Custo de materiais de construção tem alta recorde e afeta reformas e planos de construtoras


(Estadão) – 22/07/21

Os planos da faxineira Eliana Pimentel dos Santos, de 45 anos, para a construção da casa em Guaratiba, na zona oeste do Rio, tiveram de ser adiados por conta da inflação. A ideia era começar a erguer as paredes da nova casa de três quartos agora em julho, mas o dinheiro guardado para os vergalhões que sustentariam as colunas não foram suficientes para a compra orçada com antecedência. Com isso, o trabalho no terreno da família só poderá ser retomado em agosto.

“Mês passado, o ferro estava R$ 14 a vara. Este mês está R$ 22, aumentou muito. A vendedora falou que, se você quiser comprar um material que custa R$ 20, tem de guardar R$ 40, porque está aumentando de um dia para o outro”, disse Eliana. A fundação da casa já está pronta, mas, nesse ritmo, a expectativa é que ela, os dois filhos e o neto só consigam se mudar para o local no fim do ano que vem.

A alta de preços não está restrita aos vergalhões. O item referente a materiais e equipamentos de construção acumula uma alta recorde de 32,92% no período de 12 meses encerrado em junho, segundo o Índice Nacional de Custo da Construção – Disponibilidade Interna (INCC-DI), apurado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), o maior patamar desde o início do Plano Real. Já o INCC-DI completo, incluindo também preços de mão de obra e de serviços, registra uma alta de 17,34% no período – ainda assim, muito além da inflação oficial (8,35%).

Os itens que mais subiram de preço no período foram tubos e conexões de ferro e aço (alta de 91,66% em 12 meses até junho de 2021); vergalhões e arames de aço ao carbono (78,35%); condutores elétricos (76,19%); tubos e conexões de PVC (64,91%); eletroduto de PVC (52,06%); esquadrias de alumínio (35,21%); tijolo/telha cerâmica (33,82%); compensados (30,47%); cimento portland comum (27,62%) e produtos de fibrocimento (26,96%).

Essa disparada nos preços atrapalhou também os planos do empresário Raphael Paiva de Souza, de 30 anos, dono de uma loja de móveis. Ele precisou adiar a reforma que planejava fazer na casa onde mora com os pais, no Tatuapé, zona leste de São Paulo. A ideia original era reformar as salas de estar e de jantar e o lavabo, mas, com os preços subindo, o último cômodo acabou ficando para depois.

“Os materiais de construção já estavam em um valor alto e a mão de obra também, então optamos por adiar a reforma do lavabo e pensamos em comprar as coisas aos poucos”, disse. “Assim que eu tiver todos os materiais, vou chamar a mão de obra. Mas estou acompanhando os preços desde julho do ano passado e realmente nesse último mês subiu muito.”

Ele disse que aguardava alguma promoção para conseguir realizar as compras e que ficou “chocado” com o ritmo com que os preços aumentaram. “Principalmente o piso que a gente queria, de porcelanato: há seis meses, era R$ 98 o metro quadrado e agora está R$ 164. O cimento também está subindo muito.”

O plano de Raphael era terminar toda a obra antes do Natal deste ano. “Estamos na esperança de poder receber as pessoas em casa até lá. Então, o lavabo já reformado facilitaria bastante”, disse. Ele também planejava comprar um terreno até o fim do ano, para construir um galpão para a empresa. “Mas esse aumento de preços dos materiais está me deixando preocupado, porque não vou ter o capital para fazer a construção.”

Impacto nos negócios

Em junho, o aumento de custo da matéria-prima foi apontado, pela primeira vez, como o principal empecilho aos negócios nas empresas de construção, segundo dados da Sondagem da Construção, também da FGV. No mês, 36,4% das empresas ouvidas pela Sondagem da Construção apontaram o encarecimento da matéria-prima como principal limitador à melhoria dos negócios, ultrapassando assim as menções a problemas como demanda insuficiente (35,3%), questões financeiras (16,9%) ou acesso a crédito bancário (13,1%).

“Acho que essa é uma questão que ainda está latente”, disse Ana Maria Castelo, coordenadora de Projetos da Construção do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (Ibre/FGV). “É uma questão que preocupa, porque dificulta até a formação de orçamentos. Porque as empresas formam um orçamento hoje, mas quando forem lançar o imóvel, quando forem vender, os preços estão subindo muito, como você faz essa projeção? É uma questão que complica significativamente. Por outro lado, para as famílias que já compraram imóvel e têm suas parcelas indexadas pelo INCC isso também é um problema, porque o índice está subindo de uma forma expressiva. É um componente que traz uma tensão ao cenário.”

