Os escritórios encolhem e o mercado imobiliário sofre queda de até 35% na locação de espaços comerciais


(Isto É) – 06/02/22

O home office decretado nos dois primeiros anos de pandemia foi o grande pesadelo do mercado corporativo de imóveis. Em 2020, o setor viu as empresas devolverem 273 mil m2 de escritórios alugados. Em 2021, a marca subiu para 290 mil m2, segundo dados da consultoria Newmark. Em pontos nobres da capital paulistana, como as Avenidas Faria Lima e Engenheiro Luís Carlos Berrini, considerados grandes centros financeiros, a vacância dos imóveis corporativos chegou a 30%, um aumento de 25% em relação a 2019. Vale destacar que no ano anterior à chegada do vírus, o setor estava preparado para crescer – e não encolher.

“Nunca tivemos uma vacância tão alta no setor”, diz o administrador Kwan Lao, de 53 anos, investidor do mercado imobiliário há pelos menos 20 anos. “Todos diziam que o home office seria o novo normal, mas não é bem assim. O mercado já está reagindo.” Segundo o investidor, no quarto trimestre do ano passado, a vacância diminuiu para 22%, em média. A vacinação fez com que o trabalho presencial começasse a voltar, mas não do mesmo jeito. Uma das mais amplas pesquisas internacionais sobre o mundo corporativo, a Global Work-from-Home Experience Survey, indica que 77% das pessoas querem continuar a trabalhar de casa. Essa é uma questão para as empresas resolverem.

O Studio Guto Requena, de arquitetura e design, localizado em São Paulo, tem recebido pedidos de remodelações de sedes de empresas, que diminuíram de 30% a 50% os espaços internos dos escritórios. Essa é uma reposta à mudança na forma de trabalho, que continua à distância, pelo menos alguns dias da semana. “Apesar dos dados positivos sobre a resposta ao smart working, nosso entendimento é que o escritório vai continuar existindo, mas será profundamente reduzido”, diz Guto Requena, que desenvolve uma pesquisa sobre o tema. “As sedes das empresas são bem mais do que endereços de trabalho. O escritório existe para incorporar os valores e a cultura da empresa, vivenciar o coletivo, impulsionar e capacitar a comunidade.”

Conhecido como uma das maiores empresas de arquitetura e construção do mercado corporativo, a Athiè Wohnrath também enfrenta o desafio de adaptar os espaços corporativos a novos conceitos. “Muitas empresas foram resistentes a abrir mão do presencial, mas tiveram de aderir”, diz Sergio Athiè. “Elas descobriram que era possível, sim, trabalhar alguns dias de casa e adotaram políticas que, ao que parece, vão se perpetuar.” Uma característica que virou passado é a grande sala com mesas fixas de trabalho, divididas por baias. “Agora a tendência é ter postos livres com menos pessoas dentro do ambiente.”

Até como uma contrapartida aos dias pesados do auge da pandemia, as empresas querem locais atraentes, alegres e que transmitam bem-estar aos funcionários. Espaços abertos, integrados, coloridos e descontraídos já eram tendências consagradas pelas grandes empresas de tecnologia, como o Google e o Facebook, mas viraram desejo de consumo. “As pessoas querem se sentir livres”, diz Pedro Felmanas, que projetou a sede da farmacêutica Cimed.

“Agora estou resignificando os ambientes, porque as empresas querem espaços que sejam importantes na vida do funcionário”, diz Athiè. Por exemplo, na sede da seguradora Icatu, no Rio de Janeiro, ele projetou uma sala de amamentação, com máquinas onde as mães podem armazenar o leite das crianças. Localizada no 18º andar de um edifício na Avenida Oscar Niemayer, a sede é toda envidraçada e tem vista para o mar.

Mesmo mais enxutas, as empresas querem impactar. “Por isso, uma das saídas é investir na área de recepção do cliente, que ficou mais imponente”, diz a arquiteta Fernanda Negrelli. Na sede de um advogado tributarista, ela projetou um espaço com lareira, adega climatizada, chão de mármore e móveis luxuosos. “Na área interna, onde ficam os funcionários, projetamos postos híbridos e sem divisões.” Plantas, objetos de madeira e ambientes que deem sensação de amplitude são alguns truques usados para deixar o local de trabalho humano e acolhedor. “As empresas abriram mão do espaço, mas não do status”, explica Fernanda. A regra ainda é impressionar o cliente.

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