A vida sem limitações


(Arquitetura & Urbanismo) – 2009

O desafio de desenvolver um projeto que promova a qualidade de vida de portadores de alzheimer

A vida humana, especialmente a dos idosos, encarada com respeito e dignidade. Essa filosofia foi a tônica do Hiléia, residencial dirigido a pessoas da terceira idade, projetado pelo escritório de arquitetura Aflalo & Gasperini. Situado no Morumbi, bairro nobre da zona Sul de São Paulo, o Hiléia integra as funções de hotel, residencial e clube, com especialização em pessoas com mal de Alzheimer. Tal composição de atividades resultou de um trabalho de muita pesquisa realizado pela administradora e diretora presidente do empreendimento, Cristiana D’Andrea, que visitou centros de idosos de países como Canadá, Estados Unidos, França e Holanda para encontrar o modelo brasileiro ideal: um lugar que une lazer, hotelaria e saúde, levando sempre em conta a qualidade de vida das pessoas que o frequentam ou habitam.

Os projetos holandeses foram os que ficaram mais próximos do desejo da administradora, que há 18 anos trabalha na área hospitalar e descartou de imediato o modelo de alguns dos espaços visitados porque, apesar da excelência de serviços e tratamentos, eram afastados das cidades e apresentavam certo isolamento nada favorável à saúde dos idosos.

Estava delineado o perfil conceitual do Hiléa, nome pelo qual o naturalista alemão Alexander Humbolt se referia à floresta amazônica e que, em linhas gerais, remete à diversidade e riqueza da vida. O idoso precisa estar inserido no contexto urbano, em ambientes especialmente projetados para seu conforto e que prevejam soluções para suas dificuldades de locomoção, visão ou discernimento. Para o Hiléa, a intenção era que o idoso tivesse três opções: passar somente o dia e voltar para sua casa à noite, ficar hospedado no final de semana ou nas férias ou ainda morar no hotel que oferece todas as condições de segurança e tratamentos de saúde. A ideia de sua construção foi encampada pela Stan Empreendimentos Imobiliários e logo se iniciaram as reuniões para a concepção do projeto arquitetônico.

O sociólogo, arquiteto e professor norte-americano John Zeisel, consultor do Hiléa na área de arquitetura comportamental, disse em entrevista publicada em AU 162 (set/2007), que “em centros de tratamento de portadores de Alzheimer há inúmeras especificidades. Os corredores, por exemplo, devem mostrar um destino claro, que conduza o paciente a andar com objetivo, e não a vagar, ação muito comum em quem sofre dessa doença”. Segundo Zeizel, também é importante estimular a identificação do paciente com o local, conferindo ao edifício uma aparência semelhante à de suas residências. “Somado a isso, temos o controle de saídas perigosas, a multiplicidade de espaços públicos, os jardins e o ideal de proporcionar independência ao idoso.”

“Os espaços foram estudados nos mínimos detalhes, foi um grande desafio para nós, já que o programa era extenso para atender a todas as necessidades dos idosos”, conta o arquiteto Luiz Felipe Aflalo Hermann. Num terreno de 2.600 m², com declive de cerca de seis metros, o complexo é composto por dois volumes: um embasamento horizontal com três pavimentos de áreas comuns do hotel e da clínica; o segundo é totalmente verticalizado e foi implantado no alto do terreno, onde se eleva como um prédio laminar com 50 m de comprimento por 17 m de largura, com oito pavimentos onde se distribuem as suítes. Na cobertura foi instalada uma UTI (Unidade de Terapia Intensiva).

A frente do terreno foi ocupada por um volume como se fosse uma caixa quadrada, onde se encontram espaços destinados a lazer e múltiplas atividades. No térreo, há restaurante, sala para reuniões e festas, estar com lareira, bilhar, praça, recepção e um porte cochere para entrada de carros.

