guardado. A lucratividade não aumentava como em outras opções de investimento.”

Por essa razão, Domingues entrou com o dinheiro da poupança na entrada de uma sala comercial em um prédio na planta e financiou o restante do valor. “Deixei de ser conservador. Meu imóvel fica pronto só em 2013, mas já está à venda e posso vender caso algum comprador aceite o valor que quero. Do contrário, vou alugar a sala e usar o dinheiro para pagar o financiamento. Repassei a poupança para o mercado imobiliário e já estou satisfeito”, analisa o designer.

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