Na crise, casas compartilhadas podem ser opção


(Estadão) – 21/05/17

Modelo pode ser bom para donos de imóveis e locatários, mas Creci alerta para a necessidade da definição de responsabilidades

Casa compartilhada por várias pessoas no Pacaembu. Foto: Nilton Fukuda/Estadão

Em tempos de crise econômica e imobiliária, a vontade de morar bem e pagar um preço justo ainda persiste. Como saída, o uso de casas compartilhadas vem sendo visto como opção de moradia em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro e já desperta o interesse de algumas imobiliárias.

O sistema, que é relativamente novo no Brasil, funciona assim: várias pessoas moram juntas, sem grau de parentesco e dividem as despesas entre elas. O objetivo é criar um convívio e ter vínculo afetivo – ao contrário da já conhecida república.

O advogado especialista em contratos imobiliários Alexandre Honorato afirma que esse tipo de moradia pode ser uma saída para o mercado imobiliário, uma vez que há grande número de estoque de casas vazias. “Existem muitas pessoas querendo morar juntas e há diversos imóveis desocupados, ou seja, os proprietários precisam entender que essa é uma tendência e que veio para ficar”, afirma. A arquiteta e especialista em casas compartilhadas Lilian Lubochinski concorda com Honorato. Ela acrescenta: “Diversas casas abandonadas estão em regiões que não podem ter uso comercial e que estão há anos sem nenhum morador”.

Honorato acredita que o contrato de casas compartilhadas é mais benéfico para o proprietário do que o convencional. “Se houver algum problema jurídico, o locador tem três ou quatro locatários para poder cobrar, enquanto no modelo familiar ele tem apenas um.” Ele ampara o contrato feito por residentes de uma casa compartilhada: “São várias pessoas que cuidam da saúde financeira do imóvel”.

O presidente da carioca RC Girão Imóveis, Roberto Girão, afirma que atualmente existe “dificuldade enorme” de alugar uma casa grande. “A casa compartilhada vem como escapatória desse mercado estagnado. E a principal vantagem é que o risco do proprietário não receber é bem menor”, diz. Girão acredita que esse tipo de moradia está mexendo com o mercado imobiliário, porque “é uma tendência e o setor precisa olhar com atenção para ela”.

A lei de locação atual contempla a casa compartilhada como um tipo de residência, segundo o advogado. “O proprietário tem garantias para fazer tal contrato, é mais uma questão de ele ter medo do que uma questão legal”, afirma Honorato.

A tarefa de convencer os proprietários a aderir à ideia não é fácil. O fundador da Casa da Gente, Winston Petty, lembra que fez uma apresentação de powerpoint para o dono da mansão, situada no Pacaembu, explicando todo o conceito e o que ele e seu grupo de amigos vegetarianos pretendiam.

“A proposta é fazer algo que liga um ao outro, que motiva ações pessoais de cada um e a convivência e que seja um oásis de tranquilidade e de energia”, afirma. Segundo ele, a casa de 576 m² é pioneira em moradia compartilhada no País – existe desde dezembro de 2014.

O imóvel possui cinco dormitórios, sendo quatro suítes, mais dois quartos na edícula, além de uma horta feita pelos moradores. Com um aluguel de R$ 14 mil mensais, os onze moradores pagam mensalmente cerca de R$ 1.272 cada um. Dessa forma, conseguem pagar um preço acessível e morar em uma casa confortável em uma região bem localizada.

Além das contas, cada um tem uma tarefa na casa: fazer almoço, consertar eletrodomésticos, organizar a despensa, comprar ingredientes culinários, cuidar do minhocário, entre outras. A arquiteta Mariana Brasil, de 33 anos, se mudou para lá com a intenção de morar com pessoas diferentes e sem vínculo parental e, a partir daí, construir uma família. Assim como ela, todos os demais residentes possuem curso superior e a maioria trabalha em home office, como Petty, dono de uma startup. Os moradores ainda compartilham três carros entre eles.

As coisas estão indo tão bem, que o fundador Petty está na corrida para lançar, em meados de junho, a segunda casa compartilhada. “Tenho vários amigos que querem viver em um ambiente como o nosso, e com essa tamanha procura, resolvemos criar outra residência”, afirma.

O jovem empresário acredita que a forma de morar é recente no País e que a população necessita olhar sem preconceito para esse modelo. “Nós construímos três suítes aqui na casa porque temos uma arquiteta morando aqui, fizemos uma horta, nós realizamos melhorias no imóvel e isso, sem dúvida, é bom para o proprietário”, diz. “O setor imobiliário precisa se preparar, porque ele ainda não sabe o que é, mas precisava saber”, completa.

