Tecnisa redesenha imóveis para incorporar hábitos legados da quarentena


(Estado de S.Paulo) – 21/05/20

A construtora paulistana Tecnisa, do fundador e acionista Meyer Joseph Nigri, começou a redesenhar seus empreendimentos imobiliários residenciais para incorporar as mudanças de hábitos da população com a pandemia do coronavírus. Até o momento, já foram redesenhados três projetos, com previsão de lançamento para setembro, novembro e dezembro deste ano, antecipou a empresa para o Broadcast.

A companhia avalia que legados da crise, como o trabalho em casa, o maior distanciamento entre as pessoas e o crescimento do comércio eletrônico, exigirão adaptações nos projetos. E a conclusão foi que os novos conceitos serão visíveis nos apartamentos, nas áreas comuns dos prédios e até na localização. A incorporadora não revela os detalhes destes projetos para não alertar a concorrência, mas topou abrir para o Broadcast quais os principais conceitos em jogo.

Escritórios
O primeiro deles aborda o home office, que ganhou popularidade instantânea na quarentena. “Enxergamos o home office como algo que veio para ficar. E isso terá um impacto grande sobre os produtos imobiliários”, afirma o presidente executivo da Tecnisa, Joseph Meyer Nigri.

Essa nova rotina de trabalho fará com que os apartamentos de alto padrão tenham um espaço reservado na planta para o escritório, diz Joseph. Já nos empreendimentos para clientes de renda média e baixa, o escritório ficará nas áreas comuns. “Nos produtos menores, o sujeito não pode pagar por um escritório no seu apartamento, mas certamente vai querer ter essa opção na área comum”, afirma.

O escritório também tende a ganhar ares mais “gourmet” daqui em diante, assim como já aconteceu com o salão de festas e a varanda no passado. Essa “gourmetização” envolverá mais metros quadrados, mobílias, estações de trabalho e divisórias. Sem contar o maior destaque nas campanhas publicitárias dos empreendimentos.

Localização
A prática do home office também terá uma segunda implicação: a localização dos prédios. “Quanto menos vezes por semana o sujeito tem que ir ao escritório, mais disposto estará para morar longe”, avalia Joseph. “Bairros mais calmos e mais arborizados nos arredores serão mais aceitos pelos clientes. Então, já temos direcionado esse olhar para os terrenos que nós prospectamos”. Com o metro quadrado tem valor menor nesses locais, esses imóveis poderão ter um preço mais acessível ou uma planta maior, complementa.

Joseph vê potencial também para o home office fomentar o mercado de segundas moradias, formadas por casas na praia, no campo ou loteamentos fechados. “Se a pessoa só vai ao trabalho uma vez por semana, pode pensar em morar fora da cidade, num lugar mais agradável. Claro que isso também depende da rotina dos outros membros da família, mas pode fazer sentido”, estima.

Logística
Há um outro fenômeno que a Tecnisa tem olhado de perto: o comércio eletrônico. Com o crescimento dessa prática, surge a necessidade do redesenho das portarias para atender ao fluxo crescente de entregas, bem como a reserva de uma sala nos edifícios para que sirvam como local de triagem e estocagem das mercadorias. É uma nova logística.

“Os prédios terão que ser repensadas para atender desde o delivery de pizza até a entrega de uma prancha de surf. Os locais têm que estar preparados sobre como recebe essa mercadoria, como higieniza e onde armazena”, afirma o presidente da construtora.

Joseph é filho de Meyer, fundador da Tecnisa. O jovem executivo ingressou na Tecnisa em 2002 como estagiário. Passou por várias funções lá dentro e cursou o programa de gestão para donos de negócios e executivos do alto escalão da Harvard Business School antes de chegar à presidência.

Assim que o coronavírus colocou a população em quarentena, Joseph e as equipes da Tecnisa passaram a estudar possíveis implicações do novo comportamento sobre as configurações dos produtos. Para isso, a construtora realizou pesquisas junto aos consumidores e fez várias sessões de brainstorm com funcionários das áreas de marketing, projetos, engenharia e novos negócios.

A Tecnisa é um nome forte em iniciativas no campo da inovação e do marketing. Durante a febre das criptomoedas poucos anos atrás, a construtora foi a primeira a aceitar bitcoin como pagamento pelos imóveis. Alguns meses depois, ela não havia vendido um apartamento sequer em troca de bitcoins, mas o ineditismo da iniciativa gerou uma mídia espontânea gigantesca e fez com que sua marca aparecesse em dezenas de sites de notícias na época.

Por enquanto, o brainstorm sobre o legado da quarentena é tratado como uma grande aposta na Tecnisa, e a resposta sobre o sucesso ou fracasso desses investimentos ainda vai levar alguns anos. A maioria das concorrentes consultada pelo Broadcast acredita que mudanças nos produtos é algo que ainda vai demorar para acontecer, pois os novos hábitos da população surgiram há pouco tempo e não está claro se vão se firmar ou não. “Nós não sabemos se isso vai acontecer ou não. Ainda estamos fazendo um pouco de ‘futurologia’, mas se der certo será uma vantagem sermos os pioneiros”, comenta Joseph.

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