O primeiro pavimento é dedicado aos pacientes com Alzheimer e às suas necessidades especiais. Aqui os espaços não podem ter muita transparência para evitar que os pacientes percebam o cair da tarde e se deprimam. Outro dado importante é que eles precisam ter referências do passado, visto que sua memória é bastante remota.

Assim, a praça com pé-direito duplo tem cobertura com iluminação zenital e é ambientada como um cenário de 50 anos atrás – postes antigos, piano de cauda, cinema com programação de filmes antigos, barbearia, livraria e mesinhas.

Um pavimento inteiro foi ocupado com consultórios de várias especialidades, como gerontologia, fisioterapia, fonoaudiologia, nutrição e terapia ocupacional, entre outras. Todo um esquema de segurança foi montado com cuidados especiais para os pacientes com Alzheimer, com postos de enfermagem e de apoio estrategicamente colocados em vários pontos, banheiros amplos, câmeras, sensores e dois elevadores privativos com espaço para maca, além dos quatro elevadores sociais existentes no edifício.

Cada pavimento reservado aos idosos com Alzheimer tem posto de enfermagem, refeitório, sala íntima com TV e 18 apartamentos de 36 m². Cada suíte pode acomodar uma pessoa ou um casal é está totalmente equipada para suprir as necessidades de conforto e também de locomoção dos pacientes tendo, inclusive, um trilho no teto que facilita o transporte do idoso. Na parede atrás da cama, um quadro camufla toda a parafernália de equipamentos hospitalares para casos de emergência. Para bem-estar emocional de internos e familiares, mobília e objetos de decoração pessoais podem ser instalados nos quartos.

Os idosos que frequentam o Hiléa como um clube têm à disposição inúmeras atividades de lazer. Aproveitando o declive do terreno, os arquitetos utilizaram o primeiro subsolo, que se abre para os jardins, e ali instalaram piscina coberta, sauna, salas de musculação, salas de fisioterapia e massagem, ateliês de pintura, cabeleireiros e sala para crianças – estas, um estímulo para que filhos e netos visitem seus pais e avós sem aborrecer as crianças, e sem que elas aborreçam os mais velhos.

Com 13.400 m² de área construída, o Hiléa apresenta arquitetura contemporânea e materiais práticos e funcionais, porém houve o cuidado de aquecer visualmente a edificação com o uso de madeiras, como o ipê nos ripados colocados no térreo, nos terraços e na cobertura, estabelecendo unidade plástica ao conjunto. A mesma madeira reveste os pilares estruturais aparentes. Promovendo contraste de tonalidades, o volume da frente recebeu revestimento de placas pré-moldadas de laminado melamínico em cor clara. Um modo de filtrar a intensidade da luz natural foi instalar pergolados no térreo e na cobertura, criando, assim, identidade além de sombrear o local.

“Foi emocionante fazer esse projeto, pois além de lembrarmos de nossos pais, passamos também a refletir sobre nossa própria velhice. Como seremos? Bem, por enquanto, o importante é oferecer o melhor de nossos corações e mentes a esses idosos”, diz Luiz Felipe Aflalo Hermann.

FICHA TÉCNICA
Arquitetura: Aflalo & Gasperini – Luiz Felipe Aflalo Hermann, Gian Carlo Gasperini, Roberto Aflalo Filho
Coordenação: Luana de Alencar Radesco
Arquitetos: Flavio Garcia, Marcos Pi Bertoncello
Estagiário: Camila Hirota
Desenhos para publicação: Eduardo Mizuka
Incorporação: Stan Empreendimentos Construtora: RFM
Fundação: Fundacta
Acústica: Acústica e Sônica
Pressurização: Willem Scheepmaker & Associados
Impermeabilização: Proassp
Automação: MHA Engenharia
Cozinha industrial: Cocicov
Caixilharia: AEC
Elevador: Empro Engenharia
Estrutura: Pasqua & Graziano
Paisagismo: Isabel Duprat
Luminotecnia: Mingrone Iluminação
Combate a incêndio: Ofos Engenharia e Consultoria

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