História que se destaca


(Gazeta do Povo) – 25/04/10

Projetos no centro de Curitiba aproveitam casarões antigos na concepção de prédios novos. Benefício vem em forma de conservação e valorização das construções

Estrutura da casa foi reforçada e as características arquitetônicas mantidas no projeto do escritório Slomp e Busarello Arquitetos

Construtoras e incorporadoras que têm como foco de seus lançamentos a região central frequentemente se de­­param com terrenos onde há construções de interesse histórico: patrimônios tombados pelo Estado ou Unidades de Interesse de Pre­­servação (UIPs), um tipo de tombamento feito pelo município. Mais 600 imóveis possuem essa característica em Curitiba.

Como não são permitidas in­­tervenções que descaracterizem as construções, que por vezes estão em estado precário de conservação, a saída é a restauração e incorporação do espaço ao novo empreendimento.

“O centro de Curitiba é guardião da maior parte das edificações que enriquecem, dão vida e atuam de forma cronológica para a história e a cultura da cidade”, afirma a gerente de Gestão de Projetos da In­­vespark Empreendimentos Imo­­biliários, Michelle Beber. A empresa tem dois projetos com essa ca­­racterística na região central.

Para o supervisor de planejamento do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), Ricardo Bindo, Curitiba é uma capital com loteamentos antigos consideravelmente profundos ou largos. Mesmo que haja um imóvel histórico é possível aproveitar o terreno para uma nova obra junto à edificação antiga.

Vantagens
A Lei Municipal 6.337 de 1982 trata dos incentivos construtivos quan­­do da preservação de imóveis históricos. “As UIPs e os imóveis tom­­bados têm descontos no Im­­posto Predial Territorial Urbano (IPTU), que variam de acordo com seu estado de conservação e pode chegar a 100%, apenas para a área do prédio preservado”, diz Bindo.

Outra vantagem são os parâmetros especiais de ocupação. O prédio histórico não conta como área construída e nem como taxa de ocupação. “Isso é feito para não limitar as possibilidades do novo empreendimento. Mas é importante lembrar que o ideal é que a UIP fique de certa forma isolada da nova construção. A ligação entre os imóveis pode acontecer com elementos arquitetônicos, como corredores ou passarelas”, comenta.

Antes da construção é preciso obter aprovação do poder público para incorporar um imóvel tombado pelo patrimônio a uma obra nova e é preciso assumir o compromisso da restauração, considerando a história do edifício e levando em consideração desde o tipo de pintura à conservação dos pisos e portas.

Para Michelle, na nova construção deve ser observada a coerência entre o novo e o antigo, seguindo parâmetros que não apaguem a visualização da UIP.

Entre os projetos incorporados pela Invespark está o Lifes­pa­ce Es­­tação, que será construído na rua Barão do Rio Branco. Uma casa da­­tada de 1890, em frente à Praça Eu­­frásio Correia, será preservada e servirá como hall e área de convívio para os condôminos. O imóvel é um patrimônio tombado pelo Estado e, segundo Mi­­chelle, houve a exigência para que o espaço não fosse explorado co­­mercialmente.

O projeto arquitetônico, feito pelo escritório Dória Lopes Fiuza, definiu a torre em formato escalonado, para não impedir a visualização do complexo histórico do entorno.

A arquiteta responsável pelo projeto de interiores, Mônica Thá, conta que particularidades do imó­­vel histórico serão aproveitadas para destacar o novo. “No piso do hall do prédio novo utilizaremos paginação igual a do piso que será preservado no hall da casa”, explica.

Outro exemplo da empresa é o edifício Le Parc, em obras na rua Emiliano Perneta, entre a Visconde do Rio Branco e a Visconde de Ná­­car. À frente do edifício há um ca­­sarão, considerado uma UIP, que, após a restauração, será locado pa­­ra uma livraria ou café.

O arquiteto responsável pelo projeto, Orlando Busarello, conta que as intervenções no imóvel histórico respeitam e valorizam as ca­­racterísticas do estilo arquitetônico, além dos materiais e sistemas construtivos da casa antiga. “A infraestrutura elétrica, hidráulica e de telefonia foi feita com tecnologia para atender as necessidades de uso de uma construção con­­temporânea. Foram feitos reforços estruturais e fabricadas novas es­­quadrias, de acordo com o modelo e materiais originais”, detalha.

Michelle afirma que a incorporadora, por trabalhar com foco em apartamentos compactos, precisa de áreas centrais, onde há mais demanda por esse tipo de imóvel. “Com a possibilidade de usar áreas onde estão instalados imóveis históricos, há um ganho tanto para empresa, quanto para a cidade”, avalia.

Obras concluídas juntam passado e presente
Entre os empreendimentos concluídos no centro de Curitiba que cumpriram com o propósito que as obras da Invespark estão buscando está a antiga sede do Clube Rio Bran­­co, na esquina das ruas Doutor Car­­los de Carvalho e Visconde do Rio Branco.

A construção do final do século 19 é um bem tombado pelo Estado e a restauração se deu durante a construção do prédio anexo. Ambos es­­tão alugados e abrigam o Tribunal Regional do Trabalho da 9ª Região. “Acredito que o restauro nesses casos deve manter o máximo possível de características e adequar as instalações (elétricas, hidráulica e de ar condicionado) propiciando segurança, funcionalidade e conforto para os usuários”, diz o arquiteto Thiago Flo­­renzano, que assinou o projeto. En­­tre as adaptações estão os vidros du­­plos colocados nas esquadrias iguais às originais para minizar o barulho .

O novo prédio possui pé-direto du­­­plo na área térrea e grandes janelas de vidro, através dos quais é possível visualizar uma das faces da casa antiga.

Florenzano diz que a negociação com a Comissão de Avaliação de Pa­­­trimônio de Curitiba é flexível. “Há uma exigência grande com relação a pesquisa histórica e de materiais, mas algumas coisas são concedidas”, comenta o arquiteto, que conseguiu autorização para que o estacionamento do prédio anexo passasse por baixo da casa restaurada.

Bem próximo dali, no número 499 da Comendador Araújo, está instalado o Hotel Pestana, parte do complexo Evolution Towers, que tem outras duas torres, e é integrado pela antiga residência do professor e historiador David Carneiro, uma construção do início do século 20. “A solução para esse projeto foi trabalhar com a identidade moderna do empreendimento de forma harmônica, levando em consideração a preservação da casa histórica”, explica o arquiteto Flávio Schiavon, do escritório Baggio Pereira & Schiavon, um dos responsáveis pelo projeto.

Hoje, a casa abriga um espaço cultural – onde estão livros, textos, fotos, objetos e documentos pessoais da vida de Carneiro – administrado em parceria com a Fundação Cultural de Curitiba.

Outro hotel que ocupa um imóvel antigo é o Johnscher, da rede San Juan, na Barão do Rio Branco. O prédio que abrigou, desde 1917, o hotel da família Johnscher, foi doado à Prefeitura em 1995 e recuperado a partir do projeto dos arquitetos Humberto Fogassa e Carlos Lobo. A rede de hotéis tem a concessão de uso por 25 anos, de acordo a administradora da unidade, Cláudia Belloni Passerino.

Neste caso, em que não houve a construção de um anexo, as características contemporâneas estão na decoração dos quartos e do hall, com detalhes como uma intervenção moderna do artista plástico Clever­son de Oliveira.

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