Etiquetagem energética classifica edificações


(Arcoweb- Heloisa Medeiros) – 2009

O Brasil já pode ser considerado um país de ponta em relação à busca por edificações sustentáveis. A Eletrobrás e o Inmetro lançaram, no início de julho, em São Paulo, a Etiqueta de Eficiência Energética para edifícios comerciais, de serviços e públicos. As primeiras etiquetas já foram entregues a cinco prédios.

A Etiqueta de Eficiência Energética em edificações faz parte do Programa Brasileiro de Etiquetagem (PBE) e foi desenvolvida em parceria entre a estatal Eletrobrás e o Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro). O objetivo é incentivar a iluminação e a ventilação naturais, reduzindo o consumo de energia elétrica. Para que os edifícios recebam a classificação, os projetos devem ser analisados e contemplados com etiquetas de A a E, de acordo com o consumo de energia.

  

(1) Níveis de classificação de eficiência energética para edificações, abrangendo envoltória, iluminação e condicionamento de ar.
(2) Limites definidos pelo inmetro em condicionadores de ar do tipo split, para cada nível de eficiência

“A iniciativa de criar soluções sustentáveis para as construções é mundial, e gradualmente o Inmetro está adotando ações nesse sentido. O grande desafio da eficiência energética nas edificações é garantir a qualidade do ambiente interno, sem prejudicar o dia a dia dos usuários e privilegiando a economia de energia. As construtoras que aderirem ao programa terão a certificação como diferencial competitivo”, disse o presidente do Inmetro, João Jornada, presente ao evento de lançamento do selo Procel Edifica, realizado na sede do Sinduscon/SP. “A adesão é voluntária e abrangerá, inicialmente, apenas as construções públicas e de serviços. Mas, no futuro é provável que os prédios residenciais também venham a ter seus projetos avaliados e classificados”, afirmou Alfredo Lobo, diretor da Qualidade do Inmetro. Em cada um dos níveis, os prédios são classificados de A (o maior nível de eficiência energética) a E. “A diferença de consumo entre as classificações pode representar economia de até 40%”, ele completou. Inicialmente, a regulamentação foi criada para os edifícios comerciais de área superior a 500 metros quadrados, explicou Frederico Souto Maior, técnico do Programa Nacional de Eficiência Energética em Edificações (Procel Edifica), da Eletrobrás. Para receber a etiqueta, as edificações serão avaliadas em três níveis de eficiência: envoltória (fachada), sistemas de iluminação e de condicionamento de ar. O objetivo é aproveitar de maneira mais eficiente as tecnologias passivas, tais como a iluminação e a ventilação naturais, além de incentivar o uso racional de água e de energia solar. Inicialmente implantada de forma gradual e voluntária, a etiquetagem passará a ser obrigatória no futuro. A validade da etiqueta é de cinco anos, prazo em que os edifícios certificados deverão passar por novas avaliações do Inmetro.

A metodologia aplicada para a certificação foi desenvolvida por convênio entre a Eletrobrás, por meio do Procel Edifica, e o Laboratório de Eficiência Energética em Edificações (LabEEE), da Universidade Federal de Santa Catarina, com a participação de uma comissão formada por membros do Inmetro, do Centro de Pesquisa de Energia Elétrica (Cepel), do Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Confea), do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), da Caixa Econômica Federal (CEF), de universidades e de associações de fabricantes de materiais de construção. Depois de aprovada pelo Comitê Gestor de Indicadores e Níveis de Eficiência Energética (CGIEE), do Ministério de Minas e Energia, a metodologia foi submetida a consulta pública, tendo incorporado sugestões encaminhadas por representantes de diversos setores da construção civil e da sociedade em geral. Como subsídio à regulamentação, foi gerado um conjunto de publicações que orientam sobre o regulamento técnico da qualidade do nível de eficiência energética dos edifícios, o regulamento de avaliação da conformidade e o manual para aplicação desses regulamentos.

