Governança da inovação: O papel indelegável do conselho de administração na difusão da inovação corporativa em grandes empresas


(Innoscience – www.innoscience.com.br) – 20/01/16

Todos querem inovar. Desde empresas tradicionais, em setores maduros, até startups em indústrias de alto crescimento. Mas os resultados dos investimentos em inovação ainda estão longe do esperado. Há consenso de que a inovação é prioridade máxima da alta gestão porém faltam estruturas, processos e sistemas adequados a realidade incerta dos projetos inovadores. A dura verdade é que realizar algo novo, em empresas estabelecidas, é um enorme desafio.

Analisemos o mercado de transporte, comunicação, turismo, varejo, saúde e hospedagem e as oportunidades disruptivas recém criadas. Não foram os players estabelecidos, o establishment, que criaram o novo. Foram empresas como Uber, Tripadvisor, Chili Beans, Dr. Consulta, Airbnb, WhatsApp que desbravaram e estão agora monetizando essas oportunidades. Então qual a saída para os líderes desses setores? Se transforarem em startups? Não creio. Afinal eles tem um negócio existente para operar, algo que as startups não tem.

O desafio das grandes empresas
As grandes empresas tem recursos, relacionamentos, marca e outros ativos muito relevantes. No entanto, enfrentam um conjunto de paradoxos para inovar. Aquilo que as faz mais eficientes operacionalmente (vide lista abaixo) é também o que as inibe de descobrir, nutrir e escalar novas oportunidades.

1. Focar toda atenção estratégica no negócio existente para entregar resultados de curto prazo aos acionistas.
2. Realizar a divisão do trabalho por departamento, área geográfica ou linha de produto.
3. Usar ferramentas de avaliação de desempenho, recompensa e reconhecimento para garantir a entrega dos resultados.
4. Gerenciar projetos de forma padronizada, dentro da estrutura organizacional vigente, sem dedicação exclusiva.
5. Buscar novas oportunidades junto aos clientes existentes por meio de pesquisas quantitativas.
6. Fomentar entre as pessoas uma cultura de controle, eficiência, previsibilidade e cumprimento das regras.
7. Analisar e selecionar oportunidades com base em análise financeira de Fluxo de Caixa Descontado.

Perceba que são todas práticas fundamentais para a execução eficaz, por outro lado, são também práticas que tornam menos presente a busca e desenvolvimento de projetos inovadores. Denominei essas práticas de “Os 7 inimigos mortais da inovação em grandes empresas”.

Os temas estratégicos
Para fazer a inovação funcionar em grandes empresas não adianta copiar as startups. São criaturas totalmente distintas. É preciso conectar conselho de administração e gestão na tarefa de abordar a inovação de forma sistemática, estratégica e estruturada. Emergem 5 temas críticos que devem ser objeto de discussão na alta gestão:

Por que inovar? O primeiro ponto de discussão é definir as razões que mobilizam a empresa para inovar. Esse alinhamento entre conselho e gestão é decisivo para garantir continuidade de alocação de recursos em momentos de incerteza, crise e dúvidas sobre as iniciativas de inovação.

Quanto inovar? O segundo tema é estabelecer a intensidade necessária de inovação. Esse fator irá determinar o nível de investimento e de estrutura necessária. Escrevemos recentemente sobre a Posologia da inovação detalhando essa reflexão.

Onde inovar? Compreendidas as razões e a intensidade da inovação é necessário direcionar o foco para os temas, oportunidades e problemas relevantes sobre os quais a empresa pretende inovar. Novos segmentos de mercado. Uma tecnologia emergente. Novos produtos. A busca por novos modelos de negócio. A eficiência da inovação depende de focar onde buscar inovação e onde não fazê-lo.

Como inovar? Há dois modelos chave de como governar a inovação em grandes empresas. A área de inovação pode servir como articulador da inovação ou como executor de projetos. Num modelo ela atua como prestador de serviço das unidades de negócio enquanto que noutro como gestora dos projetos de inovação.

Com quem inovar? A inovação passou de uma atividade de P&D, fechada, para uma iniciativa aberta conectada com diferentes stakeholders no que se convencionou denominar open innovation. Quando sua empresa sabe quando e onde pretende inovar, fica evidente com quem se conectar para inovar mais e melhor.

O que o conselho de administração não pode delegar
Os 5 temas acima apresentadas evidenciam as questões fundamentais a serem discutidas entre conselho de administração e gestão. Mas há, contudo, tarefas indelegáveis do conselho de administração no que se refere a gestão da inovação.

1. Estabelecer a estratégia de inovação
2. Definir o nível de risco adequado
3. Auditar as capacidades de inovação
4. Avaliar o desempenho da gestão sobre inovação
5. Desenvolver o conselho para inovação
6. Selecionar CEO com perfil de inovação
Fonte: Deschamps

A busca por inovação deve se acentuar nos próximos anos em face do aumento da competitividade. Para seguirem relevantes, as grandes empresas deverão lidar com seus inimigos mortais e abordar de forma concreta os temas críticos discutidos. O conselho de administração é, e não poderá deixar de ser, o início, meio e fim de determinadas atividades da gestão da inovação. Ou não haverá, no futuro, empresa a ser administrada.

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