Falta de indicadores ofusca rumos do setor imobiliário

5 09 2011

(Gazeta do Povo) – 05/09/11

Após quase duas décadas em que esteve subvalorizado, o setor imobiliário passa a ter agora a necessidade de consolidar dados estatísticos em nível nacional e contar com indicadores oficiais

Contrariando a robusta demanda por imóveis, escassez ainda é a palavra que rege o setor imobiliário no Brasil. Escassez não apenas de mão de obra e terrenos adequados para construção, mas carência de estatísticas sobre um mercado que, há cerca de cinco anos, apresenta crescimento constante.

Após quase duas décadas em que esteve subvalorizado, o setor imobiliário passa a ter agora a necessidade de consolidar dados estatísticos em nível nacional e contar com indicadores oficiais, tanto de vendas quanto de preços, capazes de permitir prever e avaliar movimentos de estabilização, queda ou alta.

O primeiro entrave para se chegar a dados oficiais, na visão de quem acompanha o setor, esbarra no fato do setor ser formado, em grande parte, por empresas familiares, de porte menor, dificultando a obtenção de números confiáveis.

“No Brasil é muito complexo obter dados com precisão. O processo de levantamento de dados exatos exige ronda nos cartórios – e ainda existe ilegalidade em registros -, além da composição de todos bancos que têm carteira hipotecária”, afirma o economista e professor de Finanças Ricardo Torres, da BBS Business School.

Diferentemente de muitos países desenvolvidos, que têm dados sobre a indústria imobiliária muitas vezes fornecidos pelo governo, no Brasil a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) vem buscando consolidar pesquisas dos principais mercados do país. Essas pesquisas, entretanto, são resultado de iniciativas isoladas de sindicatos e associações.

O Secovi-SP, por exemplo, sindicato que representa o setor na capital paulista, divulga mensalmente dados de vendas e lançamentos de imóveis residenciais novos na cidade de São Paulo. Os números, contudo, parecem conflitantes quando se comparam aos resultados das principais construtoras e incorporadoras do país, que têm forte atuação na cidade.

Para o analista Marcos Paulo Fernandes Pereira, da Votorantim, esse tipo de dado acaba por não refletir a realidade das empresas grandes. “São dados muito pulverizados, de associações. Por considerar empresas familiares e menores, representa uma base ruim de comparação para empresas listadas na bolsa e distorce a capacidade financeira das grandes”.

Segundo o Secovi, no primeiro semestre deste ano as vendas de imóveis residenciais novos na cidade de São Paulo recuaram 31,3 por cento na comparação com igual intervalo de 2010.

Por outro lado, se considerados os dados divulgados pelas seis construtoras e incorporadoras que integram o Ibovespa, as vendas cresceram 13,6 por cento no mesmo período.

“As pesquisas têm margem de erro muito grande porque dependem de entrevistas com empresas, que podem ter interesses pessoais”, acrescenta Torres.

O levantamento do Secovi, que inclui tanto imóveis na planta quanto prontos, depende, de fato, da colaboração das empresas – de todos os portes – que não são obrigadas a fornecer os números regularmente.

“Imóvel não é um produto padronizado e uma série de fatores, como localização, área útil ou infraestrutura, dificultam as comparações”, diz o gerente de economia e estatística do Secovi-SP, Roberto Akazawa. “Não existe nenhuma regra ou lei que determine aos Estados fazer essa medição.”

Prova disso é que o Secovi no Rio de Janeiro, uma das capitais com mercado imobiliário mais aquecido, não contabiliza as vendas de moradias mensalmente, como ocorre em São Paulo.

Novos indicadores
A pedido do governo, institutos de pesquisa estão em fase de preparação de dois novos índices para acompanhar a valorização de imóveis residenciais.

Um deles está sendo desenvolvido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), enquanto o outro vem sendo elaborado por Fundação Getulio Vargas (FGV) e Abecip, que representa as entidades de crédito imobiliário e poupança. Ambos não devem ser lançados antes de 2012.

“A Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) também está em contato com o Secovi para analisar a viabilidade de um indicador nacional para imóveis novos, mas ainda em fase inicial, sem previsão (de lançamento)”, afirma Akazawa.

Atualmente, a Fipe divulga todos os meses um índice de preços de imóveis residenciais que considera apenas unidades anunciadas, na maioria usadas, em parceria com o Zap Imóveis. Já a FGV pesquisa a valorização dos imóveis comerciais trimestralmente.

“Essas instituições farão um bom trabalho, pela credibilidade que possuem, mas terão dificuldade em obter dados confiáveis”, afirma Torres, que não acredita no lançamento de um indicador nacional oficial para o setor no curto prazo.