Proprietário. A ideia convenceu Maria do Carmo, de 60 anos. “A iniciativa de ceder o meu imóvel para o esquema de casa compartilhada foi devido à crise. Eu estava com dificuldades para encontrar alguém que alugasse”, afirma.

Ela possui um apartamento de 220 m² em Copacabana, no Rio de Janeiro, que ganhou os olhos da coach em desenvolvimento de líderes Marcia Taliyaki, de 31 anos. Ela mora com seis pessoas no imóvel, nomeado Ninho de Condores, que tem quatro quartos, três banheiros e dividem a sala, cozinha e uma área. A coach acredita que a concepção partilhada não é um tipo de moradia e, sim, um estilo de vida, mas admite que é mais barato do que viver sozinho.

“Os imóveis disponíveis para aluguel atendem o conceito de compartilhamento, mas a maioria dos corretores e proprietários ainda não compreendem e interpretam equivocadamente o fim social da utilização”, afirma Marcia. “Eu não vi nenhum problema no objetivo de vida deles. Não estou arrependida, até porque eles cuidam do apartamento como se fosse deles”, afirma a proprietária, que recebe R$ 4.600 mensalmente pelo imóvel.

Para o presidente do Conselho Regional de Corretores de Imóveis de São Paulo (Creci-SP), José Augusto Viana Neto, a casa compartilhada é uma evolução positiva do ponto de vista social. “Mas do ponto de vista imobiliário, é uma modalidade de locação complicada.”

Ele afirma que é preciso definir os deveres dos residentes. “Não é somente colocar três pessoas como locatárias, porque se uma não pagar, as outras duas não têm dever nenhum sobre a outra”, afirma. “É preciso ter uma separação de responsabilidade no contrato.”

Inspirada no conceito de compartilhamento, a House of All, no bairro de Pinheiros, zona oeste paulistana, possui uma proposta diferente: oferece apenas os serviços de uma casa, mas não moradia. São quatro atividades: lavanderia e aluguel de roupas, espaço para trabalhar e fazer reuniões, local para cursos e refeições na casa. Wolfgang Menke inaugurou o empreendimento em outubro de 2013.

Para participar de algum curso, que também é oferecido pela casa, o cliente desembolsa R$ 350 – destes, 25% vão para a casa. Para aproveitar os serviços de lavanderia ou usar o guarda-roupa, o gasto é de até R$ 150. Já o refeitório é variável – depende do cardápio que aquele dia oferece, “mas sempre com preço justo”, garante Menke.

Ele, porém, está trabalhando no projeto de construir um edifício para cerca de 90 famílias. “É ambicioso”, reconhece. O prédio, segundo ele, terá os mesmos serviços da House of All.

“Cada andar será a moradia para oito famílias, e nesse mesmo piso haverá os espaços onde serão compartilhados cozinha, lavanderia e biblioteca”, afirma. Dessa forma, será o primeiro prédio compartilhado do País, afirma o empresário. Menke, no entanto, não tem data para o lançamento.

Ele diz que uma alternativa seria usar um prédio ocioso para realizar o empreendimento. De acordo com o empresário, trata-se de uma maneira de utilizar espaços imobiliários que estão desocupados.

Segundo Menke, o projeto também precisa fazer jus ao termo economia. “É necessário saber economizar. Por exemplo, qual a razão de haver várias lavanderias e não uma que todos utilizam?”, diz.

“É a síntese da nova geração e as pessoas vão se acostumar com o compartilhamento”, afirma Menke.

A arquiteta Lilian Lubochinski acredita que os lares compartilhados têm ganhado espaço no Brasil. “É uma tendência por causa do desejo da geração, com pessoas entre 30 e 40 anos, da afetividade e do compartilhamento. É também prova da mudança dos núcleos familiares onde eu conheço casas compartilhadas que possuem como residentes mães solteiras ou divorciadas e suas respectivas filhas (os).”

As casas compartilhadas no território brasileiro seguem a concepção de cohousing, fundado na década de 1970 na Dinamarca, como sistema de moradia que valoriza o convívio com os vizinhos e a política de compartilhamento. As pessoas têm as suas próprias casas, mas dividem alguns espaços para o convívio social.

Cada comunidade estabelece as regras e, geralmente, repartem a cozinha, lavanderia e biblioteca, enquanto outros compartilham até mesmo os carros.

O cohousing, além de ser intencional, tem o espírito de solidariedade carregado com a ideia de uma vida cada vez mais simples. O conceito é posto em prática por diversos países europeus e nos Estados Unidos.

“As pessoas querem mais do que rachar os custos, no conceito de casa compartilhada elas querem convivência, elas querem comunidade”, afirma a arquiteta, que também é coordenadora do Cohousing Brasil.

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