Empresários do setor se queixam que o descontrole de preços de materiais pode frear o ritmo de recuperação da atividade de construção. “Está impactando e impactará muito para o futuro. No primeiro trimestre a gente viu redução de lançamentos imobiliários. Poderia estar no auge, no momento mágico”, disse José Carlos Rodrigues Martins, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC).

A CBIC revisou no início do ano as suas expectativas de crescimento do setor em 2021, de 4% para 2,5%. “O setor continua crescendo, mas ele poderia crescer bem mais se não fosse esse problema de aumento dos insumos”, resumiu Martins.

O presidente da entidade explica que a alta de insumos muito acima do previsto tem corroído o lucro conquistado pelas construtoras com os aumentos recentes nas vendas, sob o risco de transformar em prejuízo o que já foi arrecadado para lançamentos futuros, que terão obras com custo mais elevado.

“Eu vendo uma unidade habitacional. Conforme o tipo de contrato, tem zero de reajuste. As vendas pela Caixa Econômica, que são 70% do mercado, não têm reajuste. Você não previa um aumento de custo desse tamanho. Então a empresa começa a ter problema. Aí ela vai lançar um novo empreendimento, mas pensa que a venda pode ser não um lucro, mas um prejuízo, já fica temerosa. Mesmo assim, ela precisa lançar mais para compensar os prejuízos nesses contratos assinados, isso no mercado imobiliário. Quando você vai para obra pública, as obras que têm reajuste, e não são todas, são obras de dois ou três anos, porque até 12 meses é proibido ter reajuste”, relatou Martins, acrescentando que essa incerteza sobre os custos e a impossibilidade de reajustes no contrato têm afastado construtoras de editais públicos lançados recentemente.

A alta de preços dos insumos chegou a prejudicar a retomada no índice de confiança da construção a partir do último trimestre do ano passado, quando desceu de um patamar de 95,2 pontos em outubro até 85,0 pontos em abril deste ano. Em junho, houve melhora, para 92,4 pontos, mas ainda com as expectativas mais positivas que as avaliações sobre a situação atual.

“A gente associou muito essa perda de ímpeto da confiança à questão dos aumentos dos preços. A falta de matérias-primas também foi assinalada, mas a assinalação maior foi em relação a esses preços das matérias-primas”, relatou Ana Maria Castelo, do Ibre/FGV. “Realmente esse pode ser um empecilho (ao crescimento futuro do setor).”

Custo da mão de obra também aumenta

O custo nacional da construção, por metro quadrado, foi de R$ 1.421,87 em junho, sendo R$ 829,19 relativos aos materiais e R$ 592,68 referentes à mão de obra, segundo os dados do Índice Nacional da Construção Civil (INCC/Sinapi), apurado pelo IBGE. A inflação do setor apenas no mês de junho foi de 2,46%, a taxa mais elevada da série histórica com desoneração da folha de pagamentos, iniciada em 2013. O custo de mão de obra e insumos na construção ficou 20,92% mais caro nos últimos 12 meses até junho, também a maior alta de preços da série.

O resultado de junho teve impacto do dissídio coletivo de profissionais que atuam no setor em 10 Estados, mas a pressão acumulada dos preços de insumos é o que vem renovando mês a mês os recordes na inflação do setor, apontou Augusto Oliveira, gerente do INCC/Sinapi. Ele aponta que os materiais derivados de aço, PVC e cobre são os que mais têm sofrido reajustes. Há a questão do aumento nas matérias-primas no mercado internacional, mas também a oferta insuficiente para suprir a demanda aquecida.

“É uma conjuntura de situações. Demanda aquecida, obra de formiguinha, nas empresas de maior porte as obras continuaram na pandemia, a demanda continuou. Tivemos notícia que é o melhor período da construção civil”, disse Oliveira.

Segundo ele, os vendedores de materiais de construção que são informantes na pesquisa têm relatado escassez de produtos, que chegam no mês seguinte com preços mais elevados, por reajustes efetuados ainda na indústria. “O informante fala, olha, está difícil de entrega e quando entrega vem com alta (de preço)”, relatou o gerente do INCC/Sinapi.

A inflação no varejo, apurada pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), também do IBGE, mostra que as famílias estão pagando consideravelmente mais pelo cimento (17,73% em 12 meses até junho), tijolo (25,10%), material hidráulico (37,98%), revestimento de piso e parede (23,27%), ferragens (22,74%) e telha (22,08%).

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