“É urgente a necessidade de um índice confiável para nortear o rumo do setor, evitando visões distorcidas e infundadas. Mas isso só vai acontecer com o movimento consolidado das instituições do governo”, acrescenta ele.





“É preciso enxergar a moradia sob uma ótica maior”

26 10 2010

(Gazeta do Povo) – 26/09/10

Entrevista com Maria Carolina Brandstetter, professora da Universidade Federal de Goiás

O aquecimento do mercado imobiliário nos últimos anos não trouxe, necessariamente, imóveis que atendessem o perfil do brasileiro nos diferentes estágios de sua vida. Quando decide mudar de residência, o morador pode passar por vá­­­rias dificuldades até encontrar um imóvel que se encaixe nas características da nova fase em que se encontra. É o que mostra uma pesquisa que analisou o comportamento do consumidor, realizada pela professora Maria Carolina Brands­­tetter, com base no histórico de mo­­­radia de 80 famílias de classe média, em Goiânia (GO). A pesquisa foi apresentada recentemente na 10ª Con­­­­­ferência Internacional da So­­­ciedade Latino-Americana de Real Estate, em São Paulo.

Embora o estudo de caso seja de abrangência local, a professora explica que o método pode ser operacionalizado e servir de exemplo para outras regiões brasileiras. “A ideia é abrir esse caminho para que as construtoras sigam o modelo e melhorem a formulação de suas estratégias mercadológicas na área da construção civil. Não podemos focar somente nos investimentos em si. É preciso aliar as ofertas com a real necessidade dos consumidores. O sucesso de vendas deve estar voltado em entender para quem está vendendo.” Em entrevista à Ga­­­­zeta do Povo, Maria Carolina co­­­­menta sobre os perfis analisados, os fatores que levam à mudança de moradia, as exigências ao fazer uma nova aquisição e o que precisa ser mudado quanto as atuais estratégias de lançamentos de imóveis. Confira os principais trechos.

Como surgiu a ideia da pesquisa?
Sou formada em Engenharia Civil, com doutorado em Engenharia de Produção e, além de ser professora, também atuo em áreas ligadas ao mercado e gestão da construção. Ve­­nho estudando o comportamento do consumidor há cerca de dez anos, tudo para tentar entender esse processo, que envolve as histórias familiares e a aquisição de novos imóveis.

Qual foi a metodologia utilizada?
Para a pesquisa, desenvolvi um mé­­­­todo baseado na análise da carreira habitacional, que consiste em traçar um paralelo entre a mudança geográfica e outras trajetórias de uma pessoa ao longo de sua vida, como o estudo, o trabalho e a família. O público analisado é de classe média, com chefe de família com idade entre 40 e 45 anos, o que resultou em uma carreira habitacional mais rica e mais completa.

Quais os fatores que levam à mudança de residência?
Existem vários motivos que fazem uma pessoa romper o equilíbrio de uma situação que está vivendo e a levam a procurar uma nova moradia. A maioria está satisfeita com o imóvel até que um novo processo chega e muda essa visão. Pode ser porque casou, tem um novo emprego, mudou de cidade para estudar, teve um filho ou para fugir do aluguel. Em média, o brasileiro muda de residência sete vezes ao longo da vida. As mudanças por motivos profissionais são as que mais demandam mobilidade, seguidas das que são feitas para atender conveniências da família, como morar mais perto do trabalho, da escola dos filhos e das facilidades do comércio local.

O que determina a escolha de um novo imóvel?
Existem seis principais variáveis que exercem influência na aquisição da nova moradia. Entre elas está a renda mensal familiar, o patrimônio financeiro familiar, a idade e condição de propriedade do imóvel – se é a pessoa é proprietária ou mora de aluguel. Um fator importante é a grande motivação para a última mudança de moradia, que envolve atributos, como a localização e segurança que a região oferece. E, por fim, o estágio do ciclo de vida familiar, um dos maiores determinantes do comportamento de demanda, como, por exemplo, o caso de um homem de 20 anos que acabou de casar e teve um filho, e um outro de 40 anos, que passou pela mesma situação. Ambos se enquadram em um estágio semelhante de mudança e buscarão perfis similares de imóveis para a nova fase da vida.

