A Crise Acabou – comentários de Stephen Kanitz


A crise norte-americana acabou há três semanas. E, dentro de um mês, será visível um aumento no índice de confiança do consumidor estado-unidense – logo, mundial.

É o que afirma Stephen Kanitz, consultor de empresas, mestre em Finanças pela Harvard University, colunista da revista Veja e, mais recentemente, dono do blog O Brasil Que Dá Certo.

“Para mim, aquele momento de crise propriamente dito, com todas as pessoas perdidas, sem saberem o que vai acontecer ou o que fazer, já passou”, declarou ele durante palestra no Ta na Mesa da Federasul, realizado nesta quarta-feira, 18, em Porto Alegre.

Quanto ao Brasil, Kanitz acredita que haja mais um pânico psicológico do que financeiro.

“A crise iniciou no mercado imobiliário norte-americano, que em fevereiro demonstrou crescimento de 22,2%. Ou seja: se o segmento onde a crise iniciou está melhorando, tudo vai melhorar. E no Brasil, onde não há problema no setor imobiliário nem grandes rombos nos cartões de crédito, acho que a crise nem chegou”, destacou o consultor.

Para ele, no país foram apenas três as empresas que penaram com a crise: Aracruz, VCP e Sadia. “Foram casos isolados que enfrentaram uma situação muito feia, mas já sanaram”, ressaltou.

“Nem o governo chegou a ficar mal. Foi uma das primeiras vezes que não precisamos ir de chapéu na mão pedir dinheiro ao FMI! E isto porque pela primeira vez temos um administrador na presidência do Banco Central, Henrique Meireles, que adotou a política correta de fazer reservas.

Hoje o Brasil tem reservas milionárias e pode enfrentar a crise”, avaliou.

Segundo Kanitz, o que há no Brasil é muito mais alarde do que verdade. E a grande culpada seria a imprensa. “Tem se falado, na imprensa, em 30% de desemprego. É um exagero, acredito em um índice de 2%, talvez, mas 30%? Se você divulga isso, é óbvio que ninguém mais compra, ninguém mais assume créditos, nada, com medo de perder o emprego”, comentou.

Outro ponto criticado pelo consultor foi o fato de tudo ser noticiado com negatividade. “Quando se falou de queda de 40% na bolsa, por exemplo, foi alardeado como uma notícia péssima. Pode ser, para os 2% de brasileiros que investem. Porém, para quem não é endinheirado, é até uma boa notícia que os endinheirados ganhem menos dinheiro. E outra: Se as ações desvalorizaram 40%, é hora de as empresas brasileiras comprarem estrangeiras, e não de apertarem o cinto”, declarou.

Conforme Kanitz, o Brasil sai da crise com nota dez, especialmente frente ao restante do BRIC. “Enquanto o país tem reservas milionárias, a Rússia quebrou e a China está perto de perder o “Investment Grade”, comentou.

Para o administrador, sua postura não é otimista, mas procura ver o otimismo que está no ar, ao invés de se concentrar no pessimismo catastrofista. A dica mor de Kanitz: não leia jornal.

Para ele, jornais são para gerentes. Presidentes e diretores de empresas não devem lê-los, porque não há que pensar nas más notícias do presente ou, pior ainda, no histórico de crises, no passado: a regra é pensar o futuro.

“Você tem de fazer pesquisas de mercado, avaliações, e programar o futuro”, afirmou Kanitz.

Pollyanna
A exemplo dos livros da Eleanor H. Porter, em que uma menina, Pollyanna, praticava o Jogo do Contente, orientando-se para enxergar o lado bom de toda notícia ou episódio ruim, Kanitz é categórico em afirmar que o mundo não está tão a perigo quanto parece pelas manchetes globais.

“Não leia jornais pela manhã. Só vai servir para você desanimar. Nos últimos 100 dias, tudo o que eu tenha visto, ininterruptamente, são notícias ruins. E já mostrei que nem tudo o que se diz como ruim, o é.

Minha dica é: leia os noticiários à noite. Você será derrubado, mas aí já pode cair na cama e dormir”, brincou durante o Ta na Mesa.

E o consultor tanto crê em sua tese que criou, há um mês, o blog O Brasil que Dá Certo. A frase de abertura – Aqui divulgamos as boas notícias e iniciativas do Brasil que dá certo – já dá o tom da página, que, segundo Kanitz, já alcança crescimento semanal de 400% em termos de acesso.

“Temos estatística de dois milhões de pageviews em um ano”, declarou.

Administrar é preciso
Para o especialista, a escolha de Henrique Meireles para o comando do Banco Central é um dos maiores acertos da atual política econômica brasileira.

“Ele é um administrador, e é isso que tem de ser colocado para administrar as empresas, as instituições”, destacou Kanitz. “A China passou a adotar esta prática na década de 80 – administradores para administração de altos cargos – e veja o quanto cresceu”, complementou.

Segundo o consultor, o administrador é diferente do empresário porque, enquanto o segundo está preocupado em realizar seus sonhos, o primeiro se dispõe a realizar o sonho de outros.

“Para o administrador, o importante é pegar uma boa idéia e planejar formas de ela dar certo. Este é o caminho”, concluiu.

Vantagem demográfica, geográfica e política Para Kanitz, os próximos 40 anos reservam para o Brasil um cenário de destaque positivo em relação a outros países, com perspectivas otimistas em demografia e gestão de recursos.

“A desvantagem que o Brasil possuía nos anos 70 e 80 em relação a seu perfil demográfico está mudando com o aumento da população em faixas etárias economicamente ativas, possibilitando maior geração de riquezas e menos dependentes, já que também há menos nascimentos”, destacou ele durante a palestra na Federasul.

Além disso, o consultor aponta que o país também tende a se destacar geográfica e politicamente, com “a consolidação de nossa democracia”.

“A Europa está quebrada e, no futuro, China e Índia terão problemas sérios com a escassez de água”, pontuou. “O tamanho continental do Brasil o tornará menos dependente da globalização, porque pode desenvolver o mercado interno”, completou.

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