Curvas e quadrados sagrados


(Arcoweb/ Projeto Design, por Fernando Serapião)


A fachada posterior é marcada pelo volume da sacristia

Uma das mais aguardadas obras das últimas décadas, a Igreja do Jubileu, em Roma, foi desenhada pelo norte-americano Richard Meier. O projeto, em que as curvas marcam a ala sacra da edificação, foi escolhido em concurso fechado do qual participaram também o japonês Tadao Ando, o alemão Günter Behnisch, o hispano-suíço Santiago Calatrava, o norte-americano Peter Eisenman e o canadense radicado nos EUA Frank Gehry.
Idealizada inicialmente para ser a Igreja do Milênio, a obra foi inaugurada no final de 2003, com três anos de atraso. Resulta daí a mudança de nome, já que a data coincidiu com o jubileu do pontificado do papa João Paulo 2º.

O espaço entre as conchas é vedado com caixilharia e vidro

Localizada no bairro de Tor Tre Testa, periferia de Roma, a igreja faz limite com um parque público e é rodeada por dez edifícios de apartamentos, onde residem cerca de 3 mil pessoas.
O templo está implantado no centro de um terreno de formato triangular. No vértice mais próximo ao conjunto de prédios, a leste, situa-se o acesso principal. No lado oposto, junto ao parque, fica o estacionamento. Ao sul, a esplanada comporta ritos religiosos ao ar livre, como procissões. A porção norte é ocupada por jardins e áreas de lazer.
No volume construído, a forma é responsável pela clara distinção de funções. A área sacra, voltada para o sul, caracteriza-se pelas curvas e abriga nave principal, capela, confessionários e altares, entre outros. Ao norte, a porção profana – que se destina ao centro comunitário e à residência do pároco – revela o predomínio das linhas retas.
As curvas do espaço sacro são formadas por círculos deslocados que se materializam em conchas de concreto protendido moldadas in loco, revestidas com mármore travertino. São três curvas, que, segundo o arquiteto, fazem discreta alusão à Santíssima Trindade.
Os intervalos entre as conchas são vedados por caixilhos e vidros que permitem a entrada de luz natural no templo. Dessa forma, de acordo com a estação do ano, o tempo, a hora e a intensidade de luz, modifica-se a percepção do espaço.
A ala profana é formada por sucessivas sobreposições de quadrados e retângulos, características da obra de Meier. O principal acesso a esse setor, que possui quatro pisos, se dá através do átrio leste-oeste que divide os dois volumes. No subsolo, duas grandes salas de reuniões e um auditório abrem-se para um pátio.
No térreo – o mesmo nível da nave principal – ficam as áreas de trabalho dos padres e salas de catequese, que ocupam ainda o primeiro piso. No segundo andar, está a residência do pároco, com sala, cozinha e quatro quartos.
O acesso ao centro comunitário também ocorre através do pátio, que pode acomodar encontros formais ou informais da comunidade.
Um aspecto curioso do projeto – e típico do ecumenismo que marca a atualidade: a Igreja do Jubileu é o primeiro templo católico romano desenhado por um judeu. E mais: dos seis arquitetos que participaram do concurso, outros três são judeus e um é budista.

Três conchas de concreto, à esquerda, abrigam a igreja;
o volume à direita é ocupado pelo centro comunitário

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