Quais imóveis estão em falta no mercado?
Há uma grande dificuldade em en­­­­contrar apartamentos de apenas um ou de cinco quartos, de alto pa­­­drão. É preciso observar que as formações familiares mudaram. Hoje existem famílias formadas por casais que estão no segundo ou terceiro casamento e tanto o marido quanto a mulher têm filhos dos ca­­­samentos anteriores, que moram todos juntos e precisam de uma moradia maior. Assim como há casais sem filhos e solteiros que moram sozinhos e possuem maior poder aquisitivo, que buscam uma boa localização, mas em imóveis com um quarto. Em Goiânia, por exemplo, quase nenhum imóvel com esse perfil de um quarto foi oferecido nos últimos anos e os poucos lançamentos foram vendidos rapidamente. Isso pode estar ocorrendo em outras cidades.

Com base na pesquisa, o que a senhora percebe quanto as atuais estratégias de lançamento do mercado imobiliário? O que precisa ser mudado?
Alguns lançamentos são fundamentados apenas em indicadores de mercado, ou seja, nos imóveis que apresentam maior volume de vendas, e continuam lançando com o mesmo perfil só porque deu certo anteriormente. Ou focam em aspectos pontuais, como a localização, por exemplo. É preciso enxergar a moradia sob uma ótica maior e entender o comportamento cíclico das famílias. Os segmentos de automóveis e o de alimentos absorveram essas mudanças e estão desenvolvendo produtos segmentados por faixa etária e de renda, entre outros. O ideal é que o mercado imobiliário siga esse modelo. Uma sugestão é mesclar mais de um perfil em um mesmo empreendimento, fugir da padronização e oferecer flexibilidade, não só na escolha de acabamentos, mas também na planta, com a mesma metragem quadrada, o que torna o imóvel mais atrativo, contemplando uma fatia de mercado maior.





Imóveis compactos ganham espaço entre lançamentos imobiliários

6 08 2010

(Folha Online) – 02/08/10

Somente nos primeiros sete meses do ano (até 23 de julho), as construtoras já colocaram no mercado 6.033 unidades “compactas” -mais que o total em 2005 (5.801)

Os imóveis de até 55 metros quadrados, chamados de “compactos”, vêm ganhando espaço entre os lançamentos em São Paulo. Impulsionados pelo crescimento do crédito e da massa salarial, tiveram a participação ampliada de 24%, em 2005, para 39% em 2010, segundo levantamento realizado pela empresa de pesquisas imobiliárias Geoimovel.

Somente nos primeiros sete meses do ano (até 23 de julho), as construtoras já colocaram no mercado 6.033 unidades “compactas” -mais que o total em 2005 (5.801). Em geral, foram lançadas 15.658 unidades em 2010.

Para Celso Amaral, diretor da Geoimovel, dois fatores foram fundamentais para alavancar essas vendas. O primeiro foi o crescimento do poder aquisitivo da população -de 27%, entre janeiro de 2005 e maio de 2010 na Grande São Paulo, segundo o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos). O outro é a maior facilidade de financiamento nos últimos anos, com juros mais baixos, prazo de pagamento maior e prestações menores. “Há uma demanda forte por esses apartamentos. As construtoras perceberam esse movimento”, diz Amaral.

Primeiro “Apê”
Para o presidente do Secovi-SP (Sindicato da Habitação), João Crestana, os jovens também têm impulsionado o mercado de “compactos”. “São casais ou solteiros com idades de 20 a 35 anos, que já trabalham, mas não têm condições de comprar imóveis de 100 metros quadrados.”

Para atender a essa demanda, a Gafisa criou em 2006 a marca Living, cujo foco são imóveis menores (70% têm até 55 metros quadrados). No primeiro ano de existência, lançou 720 imóveis. No ano passado, o número saltou para 16.062. Para este ano, a expectativa é chegar aos 25 mil.

Segundo Romeu Braga, diretor de incorporação da empresa, o programa habitacional do governo Minha Casa, Minha Vida, lançado em março do ano passado, também contribuiu para uma oferta maior desses imóveis. “O MCMV trouxe novos clientes para esse mercado, que são pessoas da classe C que estavam desassistidas”, ressalta. Entre os benefícios do programa, estão juros reduzidos e subsídios federais.

A assistente comercial Cristiane Dias, 28, comprou o primeiro imóvel recentemente, após diversas tentativas. “Não conseguíamos comprovar renda suficiente, mas deu certo pelo MCMV”, diz ela, que irá mudar com o marido e a filha de um ano para um imóvel de 52m² em 2012.





