Vale-coworking pode ser a próxima revolução no mercado de escritórios


(GRI Hub) – 27/04/21

Nas duas cidades mais populosas do Brasil, a taxa de vacância das lajes corporativas de médio e alto padrão vem apresentando aumento, segundo dados da SiiLA Brasil. Em São Paulo, estava em 14,8% no 1º trimestre de 2020 e passou para 21,2% após um ano. Veja o desempenho por região.

Diferentemente de São Paulo, o Rio de Janeiro já passava por dificuldades no ano passado, ainda fruto da crise econômica ocorrida a partir de 2015, registrando vacância de 29,5% no 1º trimestre. Por esse motivo, a alta não foi tão acentuada no comparativo anual, tendo o mercado carioca uma vacância de 30,7% nos três primeiros meses de 2021. Confira o gráfico.

Explicitamente, a queda na ocupação dos escritórios está relacionada com a chegada da pandemia, que instalou o cenário de isolamento social e consolidou o modelo de trabalho remoto. Nesse contexto, uma pergunta é recorrente no setor imobiliário: “Qual o futuro dos espaços corporativos?”

Para representantes do segmento, não há dúvida que o futuro se trata de um modelo híbrido. Tiago Alves, CEO da Regus/IWG, baseia-se em uma pesquisa realizada pela empresa em 2019, antes mesmo da Covid-19: “Cerca de 50% dos funcionários já trabalhavam fora da sede principal por pelo menos 2,5 dias por semana”, afirma.

Outro estudo, neste caso da WeWork, indica que 79% dos executivos C-Level planejam viabilizar que seus funcionários dividam seu tempo entre escritórios corporativos e trabalho remoto, se as respectivas atividades permitirem. “O futuro de curtíssimo prazo é de grande flexibilidade”, aponta Lucas Mendes, general manager Brazil da WeWork.

Considerando a totalidade dos colaboradores, Fernando Bottura, fundador e CEO da GoWork, acredita em um dia de trabalho remoto por semana, o que afetaria em 20% o contingente ocupacional de uma empresa. “Teremos impacto direto no Real Estate. A tração de crescimento deve se arrefecer nos próximos dois ou três anos, até voltar a crescer novamente”, afirma.

Portanto, o executivo entende que as taxas de vacância devem se manter nesses níveis até que o segmento se reinvente. “Acho que não teremos novas quedas na ocupação dos prédios. Quem tinha que devolver, já devolveu, e agora começa uma reformulação para um modelo flexível”, acrescenta Bottura.

Já para Mendes, no médio prazo, os grandes players imobiliários serão pressionados pelo mercado a também exporem o portfólio a modelos de negócio flexíveis, ao invés de se restringir às locações de longo prazo.

Ressignificação dos escritórios matriz

Neste contexto de mudança, Alves crê que os escritórios matriz terão um novo significado. Para o especialista, a locação de um espaço corporativo deixa de envolver apenas a quantidade de metros quadrados, incluindo também a maneira como este ambiente será aproveitado pela companhia.

“O novo propósito está ligado à integração, conexão entre pessoas, crescimento do sentimento de equipe, infraestrutura e conectividade. As empresas e as pessoas passaram a buscar um relacionamento diferente com os custos e com os ativos na pandemia”, garante.

O método, inclusive, já tem sido desenvolvido por grandes companhias dos Estados Unidos, onde a vacinação está em fase mais avançada. “Empresas como Google, Amazon, Microsoft e Netflix estão tentando reestabelecer rotinas nos escritórios, que simbolizam o ponto central da cultura, da colaboração e da inovação”, revela Mendes.

Em live realizada pela JLL, Washington Botelho, presidente da Divisão de Corporate Solutions para a América Latina, também cita a necessidade de maior integração nos espaços de trabalho, estabelecendo uma visão de ecossistema, e salienta a introdução de mais tecnologia nos escritórios em um futuro próximo.

“Os escritórios terão sistemas de segurança de reconhecimento facial, elevadores sem toque e reuniões híbridas com quem está em casa, inclusive com hologramas. Ainda pode haver sistema integrado de gestão, ajustando o fluxo de ar e a temperatura dos ambientes”, projeta.

Flexibilização do trabalho

Outra tendência é dividir departamentos ou equipes em células regionais pela cidade, no conceito chamado squad office: “Os funcionários podem trabalhar mais próximos de casa, reduzindo mobilidade excessiva, e os escritórios matriz podem ser transformados em algo maior do que somente mesas e cadeiras”, diz Alves.

Por sua vez, em companhias com políticas mais avançadas em relação ao trabalho flexível, há o conceito de anywhere office. Segundo o CEO da Regus/IWG, “trabalhar deixa de ser sobre onde e passa a ser sobre quando”, tendo os colaboradores a opção de alternar entre teletrabalho e coworkings.

Neste caso, uma das opções para a empresa é oferecer a modalidade de coworking aos funcionários em formato de benefício. “Assim como hoje existe vale-transporte e vale-alimentação, o ‘vale-coworking’ promete ser a próxima revolução do mercado, uma vez que a empresa pode economizar com custos de espaço e o empregado tem uma opção extra além do home office”, completa.

Sobre esse aspecto, Mendes revela que mais da metade da demanda da WeWork no Brasil é de companhias com mais de mil funcionários. “Temos pessoas físicas, mas, no geral, as empresas pagam pelos espaços. Algumas, como a Sky, além de ter um escritório central, podem usar toda a nossa rede de 800 prédios ao redor do mundo”, afirma o general manager.

Isso porque a alternativa tem realmente sido uma vontade expressa do mercado de trabalho. Segundo o fundador e CEO da GoWork, pesquisas indicam que a maioria dos colaboradores é a favor de um modelo híbrido, a principal premissa do modelo coworking.

“O ser humano precisa de relações interpessoais. A nossa natureza envolve a comunidade e a nossa produtividade está ligada com um ambiente correto e produtivo, no qual diversas pessoas partilhem de um mesmo objetivo”, garante Bottura.

Mudança para as cidades

Considerando que as previsões sejam assertivas, sem dúvida haverá um impacto nas cidades. Alves assegura que a dinâmica urbana deve mudar em função das novas estruturas de moradia e trabalho e da diminuição do uso de automóveis.

Este último item, além de amenizar o trânsito, deve reduzir a emissão de poluentes para a atmosfera, um importante passo na proteção ambiental. O uso inteligente dos espaços é outra tendência que caminha neste sentido.

Já para os cidadãos, o modelo possibilita utilizar o tempo ganho com deslocamento para diferentes fins, aumentando a qualidade de vida e a flexibilidade. Bottura exemplifica: “O colaborador pode trabalhar em um coworking durante boa parte da semana e fazer home office em sua casa do interior na sexta-feira”.

Estes dois modelos de trabalho também significam novas oportunidades para empregadores e empregados. “As companhias terão a opção de buscar profissionais do mundo todo ao aproveitar a flexibilidade e o uso de tecnologia”, conclui Mendes.

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