Entrevista Elie Horn


(O Estado de S. Paulo) – 07.01.09

O empresário Elie Horn, fundador e presidente da Cyrela Brazil Realty, prima pela discrição. Raramente é visto em público. Com esse estilo, criou a maior construtora e incorporadora de imóveis residenciais do País, e frequenta há tempos a lista dos homens mais ricos do mundo elaborada pela revista Forbes. Em uma rara entrevista, dada à Knowledge@Wharton, revista eletrônica da escola de negócios Wharton, da Universidade da Pensilvânia (EUA), publicada em dezembro, Horn diz que a crise financeira provocou um grande abalo no setor de imóveis. “As pessoas compram imóveis quando podem, quando dispõem de algum dinheiro para investir, quando não se sentem inquietas em relação ao amanhã”, disse. “E a crise financeira deixou todo o mundo nervoso em relação ao amanhã.” Por isso mesmo, o empresário diz que esse é um momento de esperar as coisas evoluírem para poder decidir com calma. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Qual a sua opinião sobre a crise financeira mundial e seu impacto no Brasil?

O Brasil não é uma ilha. Em um mundo globalizado, todos pagam um preço, e o Brasil também está pagando sua cota. Há uma sensação de que, num determinado momento, o mundo parece que enlouqueceu e o jogo mudou de uma hora para outra. O que era verdade, agora é mentira, e a mentira se tornou verdade. Se você não se adaptar, ou perde o juízo ou abre falência. Esse jogo novo é exatamente o oposto do que se via seis meses atrás. Estamos tentando nos adaptar porque não há escolha. No entanto, a loucura continua pelo mundo afora. Não tenho outras palavras: o mundo está de pernas para o ar.

Quais foram as consequências disso para o setor imobiliário brasileiro?

Bem, as pessoas compram imóveis quando podem, quando dispõem de algum dinheiro para investir, quando não se sentem inquietas em relação ao amanhã. A crise financeira deixou todo o mundo nervoso em relação ao amanhã, portanto esse não é um bom momento para o setor de imóveis. Esperamos, e cremos, que esse nervosismo vai passar bem depressa. Há momentos em que o bem imóvel é um porto seguro. Ele não é um negócio especulativo. No Brasil, as pessoas compram apartamentos para morar neles, e não para especular. Portanto, quando tudo mais no setor financeiro vai mal, pelo menos o bem imóvel que o indivíduo possui é seu, não vai desaparecer. Contudo, há 15 ou 20 anos, esse bem foi o bode expiatório da crise financeira, o que pode vir a se repetir.

Nos EUA, foi o setor de imóveis e o de empréstimos subprime.

Não temos empréstimos subprime no Brasil. Não há excesso de crédito. O setor imóvel no Brasil corresponde a uma faixa de 2% a 5% do PIB; nos EUA, essa faixa é de 80% a 90%. Estamos longe do subprime.

No entanto, há problemas de liquidez no Brasil, especialmente no setor bancário. Qual o impacto disso sobre o setor imobiliário?

Trabalhamos em um mundo em que os bancos são importantes para os negócios em geral. De repente, eles param de funcionar. Isso afeta os planos futuros das pessoas. Aí então você se recolhe e espera as coisas acontecerem. Esse é o quadro no Brasil e no mundo todo. Você fica quieto e espera. A melhor coisa é não fazer coisa alguma, se possível.

Então sua estratégia para o momento atual é esperar o desfecho dos acontecimentos?

Minha estratégia agora é de recolhimento. Não pretendo lucrar com a crise. Vou esperar e então me decidir quando as coisas estiverem mais calmas.

Há quem diga que, quando o mercado desaba assim de forma tão drástica, há boas oportunidades de compra.

Na minha carreira, sempre ganhei dinheiro em época de expansão econômica, e não de crises. Em tempos de crise, fico quieto. Não gostamos de especular. Preferimos a segurança. Em tempos de crise, a melhor coisa é ficar quieto. Quando há crescimento, aja rapidamente.

Já que o Sr. mencionou sua carreira, poderia nos contar um pouco sobre sua experiência no setor imobiliário?