Aumenta procura por locação de pequenos imóveis

6 08 2010

(Parana Online) – 22/07/10

As kitinetes e os apartamentos de um quarto de Curitiba tiveram uma explosão nas locações em junho, de acordo com os últimos dados divulgados pelo Sindicato da Habitação e Condomínios do Paraná (Secovi-PR). A instituição atribui a mudança à proximidade do período de férias, quando a capital paranaense costuma receber uma grande quantidade de novos moradores, que chegam para estudar ou trabalhar. Como a oferta continua insuficiente, a grande procura resultou em aumento de preços: o metro quadrado das kitinetes ficou 6,82% mais caro, em relação a maio. A variação foi a maior na lista de imóveis residenciais.

De acordo com o Instituto Paranaense de Pesquisa e Desenvolvimento do Mercado Imobiliário e Condominial (Inpespar), órgão que faz os levantamentos, o índice de locação sobre oferta desse tipo de imóvel aumentou significativamente entre junho de 2009 e o mesmo mês deste ano: de 13,9%, a taxa passou para 19,4%. O aumento mostra que o fenômeno não é apenas sazonal.

Segundo o diretor da área de Locação do Secovi-PR, Roberto Gonzaga, a mudança nos índices de junho tem relação direta com o número cada vez maior de faculdades em Curitiba. “Os vestibulares de inverno atraem muitos estudantes de fora”, conclui. Ele lembra que esse público sempre chega às imobiliárias procurando kitinetes e apartamentos de um quarto.

Como resultado, unidades desses tipos estão começando a ficar escassas, puxando os preços para cima. “O mercado está muito apertado”, diz Gonzaga. Ele mostra que, em 12 meses, a variação dos preços superou em 6,7% o Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M), que é o mais utilizado em contratos de locação. Em junho, o valor de locação das kitinetes ficou em R$ 14,25/m², superando em quase 4% a média do ano, de R$ 13,71/m².

Se a oferta já vem sendo escassa, os números de lançamentos deste ano demonstram que o panorama pode até piorar, no futuro. Os dados mostram que foram lançadas 2.095 unidades em empreendimentos verticais de janeiro a maio, em Curitiba. Desse total, apenas 259 eram apartamentos de um quarto. Não houve lançamento de nenhuma kitinete. A maioria (86%) dos apartamentos eram de dois ou três quartos. “Já vale mais a pena, às vezes, alugar um apartamento de dois quartos do que uma kitinete ou apartamento de um quarto”, sugere Gonzaga.

Legislação
Gonzaga observa que outro fator está facilitando, este ano, as locações: as recentes mudanças na legislação que rege o assunto tornaram mais simples as aprovações de cadastros – que normalmente eram mais restritivas quando o locador, ou o seu fiador, não tinham imóveis na mesma cidade para oferecer como garantia. “As restrições estão acabando em função das novas regras. Mesmo que o cadastro não seja exatamente como a imobiliária gostaria, a lei possibilita ao locador entrar em juízo com 30 dias de inadimplência. A liminar [para o despejo] já sai em outros 30 dias”, explica.





Arquiteto aponta oportunidades para a construção de empreendimentos mistos

16 10 2009

(Mercado Imobiliário, Pamêla Reis)

Augusto França Neto destacou a expansão dos shoppings abertos como pólos agregadores de atividades durante conferência internacional da Latin American Real Estate Society.

O mercado de edifícios multifuncionais deve se fortalecer nos próximos anos. É o que defendeu o arquiteto Augusto França Neto, professor da Universidade Mackenzie, durante a 9ª Conferência Internacional da LARES (Latin American Real Estate Society), realizada entre os dias 13 e 15 de outubro em São Paulo. O evento reuniu profissionais e acadêmicos para a apresentação de trabalhos, cases e painéis sobre o mercado imobiliário no Brasil e no mundo.

Para Neto, a agregação de funções em um mesmo empreendimento – escritórios, lojas, hotel, residências, centro de convenções etc – desponta não apenas como uma das soluções para os problemas de mobilidade dos grandes centros, mas também como pólo gerador de desenvolvimento em municípios menores.

Um dos expoentes dessa tendência são os shoppings abertos. Os chamados open mall’s têm surgido na grande São Paulo e em cidades do interior do estado para dar apoio a complexos multifuncionais integrados a eles. França Neto cita exemplos em Indaiatuba, Itu, Campinas e São Caetano do Sul, e destaca a demanda por centros de convivência regionais, que cumpram no bairro a função antigamente exercida pelas praças. “O shopping não é mais um equipamento unitário, é um elemento agregador de atividades e precisa ter espaços de permanência”, comenta.

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O arquiteto enumera as vantagens econômicas e ecológicas do shopping aberto, como a redução da energia gasta com iluminação diurna e ar condicionado, além da consequente redução dos custos de condomínio para o lojista. “A vegetação e os espelhos d’água [nos canteiros do shopping] criam um microclima artificial, além de manterem o ambiente mais agradável”, finaliza.