Redução no consumo
As edificações residenciais, comerciais e públicas são responsáveis por aproximadamente 45% do consumo de energia elétrica no Brasil, advindo da iluminação artificial e da climatização de ambientes. “Apostar na chamada arquitetura bioclimática, escolher materiais e equipamentos que valorizem o uso inteligente da energia e optar por tecnologias construtivas que privilegiem a redução de gastos com eletricidade são medidas desejáveis”, acrescentou Solange Nogueira, chefe da Divisão de Eficiência Energética em Edificações da Eletrobrás. Segundo ela, a economia de eletricidade conseguida com a arquitetura bioclimática pode chegar a 30% em edifícios já existentes, se eles passarem por readequação e modernização, e a 50% em prédios novos, que contemplem essas tecnologias desde o projeto. A agência da CEF em Curitiba, em comparação com as demais unidades do banco no país, apresenta redução de 24% no consumo de energia e de 65% no de água, desde a inauguração, há seis meses.

Segundo Marcelo Takaoka, presidente do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS), a importância do projeto é enorme para a eficiência energética do edifício. “As possibilidades de reduzir o consumo de energia nas edificações passam tanto pelas soluções simples, como o sombreamento das fachadas por árvores no entorno, para evitar o calor, como por outras mais técnicas, que incluem estudos de insolação, materiais que não absorvam calor, vidros eficientes, iluminação e ventilação naturais, entre outras”, ele explicou. Takaoka acredita que, dentro de alguns anos, as construtoras que não aderirem à conservação energética ficarão fora do mercado. “O menor custo de operação e o aumento da vida útil do imóvel compensarão largamente o pequeno custo a mais da construção sustentável”, ele previu.

“Agora, o desafio é disseminar a etiquetagem dos edifícios em todo o país”, acredita o presidente do Sinduscon/SP, Sérgio Watanabe. Ele considera a avaliação de eficiência energética, explicitada pela etiquetagem, uma ferramenta didática. “Tal como já acontece com a etiqueta dos eletrodomésticos, o comprador passará a compreender que o pequeno custo a mais, pago em um imóvel ambientalmente sustentável, será largamente compensado, em três ou quatro anos, pela economia no consumo de energia na operação e na administração do edifício.” Nesse aspecto, o Procel Edifica deverá ter grande impacto. Basta lembrar, por exemplo, que só o programa governamental de estímulo à substituição de 10 milhões de geladeiras ineficientes energeticamente, de acordo com Danilo Vieira Furtado, assessor especial do gabinete do ministro de Minas e Energia, vai gerar economia equivalente a uma turbina de Itaipu nos seus dez anos de vigência.

Nova cultura
O vice-presidente de Meio Ambiente do Sinduscon/SP, Francisco Vasconcellos, afirmou que a construção civil deve estimular uma nova cultura de sustentabilidade, mudando a forma de elaborar os projetos de edificações, o planejamento urbano, a habitação popular e a infraestrutura do país. Vasconcellos representou a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) no Grupo de Trabalho de Edificações do Ministério de Minas e Energia, que desenvolveu a etiqueta. “O uso racional de recursos naturais e de materiais e sistemas de baixo carbono, a utilização de fontes renováveis de energia, a eliminação do desperdício e o correto gerenciamento de resíduos são armas que temos para enfrentar a ameaça das mudanças climáticas”, destacou.

Já o presidente da Eletrobrás, José Antônio Muniz, afirmou que o governo dá à eficiência energética a mesma importância que dá à segurança na geração de energia. “O Brasil tem a geração de energia mais limpa do mundo”, garantiu. Ele disse ainda que a adequação das construções brasileiras à necessidade de sustentabilidade ambiental gera um impacto enorme no papel do Brasil como player na questão da emissão de gases causadores do efeito estufa.

No evento foram entregues também as primeiras etiquetas a cinco edifícios, que receberam a placa de aço em tamanho real A4 das mãos do presidente do CGIEE, Paulo Leonelli, do Ministério de Minas e Energia. Os prédios são a agência curitibana da Caixa Econômica Federal, já concluída, e os projetos da sede administrativa da CEF em Belém; da Associação Beneficente da Indústria Carbonífera de Santa Catarina, em Criciúma; da Faculdade de Tecnologia Nova Palhoça, em Nova Palhoça (SC); e do Laboratório de Engenharia Ambiental da Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis.

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