O que há de importante em minha história? Não há nada de importante nela.

Bem, quem sabe então a história da empresa, por exemplo…

A empresa existe há mais de 40 anos. Ela cresceu muito sempre que foi na direção contrária da tendência do momento. Não trabalhamos com a securitização de papéis e nem de recebíveis. Trabalhamos com o que temos. Em 1994, quando o crédito secou, em vez de recorrer aos bancos, antecipamos o pagamento de nossas dívidas e operamos com dinheiro próprio. Isto nos permitiu crescer a um ritmo veloz. Sempre trabalhamos com capital próprio. Financiamos clientes e vamos até onde podemos com nossos próprios meios. Crescemos muito porque não tínhamos que pagar juros. Recebíamos juros enquanto outras empresas tinham de pagá-los, e não era pouca coisa. Essa foi a diferença. Não gostamos de seguir modas. Preferimos pensar, analisar, criar nossa própria tendência a nos deixar escravizar pela situação.

Em que áreas do setor de imóveis sua empresa cresceu mais?

No setor de imóveis residenciais. Trabalhamos em muitos desses mercados. Temos outra empresa, a CCP, com ações em bolsa, que cuida da parte de aluguel de imóveis. É uma empresa pequena. No setor residencial, crescemos talvez de 80% a 90% ao ano nos últimos três ou quatro anos. Em 2009, provavelmente não cresceremos a essa taxa. Talvez daqui em diante aquele porcentual não se repita. O crescimento se deu nas faixas de renda baixa, média e alta. É claro que o segmento de baixa renda deverá crescer mais, porque há mais gente querendo comprar apartamentos nesse nível de renda.

Embora o Sr. diga que o mercado está mais devagar, soubemos que sua empresa lançou recentemente um edifício cujo espaço foi totalmente vendido num único dia. Como conseguiu isso?

Eu não queria trabalhar com financiamento a longo prazo. Não queria recorrer ao banco para contratar uma hipoteca porque as taxas são muito caras. Propus então que lançássemos o projeto só se tivéssemos condições de financiá-lo nós mesmos. Foi assim que conseguimos vender um edifício inteiro em cerca de 48 horas – com 30% de entrada em dinheiro e os 70% restantes em 36 meses. Portanto, o prédio foi totalmente financiado por nós mesmos. Pretendemos entrar nesse segmento futuramente. Não queremos mais trabalhar com financiamento de 10 a 12 anos, e nem queremos depender dos bancos. Gostaríamos de ser financiados pelos compradores, se possível. Estamos lançando outro edifício no Sul com prazo de pagamento de dez anos, e não três. No primeiro dia, vendemos 48% do espaço disponível. Pelo que me disseram, o prédio estará totalmente vendido em dois ou três dias. Mas nem todo o mundo tem a mesma história. Gostaria que fosse assim todos os dias.

Quais são duas principais prioridades para os próximos dois ou três anos?

Além do trabalho propriamente dito, faço muita caridade também, portanto…

Sabemos que o Sr. se interessa muito por projetos de caridade na área da educação. Poderia nos falar um pouco a esse respeito?

Creio em Deus, e acho que um mundo sem Deus é um mundo pobre. Portanto, meu objetivo é levar Deus aos estudantes. Tínhamos muitos projetos educacionais em várias universidades que procuram ensinar valores espirituais. O que falta no mundo de hoje são valores espirituais. Não é só o material que importa, o dinheiro, os negócios (…). Temos de valorizar o espiritual. Procuramos nos concentrar nisso. Nossos esforços são cada vez mais intensos, porque temos tido sucesso. Outras pessoas estão se juntando ao grupo. Não estamos sozinhos, e isso requer muito dinheiro. É uma grande obra de caridade.

Qual o maior desafio de liderança que o Sr. enfrentou ao longo de sua carreira?

Meu maior desafio foi convencer as pessoas de que o mundo havia mudado. É muito difícil convencer as pessoas que o jogo não é mais o mesmo.

Uma última pergunta: como o Sr. define o sucesso?

Ter sucesso significa errar pouco e acertar muito.

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