Pátio São Caetano, projeto open mall do arquiteto Augusto França Neto





Indústria Imobiliária – A Espera do Boom (de Demanda Efetiva…)

16 02 2008
Marco Túlio Kalil Ferreyro
Economista/SINDUSCON-RS

Indubitavelmente, os agentes econômicos que atuam no âmbito da cadeia de negócios da indústria imobiliária estão vivendo e sentindo um verdadeiro frenesi imobiliário em relação às condições que vêm sendo formadas no mercado, ao menos no que diz respeito ao lado da oferta, dado a crescente ampliação do volume de recursos ofertados pelos agentes financeiros no âmbito do SBPE, além do próprio acirramento da concorrência entre os mesmos, vis à vis, o movimento de redução de juros, ampliação de prazos de amortização e elevação da quota de financiamento em relação ao valor do imóvel.

Contudo, é preciso antes de mais nada, muita cautela na leitura e interpretação deste novo cenário, uma vez que, no tocante ao ambiente de formação de expectativas que estamos observando hoje sobre o estabelecimento de um provável boom imobiliário no país, é preciso perceber com indispensáveis lucidez e bom senso, que, ao menos em termos das reais condições de demanda(nível de emprego, renda, poder aquisitivo e capacidade de poupança), ainda estamos na ante-sala de um fenômeno desse tipo.

Sob a ótica da demanda, pois, o Brasil ainda está muito distante daquilo que se observou recentemente em países como Espanha, México e Estados Unidos. Neste último, vale ressaltar que a renda percapita é mais de 10 vezes superior à brasileira e, principalmente, a propensão marginal a poupar dos norte-americanos é de cerca de 12% da renda marginal. Em outras palavras: a cada um dólar de aumento na renda de um cidadão norte-americano, doze centavos são poupados em prol do consumo de um bem com maior valor agregado no futuro, como por exemplo, um imóvel novo.

Neste aspecto, vale lembrar que nos USA, o setor imobiliário tem sido o dínamo da economia, desde o começo da década, período no qual, o valor de mercado do total de residências americanas aumentou mais de US$ 9 trilhões, totalizando US$ 22 trilhões! Entre os fatores condicionantes desta virtuosidade econômica, estão as taxas de juros anuais, extremamente competitivas, em média, abaixo de 7%. Além disso, em boa parte dos estados dos USA, os juros pagos nos financiamentos imobiliários são integralmente deduzidos do imposto de renda, tanto pelas pessoas físicas, quanto jurídicas.

Esta é, sem dúvida, a grande alavanca que impulsionou o mercado imobiliário norte-americano, gerando efeito multiplicador em toda a economia em termos da geração de negócios imobiliários, lucros, investimentos, empregos, renda, impostos, bem-estar,enfim, um círculo virtuoso. É comum também, na economia dos USA, os proprietários de imóveis utilizarem o valor de suas hipotecas como garantia para novos empréstimos direcionados para o consumo de outros bens, que são produzidos e comercializados fora do âmbito da cadeia produtiva da indústria da construção, gerando o consumo de móveis, eletro-eletrônicos, automóveis, etc. É este na prática, o que nós economistas chamamos de “efeito induzido” ou “efeito-renda”. Entretanto, nem tudo são flores, uma vez que, a simples sensação de valorização dos seus bens imobiliários, acabou criando nos cidadãos norte-americanos, a sensação de riqueza (efeito-riqueza), motivando-os ao consumo por vezes, exacerbado.

Tá e daí, qual é o problema? Este surge, pois, quando os preços dos imóveis acabam atingindo patamares insustentáveis. É quando o boom pode virar bubble (bolha). Tal situação, torna praticamente inevitável um nefasto efeito deflacionário (queda abrupta no preço dos imóveis), podendo resultar em quebradeira e recessão. Por sinal, lá nos USA, os economistas e analistas são incansáveis em tentar alertar (por vezes até em tom de catástrofe) para os efeitos negativos que a formação de uma bolha imobiliária pode trazer ao país.

Todavia, a experiência dos outros, não somente pode, mas sim, DEVE nos servir de lição no sentido de que não incorramos em tal risco. Afinal, não é para menos, uma vez que, alguns dos mais conhecidos setores de fabricantes e fornecedores de materiais de construção do país, que atuam em estruturas de mercado caracterizadas como oligopólios, já vem “colocando suas mangas de fora”, acenando com aumentos de preços de seus produtos, como é o caso das empresas que atuam no ramo de commodities minerais, tais como, aço, clinquer (cimento),cobre, tintas, pvc’s, etc. Por enquanto, é apenas um alerta, sem querer pretender-se fazê-lo num tom profético. Por ora, pretendemos simplesmente suscitar o interesse por uma boa, lúcida e sensata reflexão por parte dos agentes econômicos que atuam na cadeia produtiva da indústria imobiliária nacional.

Logicamente, feitas estas ressalvas comparativas com a recente experiência internacional, isto não quer dizer que a atual conjuntura e perspectivas não sejam extremamente alvissareiras, principalmente quando comparamos o atual momento com aquele registrado nos últimos 25 anos ao menos, quando, após a extinção do BNH (que começou a fraquejar das pernas no início dos anos 80’ e sendo extinto oficialmente por lei em 1986), situação que praticamente acorrentou o mercado imobiliário nacional.

Ressalvando-se as devidas proporções e, aterrisando na realidade local, somente para se ter uma idéia do efeito BNH no mercado, basta por exemplo, examinar-se os dados referentes à série histórica das economias vistoriadas(número de unidades aptas ao habite-se)de Porto Alegre, indicador este que serve como uma proxy do volume de produção imobiliária na cidade. Com base nestes dados, observa-se que entre o final dos anos 70 e início dos anos 80(1978 a 1983) –período no qual ainda existia o BNH e o Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo – SBPE, funcionava a pleno vigor, foram produzidas em média, 17.648 unidades por ano em Porto Alegre. Já nos anos recentes(entre 2001 e 2006), este número caiu para uma média de 5.135 unidades/ano.

Entre os principais fatores explicativos de tal comportamento está a queda drástica em igual período comparativo do volume de crédito habitacional concedido efetivamente no âmbito do SFH. Para se ter uma idéia da importância do volume de financiamento habitacional(com juros e prazos compatíveis com o “bolso do comprador”)concedido à época áurea do setor(final dos anos 70 e início dos anos 80), como fator determinante do maior volume de produção habitacional, basta lembrar que, em 1980, por exemplo, o BNH financiou sozinho, 366.808 unidades e o SBPE, mais 260.534 unidades. Somando-se as duas fontes, tem-se um total de 627.342 unidades habitacionais financiadas no país, em um único ano!

Outro fator explicativo para o grande volume de produção de moradias naquela época, é o “pico” do processo de migração ruro-urbana (êxodo rural), que ocorreu fortemente naqueles anos, fenômeno este, que certamente não se repetirá, dado o elevado grau de urbanização da população hoje já existente. Portanto, com base nesta análise retrospectiva (sob a ótica do “retrovisor”), cabe ressaltar que, numa análise prospectiva, ou seja, sob a ótica do “pára-brisa” (para frente)mesmo que um novo “boom” se instale no mercado habitacional de Porto Alegre, do Rio Grande do Sul e do Brasil, dificilmente ultrapassaremos, em Porto Alegre, do patamar de produção imobiliária de cerca de 10 mil unidades/ano, sob pena de não haver efetiva absorção pela demanda potencial, haja visto que as taxas de incremento populacional tem caído alo longo das última década, sendo que, Porto Alegre, por exemplo, exibe a segunda menor taxa de crescimento vegetativo da sua população, cerca de 0,8% ao ano, a segunda menor do Brasil, atrás somente de Vitória (ES), com 0,5% ao ano.

E este “admirável mundo novo” que vem por aí, em terras tupiniquins, como será? Com base na crescente ampliação do volume de oferta de financiamentos concedidos no âmbito do SBPE, que atingiu a R$ 11 bilhões nos últimos doze meses acumulados entre maio de 2006 e abril de 2007, totalizando 131,8 mil unidades financiadas (R$ 83,7 mil de valor unitário médio por financiamento concedido), são bastante animadoras as perspectivas para a cadeia de negócios da indústria imobiliária em 2007. Com base no comportamento observado no primeiro quadrimestre de 2007, período no qual foram concedidos pelo SBPE, R$4.097.180 bilhões, pode-se projetar para o fechamento do corrente ano, um volume de R$12,3 bilhões, que, a um valor médio de financiamento de R$83,7 mil, permitiria financiar um total de 147 mil unidades no país em 2007. Todavia, as condições de oferta podem melhorar ainda mais se, por exemplo, o prazo de amortização for ampliado para até 30 anos, com o financiamento cobrindo até 100% do valor do imóvel, taxa de juros de 7% com prestações fixas e com a desburocratização na concessão do crédito e a padronização de contratos de financiamento.

Por fim, fechando estes alvissareiros números que surgem pelo lado da oferta de recursos para aplicação no mercado imobiliário, vale destacar que, assim como ocorreu em 2006, a abertura de capitais para o mercado acionário de diversas empresas dentre as maiores do mercado imobiliário (operações estas que geraram nos últimos 20 meses uma captação da ordem de R$ 12 bilhões apenas por meio de oferta primária de ações), terá continuidade ao longo de 2007, uma vez que diversas outras empresas estão se preparando para realizarem ofertas iniciais de ações (IPO – Initial Purchansing Offer) na bolsa de valores.

E quais são os fatores que estão condicionando o vislumbre de um cenário tão positivo? Em primeiro lugar, sem dúvida, a trajetória de persistente queda da taxa básica de juros do país, a taxa SELIC, hoje no patamar de 12,5% ao ano e com expectativa de atingir já ao final de 2007, a 10,75% e, ao final de 2008, o patamar de um dígito (9,5% ao ano em termos nominais). Isto, somado ao novo arcabouço regulatório (Lei 10.931/2004), maior segurança jurídica para as operações de crédito imobiliário, que dele resultou e as resoluções do Conselho Monetário Nacional – CMN, que ampliaram o efetivo direcionamento de recursos do sistema para financiamentos habitacionais, tem sido, inexoravelmente, o eixo sob o qual gravita o acirramento da concorrência entre os agentes financeiros, uma vez que a análise de custo de oportunidade que é feita pelos bancos começa a inclinar-se favoravelmente a um maior carregamento das suas carteiras imobiliárias, dado que, nesse ambiente macroeconômico de taxa prime num patamar mais baixo, o produto financiamento imobiliário passa a ser considerado como um produto âncora para fidelização de clientes e a comercialização de outros produtos/serviços bancários, como cheque especial, cartões de crédito, seguros diversos, planos de previdência, etc. Todavia, há ainda muito espaço para melhoria das condições de oferta para que o financiamento imobiliário caiba no bolso de mais potenciais adquirentes.

Todavia, é preciso considerar-se as dificuldades existentes pelo lado da demanda, uma vez que, além do historicamente baixo poder aquisitivo da população, em média, no Brasil, há uma baixíssima propensão média a poupar nos lares brasileiros, sendo que em inúmeros casos, a propensão média familiar a poupar, é até negativa, se considerar-se o uso do cheque especial, cartão de crédito, etc. No intento de melhorar-se as condições de demanda, seria bastante oportuno que voltasse a vigorar no mercado uma condição que já existiu em tempos passados (e que é a grande alavanca do mercado imobiliário norteamericano como já destacado aqui nesta análise), qual seja, a de permitir aos adquirentes de imóveis deduzirem do IRPF a integralidade ou pelo menos parte dos juros pagos nos financiamentos habitacionais. Diga-se de passagem, que tal medida não resultaria em renúncia fiscal, uma vez que o incremento no volume de comercialização de imóveis novos e, conseqüente aumento, também, da produção imobiliária, geraria um efeito multiplicador de empregos, renda e impostos em toda a economia, o que compensaria econômica e financeiramente, uma possível perda de arrecadação inicial.

Logicamente que todo o esforço que vem sendo feito nacionalmente no sentido de melhorar-se as condições de oferta dos financiamentos habitacionais, deve ser saudado. Entretanto, somente através do crescimento econômico duradouro, sustentável (controle da inflação) e a taxas elevadas, será possível melhorar-se as condições de emprego, renda e poupança da população, de forma a transformar-se o que é hoje apenas demanda potencial, em demanda efetiva por imóveis, principalmente, no caso das classes média baixa e baixa renda, segmentos que demarcam um novo mercado potencialmente emergente em termos da chamada habitação econômica e popular, respectivamente. Eis, aí, portanto, uma boa aposta empreendedora.

PROGRAMA “O PRIMEIRO IMÓVEL” – A HORA É AGORA
Quando analisamos a atual composição da pirâmide etária do país e as projeções dessa para o ano de 2010, que está logo ali, constatamos que é altamente expressivo o contingente populacional na faixa etária de 25 a 39 anos(ou que estarão nessa faixa nos próximos anos), cerca de 24% da população total, onde se incluem jovens recém formados ingressando na vida profissional(que ainda residem com os pais ou pagam aluguel) e iniciando uma trajetória de ascensão econômica e social que permitirá que os mesmos possam, a partir de um programa como o Primeiro Imóvel, adentrar no mercado imobiliário na condição de adquirentes e com forte potencial para exercerem “upgrade imobiliário”, devido à promissora capacidade de mobilidade econômica e social ascendente que tais jovens possuem, durante o curso de suas vidas, compatibilizando a ascendência social e econômica, com formação e/ou aumento da família, adquirindo outros imóveis mais adequados a cada estágio de vida.

Na verdade, o programa “Primeiro Imóvel”, se constituirá na ignição que dará partida a uma nova dinâmica no mercado imobiliário, resgatando a aposta em um comportamento salutar da economia, qual seja, a crença na prosperidade econômica e social dos indivíduos e atendimento aos anseios de bem estar dos mesmos. Esta foi a essência da idéia e proposição de desenvolvimento do programa “Primeiro Imóvel”.

No tocante à formatação e estabelecimento dos pilares de tal programa, propõe-se que ele possa funcionar como piloto do retorno de uma condição de demanda há muito clamada pelo setor, qual seja, a de permitir a dedução no imposto de renda(IRPF)da integralidade ou pelo menos parte dos juros pagos no financiamento imobiliário. Diga-se de passagem, que tal medida não resultaria em renúncia fiscal, uma vez que o incremento no volume de comercialização de imóveis novos e, conseqüente aumento, também, da produção imobiliária, geraria um efeito multiplicador de empregos, renda e impostos em toda a economia, o que compensaria econômica e financeiramente o fisco, em relação a uma possível perda de arrecadação inicial.

Imagina-se, também, que o programa Primeiro Imóvel deva contar com uma especial condição de financiar 100% do valor da unidade habitacional, uma vez que o público potencial demandante, não teria no seu estágio de vida, poupança suficiente para bancar a entrada no negócio. Sobretudo, é preciso considerar-se as dificuldades existentes pelo lado da demanda, uma vez que além do historicamente baixo poder aquisitivo da população nos últimos anos, em média, no Brasil, há uma baixíssima propensão média a poupar nos lares brasileiros, sendo que em inúmeros casos, a propensão média familiar a poupar, é até negativa, se considerar-se o uso do cheque especial, cartão de crédito, os quais criam, em muitas situações, dívidas que acabam comprometendo até mesmo a renda que será auferida no futuro.

Por sua vez, o valor do imóvel e do financiamento deve ser compatível com a realidade média de ganhos do público potencial demandante (na média, entre 6 e 20 salários mínimos mensais). Além disso, o prazo de amortização dos financiamentos no âmbito de tal programa, deve ser mais amplo, propondo-se por exemplo, 25 anos ou 30 anos.
Também os juros devem ser compatíveis, cerca de 7% ao ano – considerando-se as condições macroeconômicas hoje existentes -, mantendo-se neste patamar pelo prazo pleno de amortização, se durante este período, o mutuário mantiver um histórico de adimplência e pontualidade no pagamento das prestações.

Logicamente, os agentes financeiros que vierem a ser parceiros e operarem tal programa, deverão fazer uma aposta inteligente, aceitando uma redução de margem aqui para recuperá-la logo ali adiante, acreditando justamente na potencialmente elástica capacidade de mobilidade sócio-econômico do público-alvo do programa, de forma a cativá-lo para seus planos de fidelização, clientes que poderão contratar outros tradicionais produtos do setor financeiro, como seguros nas diversas modalidades, portfólios de investimentos e aplicações financeiras, planos de previdência privada, e tantos outros mais. Ou seja, é a economia do ganha-ganha.

Já no sentido de vislumbrar-se a movimentação futura de um mercado de “up grade”, para aqueles que foram contemplados no programa Primeiro Imóvel, pode-se por exemplo, conceder-se uma redução na taxa de juros e/ou alargamento do prazo de amortização para aqueles adquirentes que mantiverem um histórico de adimplência e pontualidade no pagamento das prestações referentes ao programa Primeiro Imóvel.

Tal condição, deverá, oportunamente, após termos uma formatação final do programa, ser negociada com os agentes financeiros, públicos ou privados, os quais forem convidados para serem parceiros.

Enfim, tem-se aí, apenas algumas idéias em relação aos pilares que poderão formatar um programa que permite vislumbrar uma boa oportunidade de movimentar a cadeia produtiva imobiliária, dado o seu notável padrão de articulação intersetorial que liga, desde fornecedores de matérias-primas, insumos diversos e equipamentos(que estão para trás na cadeia), até aquelas atividades de serviços(aluguéis, hotéis, consultorias, indústria e comércio de móveis e decoração, etc.), que estão para frente, considerando-se o seu impacto multiplicador sobre a economia em termos da geração de produto, renda, emprego, impostos, etc.








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